The Regrets (Amy Bonnaffons)

Se você ler a sinopse de The Regrets, primeiro romance de Amy Bonnaffons, não vai poder dizer em nenhum momento que não foi avisado sobre o fantástico ser uma constante na obra. Thomas morreu em um acidente de moto, mas por causa de uma confusão no passado, foi definido pelo escritório responsável por assuntos do pós-vida como “insuficiente morto”. Para colocar toda a situação em ordem novamente (já deu para perceber que o tal do limbo é um local bem burocrático, não?), o recém-falecido precisará passar mais três meses entre os vivos. É nesse período que ele conhece a bibliotecária Rachel. Contrariando as regras impostas a Thomas, os dois se apaixonam.

Parece quase uma comédia romântica imaginada por Tim Burton, não? Mas embora The Regrets seja muito engraçado em vários momentos, ele surpreende pelas escolhas da autora, e ao invés de ser uma fantasia sobre um casal improvável, é uma história que lida (entre outros tantos temas) sobre relacionamentos nos tempos atuais: das marcas que deixamos nas pessoas que passam em nossas vidas, da bagagem que carregamos para novos relacionamentos, da dificuldade de romper quando é preciso.

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Such a Fun Age (Kiley Reid)

Emira Tucker é uma garota de 20 e tantos anos convencida de que perdeu o bonde para a fase adulta: todas suas amigas já estão trabalhando na área em que estudaram, algumas até comemorando promoção. E Emira, mesmo formada, não sabe muito bem o que quer fazer da vida. Por conta disso, paga as contas com trabalhos que não oferecem grandes vínculos (nem benefícios), entre eles babá de uma família de ricos, os Chamberlain.

Em uma noite especialmente ruim para Emira (comemorando o aniversário de uma amiga e percebendo justamente o quanto está ficando para trás), os Chamberlain pedem que ela venha correndo ajudá-los a distrair a filha mais velha enquanto lidam com uma janela quebrada. Emira leva a pequena Briar para um mercado da região e em determinado momento é abordada pelo segurança: uma cliente achou estranho uma menina tão pequena em um mercado naquela hora, e sugere que ela tenha sido sequestrada. Ah, sim, claro: Emira é negra, Briar é branca.

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Nothing to See Here (Kevin Wilson)

Logo após completar os 28 anos, trabalhando de caixa em dois mercadinhos e ainda morando com a mãe, Lillian Breaker recebe uma proposta irrecusável de uma amiga dos tempos de escola, Madison Roberts: ajudar a cuidar de seus dois enteados (Bessie e Roland) durante o verão. Partindo desse ponto não parece que o que virá a seguir será uma história cheia de momentos que beiram ao absurdo, outros hilários, e alguns assustadores. Mas Nothing to See Here de Kevin Wilson contraria o próprio título: há muito para se ver ali.

O interessante é que tudo vai sendo revelado aos poucos, através das palavras da narradora-protagonista Lillian. Como uma pessoa que já tomou algumas bordoadas na vida, confiança não é exatamente uma característica que ela possui, então é evidente que não entregará o jogo rapidamente. São algumas páginas para revelar que talvez Madison nem seja mais sua amiga (o que tornaria o pedido estranho). Segue um pouco mais para contar a razão para a dúvida sobre a amizade. E lá vão umas trinta páginas quando ficamos sabendo as reais condições da proposta de Madison: seus enteados simplesmente pegam fogo quando estão nervosos. O pai das crianças está em um momento crucial da carreira e precisa ficar longe de qualquer tipo de escândalo, por isso Lillian deve garantir que as crianças não causem problemas durante o verão.

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State of the Union

Um casal em crise se encontra uma vez por semana em um pub, um pouco antes do horário da terapia. Ela toma sempre vinho branco, ele uma London Pride. Enquanto esperam, conversam sobre o relacionamento e as expectativas – em uma conversa salpicada com referências aos mais variados assuntos atuais, desde aplicativos como o Tinder até o Brexit. Ah, sim: tudo isso em 10 minutos.

Esse poderia ser um resumo de State of the Union, série com roteiro de Nick Hornby (autor de Alta Fidelidade) e dirigida por Stephen Frears (diretor da adaptação para o cinema de Alta Fidelidade, hehe). Interpretando o casal Tom e Louise temos Chris O’Dowd (de The IT Crowd, e vá lá, depois de Juliet, Naked virou minha referência para protagonista do Hornby) e Rosamund Pike (de Garota Exemplar). Ou seja: um monte de gente bacana no projeto, não tinha como dar errado.

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Daisy Jones & The Six (Taylor Jenkins Reid )

Quando tinha lá meus 12 anos indo para os 13 lembro que encontrei em uma locadora perto de casa uma VHS de um documentário chamado A Year and a Half in the Life of Metallica. Era uma espécie de diário de produção do Black Album na primeira parte, e a turnê de lançamento do disco na segunda (a saber, eram duas VHS, o que aumentava o preço da locação). Nessa época Metallica não era exatamente minha banda favorita, mas depois desse documentário me encantei de tal jeito pelo grupo que por dois anos batizei meus diários com nomes de membros da banda (a saber, Lars e Jason).

