The Violent Century (Lavie Tidhar)

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violent-century-lavie-tidharClichê de resenha de “blog literário”: começar texto descrevendo a dificuldade de comentar sobre um livro do qual você gostou demais. Eu já devo ter feito isso por aqui umas trocentas vezes, e olha, é difícil mesmo. Sensação de que não importa o quanto você escreva, sempre deixará algo importante de fora, ou não conseguirá passar de forma satisfatória o que tanto te encantou ali. Só que agora eu encontei um pepino novo para quem gosta de escrever sobre o que tem lido – com The Violent Century (de Lavie Tidhar), descobri um campo novo do “putz, é difícil comentar sobre isso”. Anota aí: “livros com enredos bem sacados, ótimas personagens, momentos marcantes e que mesmo assim não chegam perto dos livros da sua lista de favoritos”. Sério, complicado. Você fica tentando entender o que foi que faltou ali, se tinha tudo para funcionar.

Primeira vez que ouvi falar de The Violent Century foi em um artigo do io9, que anunciava que o romance era “like Watchmen on crack“. Não precisava nem ler muito mais, o autor já tinha minha curiosidade. Mas vamos lá: imagine como seria o cenário da Segunda Guerra Mundial (e os eventos históricos seguintes) se por acaso existissem super-heróis. Em The Violent Century conhecemos Fogg e Oblivion1, que costumavam trabalhar em dupla no “Retirement Bureau” e que acompanharam de perto grandes momentos do século XX. Tudo normal, não fosse um detalhe: o “Retirement Bureau” é uma espécie de órgão secreto do governo Britânico dedicado aos Übermensch, pessoas que após “A Mudança” passaram a ter super poderes. Fogg, como o nome sugere, controla o nevoeiro e Oblivion faz com que as coisas desapareçam.

Veja, a ideia é muito legal, porque por mais que já tenhamos pensado no que aconteceria se super-heróis realmente existissem ao ler Watchmen, o livro de Tidhar segue além e pergunta (com uma frequência que parece refrão de poesia): what makes a hero? Então não é como se você tivesse mais do mesmo em mãos, há algo de novo ali. Eu queria poder citar todo o trecho do Dia D com os heróis americanos para você entender o que quero dizer, mas ele ficaria longo demais aqui. De qualquer forma, acho que foi naquele momento que eu pensei “Ok, não gosto do estilo da narrativa, mas vou até o fim”.

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  1. li o livro todo imaginando o Oblivion como o Tom Hiddleston, virge! []

O Segredo do Meu Marido (Liane Moriarty)

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tmb_segredoSei que em um mundo cada vez mais umbigo esse tipo de constatação às vezes chega com algum atraso, mas é inevitável em algum momento perceber que não adianta planejar, organizar, prever: muito da sua vida dependerá de terceiros, que podem simplesmente não seguir seu roteiro. Pensei bastante nisso enquanto lia O Segredo do Meu Marido (de Liane Moriarty), especialmente quando a história se concentrava na control freak Cecilia: mãe de três meninas, muito bem casada e igualmente bem sucedida na carreira de vendedora de tupperware. Tem o tal do “pacote completo”, que consegue manter com muito trabalho (e organização). Tudo segue bem até que por acaso encontra um envelope. É uma carta de seu marido, que ela deve morrer apenas quando ele morrer.

É natural que o leitor acabe pensando que o livro será sobre o conteúdo dessa carta (até porque o dilema de Cecilia sobre ler ou não se estende por vários capítulos) e pense que o tal do “segredo do marido” seja um mistério a ser desvendado (ou daqueles que sustentam a curiosidade do leitor até o fim do livro). Não é o caso. O segredo do meu marido é um daqueles livros “enganadores”, que tão logo o leitor avança na leitura, percebe que não era exatamente o que esperava, mas talvez até algo melhor. Então digo desde já que não acho que o segredo seja o mais importante na história, mas para quem tem frescura de spoiler é sempre bom avisar então lá vai: daqui para frente tem spoilers, etc.

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Quiçá (Luisa Geisler)

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PV Rio de Janeiro (RJ) 09/10/2012 Capas de livro Foto: ReproduçãoJá comentei sobre isso quando escrevi sobre O lado bom da vida, mas como ninguém nunca clica em links vou falar novamente: o ato de ler um livro é, de certa maneira, um jogo de adivinhação. É algo quase inconsciente, funcionando como parte do processo de recepção da história. Lembro aqui de um trecho de A leitura de Vincent Jouve que explica bem essa questão:

O texto, com felicidade qualificado por Eco de “máquina preguiçosa”, necessita das previsões do leitor para funcionar. Depende dessa condição para poder confortá-lo, surpreendê-lo ou, simplesmente, interessá-lo. (pg.76)

Dando um exemplo, aposto que nesse exato momento você está pensando “Por que diabos a Anica está citando esse cara se o título ali no topo indica que ela quer falar de Quiçá da Luisa Geisler?“. Ok, acho que deu para entender como funciona. O negócio é que acredito que em alguns casos a participação do leitor nesse processo de adivinhação não toma um espaço tão importante na leitura, em outros, como acontece com Quiçá, grande parte do charme do livro é que ele dá uma importância maior para o leitor e suas adivinhações, graças à estrutura da narrativa.

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How I Met Your Mother (Series Finale)

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Eu acho que ninguém que acompanha um show por algum tempo fica lá muito satisfeito com um final de série. Porque nunca atenderá nossas expectativas, já que temos uma ideia própria do que seria o desfecho ideal. Além disso, o óbvio: se você acompanha há tempos, é evidente que você gosta, então aquele sentimento de despedida de personagens queridas pode descer meio mal. Isso se encaixaria com o finale de How I Met Your Mother? Não sei. A sensação geral que eu tive, pelo menos para os minutos finais da série, foi que o que estragou tudo foi a nona temporada (que, por incrível que pareça, eu adorei).

