As coisas que perdemos no fogo (Mariana Enríquez)

Não sei bem como começar. Quero falar de tantas coisas, talvez o ideal seria comentar comentar brevemente cada um dos contos, porque todos são ótimos – algo raro em coletânea de contos, convenhamos. Se tem alguma escala de mais para menos no livro é “assustador”, e mesmo assim isso não tem relação alguma com a qualidade deles.

De forma geral o que ficou da leitura de As coisas que perdemos no fogo de Mariana Enríquez foi: como nossa história é parecida com a da Argentina e como eu nunca tinha me tocado disso. Como frases do tipo “All electronics were cheap – TVs and stereos, photo and video cameras. It couldn’t last long, said my parents, it couldn’t be true that an Argentine peso had the same worth as a dollar” me transportaram para minha adolescência em 1994, no início do Plano Real.

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The Elementals (Michael McDowell)

Desde Stoner volta e meia acabo pensando em como todo o processo do que faz um livro sobreviver ao tempo da publicação original pode ser meio injusto. Não sei bem quais os elementos daquele 1965 que deixaram para trás um livro tão bom, que hoje em dia ganhou até tradução para o português porque no começo dos anos 2000 uma editora resolveu republicá-lo.

Não dá um comichão, pensar em quantos outros tantos títulos também não estão por aí, esquecidos, esperando serem resgatados? Outro exemplo: o ótimo Mrs. Caliban de Rachel Ingalls (de 1982) e só voltou a ganhar alguma atenção porque foi relançado seguindo o rastro do sucesso do último Del Toro, A Forma da Água. Não fosse o filme, talvez nenhuma editora enxergasse a possibilidade de publicar novamente o título.

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I’m Thinking of Ending Things (Iain Reid)

9781501126925_3dhc_pgsoutEu tinha acabado de ler Enclausurado do Ian McEwan e achando que curtiria uma ressaquinha literária pois McEwan tão bom, né.  Aí pensei “Bom, vamos dar uma olhada no tal do I’m Thinking of Ending Things que dizem que é assustador, aí eu não corro o risco de ficar comparando e talvez a ressaca passe”. Então comecei a ler. Vira página, vira página, vira página. Quando percebo já estou tão envolvida com a história que não quero mais largar.

E antes que eu continue, siiiiim, o post tem spoilers. O livro é essencialmente um thriller, então não tem muito como comentá-lo sem colocar aqui informações do enredo. Mãããs eu garanto para você que ao terminar o livro e VAI querer encontrar gente compartilhando informações sobre o enredo, então não esqueça de voltar aqui, hehe. Não à toa a editora que publicou o livro lá fora criou o espaço “After Things End“, para o pessoal compartilhar impressões sobre a história. Não chega num nível “fórum para colher todas as pistas” como com House of Leaves, mas é legal ler sobre diferentes impressões que as pessoas tiveram ao ler a história, sobretudo sobre seu desfecho.

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Vozes de Tchernóbil (Svetlana Aleksiévitch)

vozesNesse momento já deve ser meio difícil você não ter cruzado com o nome Svetlana Aleksiévitch, mesmo que não tenha dado muita atenção: ano passado ela ganhou o Nobel de Literatura, este ano foi um dos destaques da FLIP.  É o lado bom do Nobel (tem lado ruim?), isso de acabar atraindo a atenção do mercado editorial para nomes que poderiam nem ser publicados aqui. No caso da Aleksiévitch, por exemplo, não deu nem um mês do anúncio do Nobel e a Companhia das Letras já estava anunciando a publicação de quatro livros da autora. Bom para nós, né.

Enfim, o primeiro título publicado aqui no Brasil foi Vozes de Tchernóbil, lançado em abril (quando o desastre na usina nuclear completava 30 anos). O livro foi originalmente publicado em 1997, mais de dez anos após o acidente e é uma reunião de relatos de pessoas que viveram nas regiões afetadas pela radiação. Abre com o depoimento de Liudmila Ignátienko, esposa de um bombeiro que estava no grupo dos primeiros a chegarem ao local no dia da explosão.

