Suponho que, no fim das contas, a vida inteira se torna um ato de despedida.

Dá o play aí:

Estive pensando em uma cena em especial do filme As Aventuras de Pi, no momento em que o protagonista está lembrando de quando ele e o tigre Richard Parker se separaram. Fui até consultar o livro para confirmar, e a frase tal como aparece é só na adaptação mesmo. Ao falar da separação, Pi já adulto reflete: “Suponho que, no fim das contas, a via inteira se torna um ato de despedida”. O acúmulo de tempo vivido é também um acúmulo de desapegos, de despedidas, de deixares partir.

Lembrei desta cena em especial porque pareceu um tema meio recorrente em algumas coisas que li e assisti nos últimos tempos. Para começar, de uma forma mais óbvia, o filme britânico Nina Forever (2015). A história (meio comédia romântica, meio filme de terror) fala sobre uma garota (Holly) se apaixonando por um cara (Rob) que ainda está vivendo o luto após a morte da namorada (Nina). Ele parece estar preparado para recomeçar, mas o fato é que tão logo Holly e Rob vão para a cama, a namorada morta aparece. Literalmente. O corpo dela, ainda todo ferido e sangrando surge entre os dois.

Cena do filme Nina Forever.

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Os melhores filmes que assisti em 2025

Weegee
Lovers at the Palace Theater, 1955

Lá em 2004 por causa de um tópico no subfórum Cinema da Valinor eu comecei a publicar anualmente uma lista com os dez melhores filmes que assisti naquele ano. A regra principal era de que só entrava na lista filmes lançados no Brasil, e naquela época isso até fazia algum sentido. Com o passar dos anos, cada vez que deixava um filme de fora (porque não tinha sido lançado no Brasil ainda, ou porque era mais antigo) eu comecei a pensar que talvez fosse uma boa fazer com os filmes o que eu já faço com os livros – não importa a data de lançamento, se foi um dos dez favoritos do ano, entra para a lista.

Só que aí no pós-pandemia bateu um desânimo geral com o blog e em 2022, 18 anos depois de ter começado a publicar as listas, eu parei. Saltamos aí mais uns anos e aqui estou eu, aos poucos me animando novamente a escrever (até como um ato de resistência, sabe? Vou criar conteúdo de graça para fdp tech bro milionário por quê?) e resolvi voltar com as listas. Assisti quase nada esse ano, mas acho que saiu uma seleção ok – e então a partir de agora, não importa mais o ano de lançamento. A lista completa dos filmes que assisti em 2025 está aqui. E os dez favoritos são:

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Mais apavorante do que a ficção

Era uma vez um texto que rodou bastante a internet ali no começo dos 2000 (ou seja, ainda era recebido em e-mails ou aparecia como posts em fóruns de discussão) e apresentava um título que prometia a versão “verdadeira” dos contos de fadas. Saem os casamentos com príncipes e finais felizes, entram histórias macabras com olhos arrancados, pés decepados e muito, muito sangue. Mas esse uso do termo “verdadeira” é coisa típica de internet, a certeza de saber o que na realidade não sabe, né? Porque a ideia de uma versão ser a “verdadeira” vai contra a própria natureza dos contos, que segundo Angela Carter, tratam-se de “histórias anônimas que podem ser reelaboradas vezes sem fim por quem as conta“. 1

Então, quando falamos de contos de fadas não temos uma versão “verdadeira”, mas várias – é normal a releitura, o reconto. E essa natureza mutante do conto popular continua viva, porque mesmo que o diálogo inicial parta de uma versão de conto lá da Coleção Disquinho, por exemplo, ela segue sendo recontada em livros, filmes e afins. E eu não estou falando desses live-actions totalmente dispensáveis da Disney, é óbvio. Falo de releituras como o filme The Ugly Stepsister (dirigido por Emilie Kristine Blichfeldt) e o livro Sour Cherry de Natalia Theodoridou. Continue lendo “Mais apavorante do que a ficção”

