Waiting on a Friend (Natalie Adler)

A memória mais antiga que tenho da epidemia de AIDS é a infame capa da Veja com o Cazuza – e nem é de quando foi lançada, no final de 1989. A revista se congratulava muito pelo barulho ao redor da capa1, e nos anos seguintes volta e meia ela aparecia em matérias sobre a doença. Acredito que considerando que na época da capa eu tinha ainda oito anos, é normal que eu demorasse quase dez anos para entender a gravidade do assunto. Isso tudo para dizer que, embora nascida em 1981, eu não vivi de fato aquele período e não sei muito sobre ele a não ser o que li depois.

O material sobre os primeiros anos da epidemia é farto. Representações no cinema, reportagens, artigos, livros. O quadro formado não é bonito, e sempre o que mais se destaca é o preconceito da época, já que inicialmente a AIDS era vista como uma “doença de gays”. Você que sobreviveu à pandemia de COVID e agora está com o olho tremelicando só de lembrar como muita gente achou que dava para tocar uma vida normal já que “só idoso morria de COVID”, talvez consiga ter alguma ideia do que esse descaso inicial com a epidemia significou porque inicialmente criou-se a ideia de que existia um “grupo de risco” cuja vida era dispensável ou não relevante.

A questão é: ainda que igualmente revoltante, não foi de forma alguma a mesma coisa. O descaso do começo da epidemia de AIDS tinha um toque de crueldade, uma visão asquerosa de que a doença era uma espécie de punição para um grupo específico de pessoas. Basta assistir ao curta da Vanity Fair When AIDS Was Funny, que trouxe ao público áudios até então inéditos da conferências de imprensa da época do começo da epidemia. Eu recomendo o clique porque acho importante sempre não esquecer para não repetir, mas é sim um conteúdo pesadíssimo, especialmente quando passa o som da risada de todo mundo na conferência de imprensa assim que o repórter se refere à doença como “peste gay”.

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Betrayal (Harold Pinter)/Little Vanities (Sarah Gilmartin)

Lembro que a primeira vez que ouvi falar no Harold Pinter eu estava quase terminando a primeira graduação. Foi o ano que ele ganhou o Nobel de Literatura, e no dia seguinte ao da premiação minha professora de Literatura em Língua Inglesa IV – disciplina totalmente concentrada em teatro anglófono – perguntou se alguém já tinha lido e eu fiquei morrendo de vergonha porque não só não tinha lido como nunca tinha ouvido falar1. Eu poderia até dizer que o prêmio atiçou minha curiosidade e eu imediatamente fui ler algo do Pinter já naquela época, mas o fato é que a) ninguém lê menos por lazer do que um aluno de Letras, todo o tempo de leitura fica concentrado nas leituras obrigatórias e b) acesso a livros em inglês em 2005 – antes de e-book, e-reader e afins – ainda era muito difícil. Enfim, fui ler The Homecoming muitos anos depois, e só agora em 2026 conheci Betrayal.

E conheci porque um livro lançado recentemente chamou minha atenção, e ao menos na sinopse sugeria que a peça teria grande importância no enredo. Sabe como é, não quis dar mole como no caso de Writers & Lovers e resolvi ler a peça primeiro. Sobre o livro eu já falo, mas antes quero começar comentando Betrayal porque gostei muito, é um daqueles casos em que o texto dramático é tão bom que você fica morrendo de curiosidade para ver encenado (e imagina com Charlie Cox e Tom Hiddleston no elenco, hehe). E isso principalmente por causa do efeito que Pinter cria ao manipular o tempo da história, e também por confiar no espectador/leitor, já que muito do sentido se constrói a partir do que não é dito.

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Honey (Imani Thompson)

Dos vários caminhos que me levam até um livro novo, o que eu mais gosto é “proposta completamente maluca”. Dá aquela vontade de saber como é que a pessoa que escreve a história dará conta de desenvolver a ideia, se o livro todo será meio fora da casinha como a sinopse (até porque normalmente é). Agora em maio um título assim cruzou meu caminho, cortesia do sub r/weirdgirlliterature.1 Mas vê essa descrição lá do Goodreads e diz se não é irresistível?

Um romance deliciosamente hilário e eletrizante sobre uma estudante de pós-graduação que assassina homens maus e justifica seus atos em nome do feminismo, escrito por uma nova e ousada voz na ficção.