Vamos lá, aos poucos: se você está lendo esse post deve já ter percebido que comentarei o episódio, portanto spoilers rolarão soltos aqui, a começar pelo que  (para mim) foi o problema da conclusão. Tem um post meu aqui de julho do ano passado em que listei não-casais favoritos, onde dá para ler a seguinte descrição para o casal número três:

Aqui o azar é tão grande que a última temporada será toda sobre o final de semana do casamento da Robin com… o Barney. E então que eu estou quase querendo acreditar numa teoria louca de fãs que tem rolado por aí de que na realidade a mãe morreu e Ted está contando para os meninos como a conheceu, mas agora está com a Robin. Gente, que troço triste, melhor não.

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Rodada de YA

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Explicando pela enésima vez porque sempre tem o perdido que chega aqui por causa de um único post e aí acha que eu tenho preconceito sobre YA e blablabla. Não, eu não tenho. Eu curto, me divirto e alguns eu considero acima da média, vide o caso de Eleanor & Park e A culpa é das estrelas, por exemplo. Mas a verdade é que os YA que andei lendo recentemente não são exatamente aqueles sobre os quais eu tenho muito a comentar, então resolvi agrupá-los em um post só (sim, esse que você está lendo agora), para não ficar sem o registro (porque eu já estou naquela fase em que vejo post antigo meu aqui e penso “Caramba, eu li esse livro??? Sério???”). Bom, aos comentários.

Anna-e-o-Beijo-FrancêsAnna e o Beijo Francês (Stephanie Perkins): Anna é uma garota americana que vai passar o último ano antes da faculdade em uma escola em Paris. Pode ser o seu sonho, mas o fato é que ela não queria nada disso, especialmente porque não queria viver longe da melhor amiga e do rolinho que poderia virar algo mais sério. Aos poucos ela vai conhecendo pessoas novas e vai se deixando encantar pela cidade.

Então. Apesar de o enredo tomar um caminho bem previsível, o livro me conquistou principalmente porque as descrições que Perkins faz de Paris são ótimas, você quase viaja junto com a protagonista. a escola de Anna fica no Quartier Latin, mesma região em que fiquei quando fui para lá, então acabei morrendo saudades (e de vontade de viajar). Além disso, o interesse romântico da menina é um fofo, então o lado noveleira meio que pega o balde de pipoca e acompanha animada o will they won’t they por mais que já tenha ideia que yes, they wil.
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O escolhido foi você (Miranda July)

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escolhidoNão sei sobre você, mas eu devo ter memória seletiva quando o assunto é resenha de terceiros, porque não é possível eu ler opiniões de outras pessoas – em alguns casos até bem detalhadas – e ainda assim me surpreender com livros. Vai ver é por isso que não ligo muito para spoilers, vá saber. O fato é que quando finalmente comecei a leitura de O escolhido foi você de Miranda July eu já tinha lido tanta coisa sobre o livro que em teoria não haveria mais espaço para surpresas. Mas caramba, que surpresa. E que surpresa boa.

Então, aquilo que eu lembrava de ter lido em toda resenha e que eu conto aqui para você caso ainda não tenha visto nada sobre o livro por aí (o que acho difícil, já que ele foi lançado em fevereiro do ano passado, mas nunca se sabe, né): Miranda July é roteirista, e estava vivendo um momento de bloqueio criativo quando um dia no meio da já rotineira procrastinação, tem a ideia de entrevistar pessoas que publicam anúncios no PennySaver. Quer conhecê-las, capturar um tanto de suas histórias e transformar isso em um projeto paralelo que justifique seu “não-escrever”, digamos assim. Continue lendo

True Detective (ou: Porque o finale foi tão bom)

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(O título já deveria ser bem explicativo, mas né, vale o aviso: se você é fresco de spoiler e ainda não viu a série, volte depois)

Foi mais ou menos assim: começo de ano, eu ainda empolgada com o retorno de Sherlock, e começam a aparecer ali e aqui notas comentando sobre uma nova série que era a grande promessa da HBO, chamada True Detective. Por coincidência, a curiosidade falou mais alto exatamente na semana em que saiu o primeiro episódio, então comecei a acompanhar logo que começou, sem aquela desconfiança que todos nós sentimos sobre séries que do nada começam a ser muito comentadas. Cheguei meio perdida, sem saber qual era a proposta, o formato e a fins – só sabia que tinha um crime da década de 90 investigado por uma dupla de policiais, que seria ligado com outro na década de 00. Hmkay, é o tipo de coisa que pode ser interessante, vamos conferir.

Negócio é que terminei o primeiro episódio (The Long Bright Dark) com o queixo no chão. A forma como a história é construída, com três linhas temporais principais (2012, 2002 e 1995), funciona muito bem porque instiga nossa curiosidade ao mesmo tempo que vai cozinhando as personagens em fogo baixo, digamos assim. Em 2012 vemos um Rustin Cohle (Matthew McConaughey) comentando sobre certa investigação da qual fizera parte em 1995. Há um abismo tão grande entre o Rust de 90 e o de 10 que você não consegue deixar de se perguntar: o que diabos aconteceu com esse sujeito? Por outro lado o Martin Hart (Woody Harrelson) que também está prestando depoimento é um sujeito engomadinho que obviamente “subiu na carreira” dentro da polícia desde 95. O que dividiu o caminho desses homens? Por que não são mais uma dupla? Mais além, por que tanto tempo depois outros investigadores chegam até eles querendo saber sobre um crime do passado?

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Um pandemônio.

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