The Echoes (Evie Wyld)

The Echoes da anglo-australiana Evie Wyld (ainda sem tradução no Brasil) inicia com o que é até o momento minha frase de abertura favorita das leituras de 2025. Diz o narrador: “Eu não acredito em fantasmas, o que desde minha morte vem sendo um problema.”. O fantasma-narrador conversa com o leitor de um ponto recente do pós-vida, ele ainda não sabe o que precisa fazer para sair daquela situação, ele não sabe o que pode fazer já que é um ser incorpóreo e invisível. Ele também não lembra como morreu. Mas sabe que está preso na casa onde vivia com a namorada Hannah.

O que eu gosto desse primeiro capítulo é que de certa forma ele já nos apresenta o tom da história, mesmo que ela cresça em forma nos capítulos seguintes: é engraçada na mesma medida em que é melancólica. Ela é, principalmente, uma reflexão sobre como nossas ações no passado acabam repercutindo não só no nosso presente, mas nos dos outros também. E isso conseguimos ver inclusive na estrutura do romance: Max é o mestre de cerimônias, abre o livro com seu capítulo em primeira pessoa que também iniciará a sequência de capítulos que estruturará o livro.

Depois de Max vem sempre Hannah, num passado pouco distante, registrando os últimos meses antes da morte de Max – os capítulos em terceira pessoa. Depois desse passado recente somos jogados para um passado mais distante, na adolescência de Hannah vivida na área rural australiana. Finalmente, fechando a sequência, vemos um pedaço da vida de uma das pessoas desse passado distante de Hannah. Como dá para perceber, Max não é a personagem principal -e de certa forma ele nem será o personagem principal da vida de Hannah. Mas é um daqueles casos de pessoas que passam na nossa vida e deixam uma marca, que (nesse caso literalmente) nos assombram mesmo depois de anos.

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Iris, Annie e outras garotas que falhariam no teste Voight-Kampff

Eu queria ter gostado mais de Acompanhante Perfeita (Companion, 2025), mas até agora eu não se se é o filme que bate na trave mesmo, ou se é porque eu já vi a mesma ideia melhor desenvolvida em um livro no ano passado. Eu achei bem sacado nos minutos iniciais eles não entregarem logo de cara a natureza da Iris (embora por trailers e outras peças de marketing a gente já saiba). Você vê Iris e Josh como um casal normal e apaixonado, fora uns “opa, pera.” que surgem do nada (mas bem discretos, como o fato de Iris chegar carregando as malas grandes sozinha enquanto Josh está só com uma bolsa leve, ou a Iris toda animada depois do sexo e Josh só vira para o lado e diz um “vai dormir, Iris”).

Talvez o que tenha me incomodado é que o enredo tenha girado mais em torno de Iris tentando sobreviver aos eventos da viagem com os amigos de Josh. Em muitos momentos o filme é mais comédia do que um suspense, o que parece tirar um pouco o peso do que é que significam as ações de Josh ou mesmo a relação dele com Iris. É um filme ruim? Não é. Mas fica a sensação de que poderia ser bem melhor. Continue lendo “Iris, Annie e outras garotas que falhariam no teste Voight-Kampff”

Os melhores filmes de 2021

Janeiro já no fim, mas eu não posso deixar de colocar aqui minha listinha de filmes favoritos de 2021. 2021 foi um ano de reabertura dos cinemas, só que ainda não tenho coragem de ir. Nem de Aura. Fico pensando se vai aparecer um filme que seja o que me faça vencer o medo, mas por enquanto não aconteceu (dei uma respirada mais rápida com o anúncio do show no telhado dos Beatles no Imax, mas já passou).

E é engraçado pensar que boa parte dos meus favoritos de 2021 não são produções atuais. Assim: foi um ano que vi bastante coisa, e gostei de muito do que assisti. Ano de descobertas, de novos nomes para entrar naquela lista para ficar de olho. Mas ao mesmo tempo, que difícil fechar um top10 seguindo a regra do “filmes lançados no Brasil em 2021”.