Ok, não deve ser caso se você for um homem mau, mas para todos nós que não somos, a curiosidade é automática, não? Por isso não deixei Honey muito tempo na lista de livros para ler. Quando a história começa sabemos que a protagonista Yrsa estuda afropessimismo em Cambridge,  que ela está em um momento de estagnação da vida: a pesquisa não parece fluir, os relacionamentos são decepções repetidas ao ponto de virarem quase um ritual. O olhar de Yrsa é o de quem se vê dentro de um ciclo mais do que cansativo – é entediante. Isso até o momento em que ela comete o primeiro assassinato, usando como justificativa a injustiça de um professor que tem caso com uma aluna e rouba toda a produção da estudante (inclusive já deixando aqui que o “em nome do feminismo” ali do marketing do livro foi muito mal escolhido, Yrsa que é tão cuidadosa com todos os -ismos da academia nunca justifica os crimes de tal forma).

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Beth O’Leary, plot twists, primeira pessoa, a vida, o universo e tudo mais

Conheci a escrita da Beth O’Leary meio com todo mundo, em 2019. Um ano depois do meu Ano de Leitura e Descaralhamento apareceu um romance que todo mundo estava elogiando, dizendo ser fofinho e divertido e em um final de semana qualquer era bem o que eu precisava e resolvi ler. The Flatshare1 era de fato fofinho e divertido, exatamente o que eu precisava naquele momento.

Numa pegada meio O Feitiço de Áquila em tempos de mercado imobiliário maluco cobrando valores impossíveis, a história girava em torno de Tiffy e Leon, que resolvem compartilhar um apartamento, cada um ocupando em um horário diferente. A comunicação entre os dois começa através de post-its até que eles finalmente se conhecem e se apaixonam. É um livro com protagonistas amáveis, então parte do drama e dos obstáculos encontrados pelo casal se dá por conta de outras personagens. Enfim, um livro gostoso para quando você não quer nada muito além de um romance.

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MEC Livros

Foto de Bruna Araújo para o site do MEC

Foi anunciado pelo governo federal na semana passada o lançamento do MEC Livros. Vingando todo mundo que já foi zoado por sugerir a criação de uma “Netflix de livros” 1,  o MEC Livros é uma biblioteca de e-books, um serviço gratuito e acessível para qualquer brasileiro que tenha uma conta gov.br e acesso à Internet. A plataforma ainda disponibiliza dados sobre suas leituras, como quantidade de livros e páginas lidos, tempo de leitura e quantidade de dias seguidos de leitura (num esquema meio parecido com o streak do Duolingo).

Uma semana depois, a notícia sobre a plataforma já chegou até nos grupos de whatsapp mais improváveis, e acho que parte do que fez as pessoas se animarem é que o acervo não é apenas composto por obras em domínio público (como já acontecia com o Projeto Gutenberg, por exemplo), mas conta também com títulos recentes de editoras grandes como a Companhia das Letras e a Todavia. Não sei qual é a natureza do contrato firmado entre governo e editoras, mas em “Política do Acervo” é dito que:

O acervo disponível para consulta no MEC Livros – a Biblioteca Digital do Brasil é composto parcialmente por obras que se encontram em domínio público ou obras que contam com a devida licença por parte dos titulares dos direitos autorais.

A disponibilização de obras em domínio público segue a legislação vigente sobre direitos autorais no Brasil, conforme estabelecido na Lei nº 9.610, de 19 de fevereiro de 1998.

O portal MEC Livros tem envidado esforços para que nenhum direito autoral seja violado.

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Honeysuckle (Bar Fridman-Tell)

O mito galês de Blodeuwedd conta como ela foi criada a partir de plantas e pedaços de madeira pelos magos Math e Gwydion para burlar a maldição que o herói Lleu Llaw Gyffes recebera da mãe Arianrhod – ele não poderia se casar com uma mulher humana, Blodeuwedd resolveria o problema uma vez que não era humana. É a partir de elementos dessa história que a canadense Bar Fridman-Tell criou seu excelente Honeysuckle (ainda sem tradução no Brasil), mas com alguns twists. Se no mito Blodeuwedd de certa forma aparece como uma vilã traidora, na obra de Fridman-Tell a personagem aparece como uma alegoria para as consequências de um desequilíbrio de poder em um relacionamento.

Em Honeysuckle somos apresentados a Rory, um garotinho de oito anos que vive em uma casa no interior apenas com a irmã mais velha. Abandonados pelos pais, a convivência com adultos se limita à governanta e ao tutor. A questão é que quando a irmã chega na adolescência, as brincadeiras infantis de Rory perdem a graça. Para não ter o irmãozinho a perseguindo pelo terreno da casa, ela cria uma blodeuwedd para ele. Uma amiga para correr, brincar, pescar, nadar no lago.

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Literatura na escola (ou: Harry Potter ao invés de Machado não é a solução.)

Sam Reid como Lestat na série Entrevista com o Vampiro representando a cara que eu faço sempre que vejo alguém falando sobre ler Harry Potter ao invés de Machado de Assis na escola.

(Queria começar dizendo: tem outros livros. Se eu consegui largar a mão do Neil Gaiman você também consegue se libertar de Harry Potter, amiguinho.)