Já vão aí mais de 20 anos e tenho poucas lembranças do documentário em si (lembro do Kirk chamando um táxi HEY OH TÁXI, HEY OH TÁXI e até hoje quando preciso acenar para um táxi a cena vem na memória), mas enfim, o essencial era trazer o fator humano. Aproximar um pouco mais, aquela espiada na vida dos caras que criaram músicas que você adora. E é nessa linha que meu coração se encheu de nostalgia ao ler Daisy Jones & The Six, de Taylor Jenkins Reid. Contando a história de uma banda fictícia dos anos 70 através de depoimentos de membros da banda e pessoas com quem conviveram e trabalharam, o livro se concentra exatamente nisso, lembrar que há pessoas atrás das suas músicas favoritas.

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Spoonbenders (Daryl Gregory)

Já tinha um tempo que Spoonbenders estava na minha lista de livros para ler, mas eu me enrolava e nunca começava a leitura. Lançado lá fora em 2017, já tinha pintado até em algumas listas de melhores dos gringos (ainda não tem tradução no Brasil, infelizmente) – e sempre que batia os olhos no título pensava “ei, parece legal, tenho que ler” tipo uma Dory dos livros. Enfim, chegam as férias, o final do ano e eu finalmente começo a ler. E caramba, que livro perfeito para o momento.

É aquela coisa: cabeça cansada, uma leitura leve cai como uma luva. Spoonbenders é assim: gostoso, divertido. Enquanto lia pensava que a história parece implorar por uma adaptação para a Netflix, em um formato fechado como A Maldição da Residência Hill. Aliás, era outra coisa que passava constantemente por minha cabeça, de como ao assumir as relações de família como o coração da história, acaba agradando até quem não é fã do gênero (aqui no caso seria Fantasia/Ficção Científica). Continue lendo “Spoonbenders (Daryl Gregory)”

As coisas que perdemos no fogo (Mariana Enríquez)

Não sei bem como começar. Quero falar de tantas coisas, talvez o ideal seria comentar comentar brevemente cada um dos contos, porque todos são ótimos – algo raro em coletânea de contos, convenhamos. Se tem alguma escala de mais para menos no livro é “assustador”, e mesmo assim isso não tem relação alguma com a qualidade deles.

De forma geral o que ficou da leitura de As coisas que perdemos no fogo de Mariana Enríquez foi: como nossa história é parecida com a da Argentina e como eu nunca tinha me tocado disso. Como frases do tipo “All electronics were cheap – TVs and stereos, photo and video cameras. It couldn’t last long, said my parents, it couldn’t be true that an Argentine peso had the same worth as a dollar” me transportaram para minha adolescência em 1994, no início do Plano Real.

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The Elementals (Michael McDowell)

Desde Stoner volta e meia acabo pensando em como todo o processo do que faz um livro sobreviver ao tempo da publicação original pode ser meio injusto. Não sei bem quais os elementos daquele 1965 que deixaram para trás um livro tão bom, que hoje em dia ganhou até tradução para o português porque no começo dos anos 2000 uma editora resolveu republicá-lo.

Não dá um comichão, pensar em quantos outros tantos títulos também não estão por aí, esquecidos, esperando serem resgatados? Outro exemplo: o ótimo Mrs. Caliban de Rachel Ingalls (de 1982) e só voltou a ganhar alguma atenção porque foi relançado seguindo o rastro do sucesso do último Del Toro, A Forma da Água. Não fosse o filme, talvez nenhuma editora enxergasse a possibilidade de publicar novamente o título.

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I’m Thinking of Ending Things (Iain Reid)

9781501126925_3dhc_pgsoutEu tinha acabado de ler Enclausurado do Ian McEwan e achando que curtiria uma ressaquinha literária pois McEwan tão bom, né.  Aí pensei “Bom, vamos dar uma olhada no tal do I’m Thinking of Ending Things que dizem que é assustador, aí eu não corro o risco de ficar comparando e talvez a ressaca passe”. Então comecei a ler. Vira página, vira página, vira página. Quando percebo já estou tão envolvida com a história que não quero mais largar.

E antes que eu continue, siiiiim, o post tem spoilers. O livro é essencialmente um thriller, então não tem muito como comentá-lo sem colocar aqui informações do enredo. Mãããs eu garanto para você que ao terminar o livro e VAI querer encontrar gente compartilhando informações sobre o enredo, então não esqueça de voltar aqui, hehe. Não à toa a editora que publicou o livro lá fora criou o espaço “After Things End“, para o pessoal compartilhar impressões sobre a história. Não chega num nível “fórum para colher todas as pistas” como com House of Leaves, mas é legal ler sobre diferentes impressões que as pessoas tiveram ao ler a história, sobretudo sobre seu desfecho.

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Vozes de Tchernóbil (Svetlana Aleksiévitch)

vozesNesse momento já deve ser meio difícil você não ter cruzado com o nome Svetlana Aleksiévitch, mesmo que não tenha dado muita atenção: ano passado ela ganhou o Nobel de Literatura, este ano foi um dos destaques da FLIP.  É o lado bom do Nobel (tem lado ruim?), isso de acabar atraindo a atenção do mercado editorial para nomes que poderiam nem ser publicados aqui. No caso da Aleksiévitch, por exemplo, não deu nem um mês do anúncio do Nobel e a Companhia das Letras já estava anunciando a publicação de quatro livros da autora. Bom para nós, né.

Enfim, o primeiro título publicado aqui no Brasil foi Vozes de Tchernóbil, lançado em abril (quando o desastre na usina nuclear completava 30 anos). O livro foi originalmente publicado em 1997, mais de dez anos após o acidente e é uma reunião de relatos de pessoas que viveram nas regiões afetadas pela radiação. Abre com o depoimento de Liudmila Ignátienko, esposa de um bombeiro que estava no grupo dos primeiros a chegarem ao local no dia da explosão.

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