Melhores leituras de 2020

É estranho. Passei quase todo o ano passado falando que a pandemia tinha esculhambado minhas leituras, afetado o ritmo, etc e aí fechou o ano, fui ver as contagens lá do Goodreads e meio que bateu com minha média de sempre. Mas eu sei que afetou algumas escolhas de leitura (tendi para leituras mais leves, por exemplo), e tenho total noção que afetou a experiência de leitura também. Tenho certeza que já coloquei esse link do texto do Julián Fuks em vários lugares, mas vou citá-lo mais uma vez porque descreve exatamente meu sentimento enquanto leitora:

(…) me sinto menos capaz de me entregar por completo à leitura, de deixar que ela tome a minha mente inteira. O momento que vivemos é estridente demais, a cada instante convoca os meus pensamentos. Sinto falta, então, de uma literatura plena – e sinto falta de um passado e de um futuro que se deixem ler sem a lente do presente.

No fim das contas não é tanto sobre a quantidade de páginas ou de livros lidos, é mais como estava minha cabeça quando foram lidos. E por causa disso, fica aquela promessa de revisitar em outro momento alguns títulos, mesmo os que não apareceram entre os dez favoritos. E é isso. Então toca o play para a trilha sonora do post e vamos para a lista de 2020, que ficou assim (lembrando, títulos com link é porque já falei do livro aqui):

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Little Eyes (Samanta Schweblin)

Vou começar dizendo que tinha um post entre o último que publiquei e esse que escrevo agora. Era uma espécie de relato do isolamento que não consegui concluir, mas achei que ficaria esquisito chegar aqui e falar do livro novo da Schweblin que acabei de ler, como se hum, o mundo não estivesse de pernas para o ar (e aqui no Brasil o problema não é só sanitário). Então só para deixar registrado: o mundo está de pernas para o ar, mas a gente toca o barco como pode – no meu caso, ainda bem que ainda tenho meus livros para me distrair.

Sobre o livro: Little Eyes (Kentukis no original) da argentina Samanta Schweblin saiu em outubro de 2018 e recentemente ganhou uma tradução para o inglês – há uma tradução portuguesa, mas no Brasil pelo que eu vi ainda não tem nada. Os anglófonos estão bem encantados, tanto é que o livro está na longlist para o International Booker Prize de 2020, então o negócio é torcer para que isso sirva como incentivo para alguma editora daqui.

A história descreve a vida das pessoas do mundo todo durante a mania dos kentukis – bichinhos de pelúcia controlados remotamente por uma pessoa desconhecida. Desde o início fica a impressão de que é  algo que poderia acontecer conosco agora mesmo – isso se não extrapolarmos e pensarmos que já acontece, de certa maneira, com nossos celulares ou assistentes tipo a Alexa. Mas o mais bacana é que a autora vai além da discussão sobre como abrimos mão de nossa privacidade, explorando também o horror do que somos quando ninguém está olhando – ou quando achamos que ninguém está olhando.

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