Para os cronicamente online há uma espécie de calendário anual de temas a serem debatidos, aqueles assuntos esgotadíssimos que incrivelmente conseguimos sempre retomar e todo ano discutimos com uma paixão que aparentemente só seria possível para um tema novo. Pois ontem me mandaram um print da rede falecida onde uma pessoa leitora (booktwitteira? booktoker? booktuber? não sei.) sugere que o problema do ensino de Literatura no Brasil é que os professores obrigam os alunos a ler Machado de Assis ao invés de Harry Potter. E com isso declaro aberta a temporada de “As crianças deveriam ler Harry Potter ao invés de Machado de Assis“.

Eu já me irritava com essa sugestão mesmo na versão do bem da Rowling, quando ela ainda fazia revisionismo da obra e do nada dizia coisas tipo “Dumbledore é gay”. Na forma atual a gente nem deveria estar mais sugerindo esse tipo de coisa, mas ok, não vou me fazer de boba, eu sei que no fim das contas a ideia é basicamente “O jovem deveria ler young adult, coisas atuais e divertidas, e não clássicos empoeirados e cheios de palavras difíceis”. Então ao longo do post, entenda “Harry Potter ao invés de Machado” como tal.

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Suponho que, no fim das contas, a vida inteira se torna um ato de despedida.

Dá o play aí:

Estive pensando em uma cena em especial do filme As Aventuras de Pi, no momento em que o protagonista está lembrando de quando ele e o tigre Richard Parker se separaram. Fui até consultar o livro para confirmar, e a frase tal como aparece é só na adaptação mesmo. Ao falar da separação, Pi já adulto reflete: “Suponho que, no fim das contas, a via inteira se torna um ato de despedida”. O acúmulo de tempo vivido é também um acúmulo de desapegos, de despedidas, de deixares partir.

Lembrei desta cena em especial porque pareceu um tema meio recorrente em algumas coisas que li e assisti nos últimos tempos. Para começar, de uma forma mais óbvia, o filme britânico Nina Forever (2015). A história (meio comédia romântica, meio filme de terror) fala sobre uma garota (Holly) se apaixonando por um cara (Rob) que ainda está vivendo o luto após a morte da namorada (Nina). Ele parece estar preparado para recomeçar, mas o fato é que tão logo Holly e Rob vão para a cama, a namorada morta aparece. Literalmente. O corpo dela, ainda todo ferido e sangrando surge entre os dois.

Cena do filme Nina Forever.

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Atrasada para a festa

Há uns dias cruzei com uma edição especial de 25 anos de um livro britânico chamado Ralph’s Party, da autora Lisa Jewell – o que situa o lançamento ali em 1999, considerando ano de publicação da edição. 1999 foi um ano esquisito da minha vida, começou com o deslumbre pela vida universitária e terminou com uma faculdade trancada e uma tentativa frustrada de vestibular para outro curso. Fui ver Matrix, A Bruxa de Blair e O Sexto Sentido no cinema e escrevi o refrão de Smooth na porta do banheiro do bar que eu frequentava. Mas enfim, normal que o livro tenha passado completamente batido para mim, no fim das contas.

De qualquer modo, acabei ficando curiosa, e possuída pelo ritmo Ragatanga pelo espírito de que tudo vale a pena se a memória do e-reader não é pequena, resolvi dar uma conferida. Pois bem, Ralph’s Party é uma comédia romântica publicada em 1999, mas com uma história que se passa em 1996 – e ela grita anos 90. Até por causa disso, mais do que a história em si – que é uma versão mais sem filtro (e britânica) de Friends – o que realmente chamou minha atenção foi como é nostálgico ler sobre aquele tempo, mesmo que a época não fosse particularmente boa.

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Deep Cuts (Holly Brickley)

Lançado no ano passado lá fora, Deep Cuts de Holly Brickley é um livro para entrar no grupo do “obras para apaixonados por música” ao lado de Alta Fidelidade do Nick Hornby e Love is a Mixtape de Rob Sheffield. Talvez de um jeito um pouco Frankenstein, colhendo detalhes da vida pessoal como o Sheffield e criando ficção como o Hornby, tudo temperado com muitos comentários sobre músicas, bandas e discos – no caso de Brickley, principalmente da primeira década dos anos 2000.

A história é simples: Percy e Joe se conhecem quando ainda estão na universidade. Percebem que entre os dois há uma conexão que resulta naquele tipo de amizade em que você jura que a outra pessoa é sua alma gêmea, tamanha a facilidade de comunicação. Mais do que isso, o músico Joe percebe que tem em Percy uma mistura de musa e colaboradora, papel que a garota abraça sem grandes questionamentos porque (aqui sem surpresa para o leitor) está apaixonada por Joe.

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