Foi ano de me encantar duas vezes com a Holly Hunter (Broadcast News e O Piano), me apaixonar pelo Wong Kar-wai (como é que cheguei aos quarenta sem ter assistido In the Mood for Love ou Chungking Express eu não sei, mas ainda bem que corrigi o erro, os dois entraram na lista de favoritos de todos os tempos). Deu para me entupir de comédias românticas de décadas passadas: a Audrey Hepburn com o Peter O’Toole em How to Steal a Milion! O Cary Grant com a Ingrid Bergman em Indiscreet! A Audrey Hepburn com o Cary Grant em Charade! O Cary Grant! *chef’s kiss*

Enfim, bastante coisa diferente. E ficou muita coisa para conferir ainda, filme que eu sei que vou gostar mas não estava no momento certo para ver (tipo os da Marvel, eu não tenho cabeça para filme da Marvel por enquanto, mas tão divertidos os filmes de herói, né.). Então é isso. Para referência, aqui tem a lista de todos os filmes que assisti em 2021 e vão aí os links para as listas dos outros anos:

 20042005200620072008200920102013201420152016201720182019| 2020|

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Os melhores filmes de 2020

Mais de uma vez em 2020 eu pensei: “Putz, que saudades de ir ao cinema.”. E tenho saudades mesmo. Mas dia desses me dei conta que não é mais um dos problemas gerados pelo covid: o cinema do qual sinto falta não existe há anos, pelo menos aqui em Curitiba.

Se você quer qualquer coisa fora do universo cinemático da Marvel (e sem reclamações, eu gosto dos filmes da Marvel, mas também gosto de outros filmes), já precisa se contentar com poucas salas e poucas opções de horário. Aí tem o problema do número de salas com áudio original. E quando as estrelas se alinham e você finalmente consegue uma sala no horário que poderia ir, com áudio original (e sem 3D), ainda tem que lidar com os malas que foram ao cinema para, sei lá, ficar olhando para a tela do celular. Enfim. Eu poderia botar essa na conta do covid, mas não vou.

Também não vou fazer o jogo do contente porque não tem lado bom para uma pandemia que nesse momento se aproxima da casa dos 200.000 mortos só aqui no Brasil. Mas observando as coisas como são (ou ainda, como foram), chamou minha atenção que o número menor de lançamentos nos cinemas acabou com um certo tipo de angústia de estar em dia, aquela coisa de “tenho que ver o que é essa coisa que tá todo mundo comentando”. É uma angústia besta, mas se você também deu uma respirada aliviada porque não teve que ver tooooodos os filmes, deve entender do que estou falando. E aí sobra mais tempo para outras coisas, para ver aqueles que há tempos queria, mas nunca tinha assistido – e alguns foram tão legais que dá até vontade de fazer uma lista fora das regras das listas aqui.

Revi Entrevista com o Vampiro, Da Magia a Sedução (melhor filme de bruxa) e Monty Python em Busca do Cálice Sagrado, finalmente vi Perfect Blue, A Época da Inocência, The Philadelphia Story, O Serviço de Entregas da Kiki (a coisa mais fofa e mais feel good que assisti nesse ano lazarento), Paris When it Sizzles, Dente Canino. Deu para ver uma penca de comédia romântica, incluindo uns com a Sandra Bullock do começo do século que eu acabei perdendo. Assisti dois Guy Ritchies no mesmo ano, caraca. Enfim, a última vez que vi tanto filme eu ainda não tinha filhos, não trabalhava e morava com minha mãe.

