Ghostwatch (1992)

ghostwatchVocê deve conhecer aquela história de como uma leitura de A guerra dos mundos feita pelo rádio por Orson Welles causou pânico em alguns lugares dos Estados Unidos, certo? Halloween de 38, um monte de gente achou que era real, etc.  Sempre tive uma certa dose de interesse sobre o evento, e foi por isso que assim que o especial de Halloween da BBC Ghostwatch passou no meu radar, logo já procurei para assistir. Não lembro mais onde ouvi falar dele, mas comentavam que em 1992 o especial, assim como a leitura do Welles, enganou muitas pessoas achando que o que viam era real, criando tamanha controvérsia que o programa nunca mais foi reprisado na tv britânica, apenas em outros países.

E a ideia era até simples: apesar de ter sido gravado semanas antes, o programa foi apresentado como se fosse ao vivo, naquela noite de 31 de outubro. O especial contava com imagens do estúdio (com um apresentador bem famoso lá na Inglaterra recebendo uma especialista em fenômenos paranormais) e com imagens em uma casa mal assombrada, onde uma apresentadora (igualmente famosa, ao que entendi parece que era o equivalente ao que era a Xuxa aqui no Brasil) passaria uma noite com a família que dizia estar sendo aterrorizada por um fantasma.

A família era formada por uma mãe divorciada, uma filha adolescente e uma filha ainda criança. Nas cenas na casa (aliás, um lugar bastante comum, não imaginem mansões ou coisas do tipo), há algo que o cinema de horror tem repetido bastante no formato found footage: censores de movimento, censores de temperatura, etc. Tudo isso para tentar capturar alguma imagem do “Pipes” (como as meninas chamavam o fantasma).

Nas cenas do estúdio, o apresentador conversava com a especialista, mas também atendia telefonemas de quem estivesse assistindo ao programa na hora, para ouvir histórias semelhantes ou até mesmo contribuições sobre o caso.

No fim isso é montado de tal jeito que a história não assusta só pelo bom e velho som de portas batendo do nada e semelhantes. Há um desenvolvimento ali, principalmente do que seria a entidade que assombra a família. As informações são liberadas aos poucos, então a atmosfera do mockumentary começa  com os apresentadores bem à vontade colocando a audiência por dentro da história e gradualmente vai ficando mais tensa, através de um áudio gravado pela especialista entrevistando a adolescente (que é a que parece sofrer mais com o fenômeno paranormal), onde ela começa a falar com uma voz completamente diferente – supostamente a voz do Pipes, ou de imagens do rosto completamente arranhado da menina, por exemplo.

E aí você coloca nessa mistura as ligações dos telespectadores, como quando começam a telefonar para dizer que na primeira gravação que mostraram do quarto das meninas eles tinham certeza de que viram um homem perto das cortinas, e siiiim, tem algo ali perto das cortinas:

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E pronto, você já entrou no clima da coisa. E o legal é que não para aí, a história vai ficando cada vez mais assustadora, inclusive quando vão montando o que seria o perfil do Pipes – aliás, o Pipes aparece bem pouco durante o programa, e pelo que eu entendi parte da diversão dos fãs é justamente encontrar os momentos em que dá para vê-lo. Fora esse da cortina logo no começo, tem mais alguns (dentro da tag spoiler para não estragar a brincadeira, volta para confirmar se você viu mesmo depois):

SPOILER!
No estúdio (0:30:50) – Atrás da Dra. Pascoe.

  • Junto com as pessoas na rua (0:47:25) – Fora da casa na  Foxhill Drive, enquanto Craig Charles chama Arthur Lacey.
  • Na cozinha (0:54:59) – Refletido na porta de vidro.
  • Quarto assombrado (1:11:56) – Na frente das cortinas.
  • Embaixo das escadas (1:17:12) – Dentro do armário embaixo das escadas.
  • Close-up na estática (1:27:41) – Na estática bem no momento em que a porta do armário fecha prendendo Suzanne e Sarah.
  • Na armação (1:27:42) – Na armação do estúdio de tv, quando as luzes explodem.

Stephen Volk (o autor do roteiro) conta que são 13 aparições, então tem mais algumas aí que ninguém conseguiu achar ainda. Aliás, falando no Volk, ele publicou em uma coletânea um conto que serve como sequência aos eventos do Ghostwatch, chamado 31/10. Chegou a ganhar alguns prêmios e como ele é um cara bacanudo, o texto está disponível na íntegra no site dele (é só clicar aqui para ler).

Então assim, o legal de Ghostwatch é que além dessa história maluca de pessoas realmente acreditarem que aquilo era verdade (o artigo da wikipedia fala em 34 reclamações feitas para a Broadcasting Standards Commission, inclusive uma envolvendo o suicídio de um rapaz de 18 anos), o “filme” (bem, mockumentary, né) em si é bem legal por ser realmente assustador. Mais do que isso, é responsável por muita coisa que sai hoje em dia no cinema (seja para o bem ou para o mal, haha): os diretores de A Bruxa de Blair, por exemplo, assumiram terem se inspirado no programa para fazer o filme.

Algo bem interessante para ler é a opinião de quem assistiu na época e contou com o “efeito ao vivo”. A explicação de muitos para terem caído na pegadinha é que várias pessoas começaram a assistir quando o programa já tinha começado, então perderam os créditos iniciais, ou deixaram de assistir antes do fim (perdendo novamente os créditos). De qualquer forma, parece que muita gente caiu, tanto é que de acordo com o IMDb, Ghostwatch foi o primeiro caso de programa de TV a causar Transtorno de estresse pós-traumático em crianças documentado no British Medical Journal.

Aliás, nunca a parte de trívia do IMDb sobre um filme foi tão divertida de ler. Vou colocar algumas para você ter ideia:

  • The rumour that the show’s makers had wanted to include a high-pitched tone that would agitate viewers’ pets during the broadcast is mostly true. Writer, Stephen Volk suggested it, but as soundtracks are ‘capped’ for transmission (meaning, limited in pitch, volume, etc.), even if permission had been secured to go ahead with the idea, technically-speaking, it would not have been possible.
  • The show was allegedly nominated for a BAFTA but the BBC withdrew due to the criticism they had received over the project.
  • The writer wanted the story to go further with Parkinson claiming “the ghost is probably in your house”.
  • The helpline was real and the first thing people were told when they rang up was “this is not real” although they were still allowed to tell their stories.
  • Writer Stephen Volk found his inspiration for Ghostwatch in a ‘real-life’ case from the late 1970s, referred to in the media as the ‘Enfield poltergeist’. This case occurred in North London and involved psychokinetic activity (allegedly witnessed by police), as well as a spirit speaking through a young girl in a demonic-sounding voice. Much of the ‘documentation’ in Ghostwatch resembles that of the Enfield case, including the photograph on the cover of Dr Pascoe’s book.

Sobre o último item, a foto da capa do livro é esta aqui:

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E neste artigo da wikipedia você pode saber mais sobre o caso que inspirou o roteirista.

Enfim, não foi fácil de encontrar (fácil de encontrar para mim é quando eu consigo baixar, difícil é quando eu peço para o Fábio achar para mim – o que foi o caso), não achei legenda na época que baixei (acabei vendo sem mesmo), mas valeu a pena. Talvez para algumas pessoas acabe valendo mais pela curiosidade do que pelo medo, mas eu que vi sozinha tenho que confessar: depois fiquei daquele jeito que qualquer barulho do gato ou de vento batendo na janela já me assustava.

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