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Cidade em Chamas (Garth Risk Hallberg)

Não, a capa do livro não é em gif. A imagem é da divulgação da Companhia das Letras. Mas gente, vão numa livraria ver essa capa, linda. Dá vontade de comprar o livro de papel *_*
Não, a capa do livro não é em gif. A imagem é da divulgação da Companhia das Letras. Mas gente, vão numa livraria ver essa capa, linda. Dá vontade de comprar o livro de papel *_*

É meio dizer o óbvio ao notar suas mil e tantas páginas que Cidade em Chamas de Garth Risk Hallberg é um baita romance. Mas a definição não cabe só por ser longo, ele é ambicioso, sabe. Se concentra em eventos de um determinado período da história de Nova York, mas outros anos vão se esparramando ao longo da narrativa, vemos o antes e o depois de uma forma não-linear. A melhor forma de descrever é citando um trecho onde uma personagem refletindo sobre o espetáculo de fogos de artifício:

(…) cada espetáculo de fogos é totalmente preso ao tempo. Uma singularidade. Sem passado e sem futuro. Fora o próprio fogueteiro, ninguém jamais vem a saber que o grand finale é o grand finale até tudo estar acabado.

E aí, por mais que aqui e acolá você tropece em uma descrição do livro falando qualquer coisa sobre o ser sobre os irmãos Hamilton-Sweeney e as pessoas com quem eles convivem, eu acho que vai um tanto além. Aliás, a cola que parece prender todas as personagens (bem como a narrativa em si) é Sam, a menina apaixonada por música e fotografia contra quem alguém atirou no Central Park na noite da virada de 76 para 77.

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Story of Your Life (Ted Chiang)

223380(Editado: ueeepa, esqueci do aviso básico de spoilers. SPOOOOILERS!! Pronto, está aí o aviso)

Dia desses li um artigo comentando sobre o novo filme do Denis Villeneuve, com a Amy Adams no papel principal. Pela descrição do trailer, a ideia parece genial: uma raça alienígena chega na Terra, o problema é que não conseguimos entender o que eles dizem (nem eles compreendem os terráqueos). E então qualquer movimento pode ser interpretado como ameaça e dar origem a um ataque. Já fiquei morrendo de vontade de ver o filme? Sim.

Só que o artigo conta também que Story of Your Life é adaptação de uma novela de Ted Chiang publicada no final da década de 90. Fui dar uma pesquisada básica, vi que ganhou um monte de prêmio (incluindo aí Nebula e Hugo) e pans, lá fui eu ler – até porque novela, né, é curtinho, dá para ler tudo de uma vez só, etc.

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Ways to Disappear (Idra Novey)

waystodisappear“A escritora brasileira Beatriz Yagoda é vista com uma mala e um charuto, subindo uma amendoeira e então desaparece”. Foi por causa dessa breve descrição do ponto de partida de Ways to Disappear (primeiro romance de Idra Novey) que fiquei morrendo de curiosidade de ler o livro. Não por Beatriz ser brasileira ou pela história se passar no Brasil – não sou lá muito ufanista e, convenhamos, via de regra os gringos erram a mão na hora de descrever as coisas daqui. Foi mais pelo absurdo da situação, a imagem de uma senhora subindo em uma árvore e desaparecendo.

E então eu mal começo a ler o livro e percebo com espanto que mais do que uma história sobre o sumiço de Beatriz, é uma verdadeira declaração de amor ao trabalho do tradutor. É através da figura de Emma (a tradutora norte-americana que vem correndo para o Brasil tentar descobrir o paradeiro de sua autora) que aos poucos questões sobre tradução vão sendo levantadas – e não, não é de forma sutil. O paralelo entre a vida da personagem e seu ofício é escancarado, como quando fotos dela com o filho de Beatriz aparecem na mídia, e o narrador comenta:

Neither of them had mentioned Emma’s appearance in the photos as well, which was a relief, though also insulting and dismissive – a conflict of emotions that was standard fare for a translator.

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