E dos mais recentes, não faltou coisa nova para ver, só faltou os mega-super-filmes-do-ano, que resolveram segurar para ver qual é. Eu ainda estou curiosíssima sobre Promising Young Woman e The Green Knight. O primeiro parece que saiu da gaveta lá fora (andou ganhando um monte de prêmios), o segundo continua engavetado, de repente em 2021 ele aparece. Nem que seja direto em serviços de streaming, como aconteceu agora no fim do ano com o Wonder Woman 1984.

Então é isso. Só para referência, ficam as listas dos outros anos: 2004| 2005| 2006| 2007| 2008| 2009| 2010| 2013| 2014| 2015| 2016| 2017| 2018| 2019| Fechando naquelas regras de sempre, lançamento nacional (streaming, cinemas, etc.) e qualquer outra chunchada aleatória para servir na lista, o top10 do ano na minha opinião ficou assim:

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Adoráveis Mulheres e o Oscar

Eu estava planejando um post bo-ni-to falando um pouco sobre os nove indicados para a categoria de melhor filme do Oscar (ontem finalmente terminei O Irlandês), mas hoje cedo li um artigo da Time sobre um possível motivo para a ausência de mulheres na lista de melhor direção e é isso, preciso me concentrar um pouco em Adoráveis Mulheres, porque o próprio filme fala sobre a situação da Greta Gerwig e outras diretoras em premiações como o Oscar e também de como são recebidas pelo público em geral.

Como já bastante comentado, Gerwig tomou algumas liberdades em sua adaptação. Eu não li o livro, não posso falar sobre as diferenças, então vou comentar aqui sobre minha visão entre a versão para o cinema de 1994 e a atual, sendo o ponto-chave a personagem Amy. Ao deixar de lado uma narrativa linear, Gerwig nos oferece uma visão diferente da irmã March: você pode até não morrer de amores pela personagem, mas há uma possibilidade de compreendê-la que não está presente na versão mais antiga.

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Os melhores filmes de 2019

Uou. Já são 15 anos fazendo a lista de melhores filmes aqui no blog. Falhei em 2011 e 2012 porque ainda estava me adaptando à maternidade, mas fora isso, desde 2004 volto sempre aqui para contar quais foram meus dez filmes favoritos do ano que passou.

Em 15 anos até o modo como acompanhava cinema mudou. A minha lista de 2004 e 2005 tem muitos filmes que… ALUGUEI EM UMA LOCADORA. Em 2004, minhas principais fontes de informação ainda eram a revista SET (sim, de papel) e o site Cinema em Cena. Mas já estava começando a seguir recomendação dos amigos lá do Fórum Valinor (a mania das listas começou lá, diga-se de passagem).

Dois anos antes lembro que tinha saído o segundo filme da trilogia nova de Star Wars (agora já não mais nova), e o Uglúk mandou link para baixar pelo emule (!!!!!) um spot de tv do Yoda lutando contra o Dooku, que simplesmente não estava acessível para os brasileiros ainda. Agora com A Ascensão de Skywalker a Disney não deu um espirro sem que todas as redes sociais no mundo inteiro fossem atualizadas. Continue lendo “Os melhores filmes de 2019”

Os melhores filmes de 2018

Quase final de janeiro, Globo de Ouro já passou, amanhã saem os indicados do Oscar e eu nem tchuns para minha lista dos melhores de 2018. Vá lá, a verdade é que vi pouca coisa no ano que passou. Um misto de preguiça e muita coisa para ler para as aulas (e o número absurdo de série nova que tem saído, tá loco). De qualquer forma, só para não ficar sem o registro, vou deixar minha listinha.

Aquela coisa de sempre, vale lançamentos no Brasil, com a chunchadinha básica do “lançamentos em festivais”. Sinais do tempo, coisa que nunca explicitei mas acho que vale a pena deixar claro: valem filmes lançados direto no catálogo nacional de serviços de streaming como a Netflix.

As listas dos outros anos estão aqui:

2004 | 2005|2006 | 2007 | 2008 | 2009 | 2010 | 2013 | 2014 | 2015 2016 | 2017

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