As coisas que perdemos no fogo (Mariana Enríquez)

Não sei bem como começar. Quero falar de tantas coisas, talvez o ideal seria comentar comentar brevemente cada um dos contos, porque todos são ótimos – algo raro em coletânea de contos, convenhamos. Se tem alguma escala de mais para menos no livro é “assustador”, e mesmo assim isso não tem relação alguma com a qualidade deles.

De forma geral o que ficou da leitura de As coisas que perdemos no fogo de Mariana Enríquez foi: como nossa história é parecida com a da Argentina e como eu nunca tinha me tocado disso. Como frases do tipo “All electronics were cheap – TVs and stereos, photo and video cameras. It couldn’t last long, said my parents, it couldn’t be true that an Argentine peso had the same worth as a dollar” me transportaram para minha adolescência em 1994, no início do Plano Real.

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The Elementals (Michael McDowell)

Desde Stoner volta e meia acabo pensando em como todo o processo do que faz um livro sobreviver ao tempo da publicação original pode ser meio injusto. Não sei bem quais os elementos daquele 1965 que deixaram para trás um livro tão bom, que hoje em dia ganhou até tradução para o português porque no começo dos anos 2000 uma editora resolveu republicá-lo.

Não dá um comichão, pensar em quantos outros tantos títulos também não estão por aí, esquecidos, esperando serem resgatados? Outro exemplo: o ótimo Mrs. Caliban de Rachel Ingalls (de 1982) e só voltou a ganhar alguma atenção porque foi relançado seguindo o rastro do sucesso do último Del Toro, A Forma da Água. Não fosse o filme, talvez nenhuma editora enxergasse a possibilidade de publicar novamente o título.

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As melhores leituras de 2017

Tem ano que é difícil fechar uma lista com dez livros, porque a maior parte das leituras ficaram só na média. Aí tem outros anos como 2017, que por mais sorte do que qualquer outra coisa, foi difícil fechar a lista por causa do tanto de coisa boa que li e não queria deixar de fora.

Enfim, que fique registrado que 2017 foi o ano que conheci Margaret Atwood. E assim, pela obviedade da presença da dona Atwood, vou começar o top10 a partir do favorito do ano. E vamos logo lá para a lista porque do jeito que estou me enrolando é capaz de sair junto com a de 2018.

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Mitologia Nórdica (Neil Gaiman)

(Aviso amigo: não tem spoiler de Mitologia Nórdica por motivos óbvios, mas tem spoiler de Sandman e Deuses Americanos.)

É provável que com a série Deuses Americanos novos leitores acabem chegando até Neil Gaiman por um caminho diferente daqueles da década de 90, que o conheceram por Sandman. Mas a porta de entrada pode ser diferente, só que uma coisa não muda: em ambos os casos fica nítido o talento de Gaiman para manipular mitologias e a partir delas criar novas histórias.

Óbvio que para tal o escritor precisa de uma excelente bagagem sobre antigas lendas de várias culturas. E com Mitologia Nórdica podemos dar uma espiada no universo de mitos e lendas favoritos de Gaiman – isso nas palavras do autor no prefácio, vale ressaltar. E você percebe essa predileção pelo modo como ele reconta as histórias de Thor, Odin, Loki e os demais deuses, porque a voz que domina o livro não é a de um especialista, mas de uma pessoa encantada.

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Lincoln in the Bardo (George Saunders)

Antes mesmo de sair lá fora em fevereiro, Lincoln in the Bardo já tinha toda a pinta de ser um dos queridões do ano, aqueles que aparecem em todo tipo de lista de favoritos e volta e meia alguém te recomenda muito, muito fortemente (imagine aqui aquele seu amigo leitor com os olhos arregalados te puxando pela gola da camisa e dizendo VOCÊ TEEEEEM QUE LER ESSE LIVRO). E eu sei que nós leitores somos bichinhos esquisitos que enxergam os tais queridões com certa desconfiança, mas aqui é o momento em que eu arregalo os olhos, te puxo pela gola da camisa e digo: VOCÊ TEEEEEEM QUE LER ESSE LIVRO.

Primeiro romance do norte-americano George Saunders (mais conhecido por seus contos), é um misto de fantasia e romance histórico que gira em torno da morte de Willie, terceiro filho de Abraham Lincoln e Mary Todd. William Wallace Lincoln tinha onze anos quando adoeceu. Historiadores acreditam que tenha sido um caso de febre tifoide, que foi piorando gradualmente até que em 20 de fevereiro de 1862, o garoto faleceu. Após o velório na Casa Branca, o corpo de Willie foi enterrado no cemitério Oak Hill, em um jazigo emprestado por William Carroll – a ideia é que o corpo fosse transferido quando os Lincolns voltassem para Illinois, mas após o assassinato do presidente em 1865 seu caixão voltou no trem junto com o do pai.

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Você vai ouvir falar em 2017 (e eu recomendo!)

Imagina o Seu Creysson fazendo joinha e dizendo “Esse eu agarantium”. Não tem nada de mágico aqui: é uma mescla de lista de adaptações que chegam no cinema em 2017 com aquele listão maravilhoso de lançamentos que o Daniel Dago postou no Facebook (queria demais fazer link direto para a lista, mas só consegui uma cópia lá da Gazeta), salpicados com informação sobre como foi a recepção de alguns desses lançamentos no exterior e todo o meu amorzinho pelos livros que li.

Desnecessário explicar, mas já explicando: como elaborei a lista a partir de livros que já li, isso explica a falta de autores nacionais. Ao contrário dos livros gringos (que eu posso ler antes de chegar aqui), os nacionais eu só consigo quando chegam nas livrarias. Mas se quer saber, estou de olho naquele novo da Luci Collin pela Arte & Letra (A peça intocada) e o do Milton Hatoum pela Companhia das Letras (O lugar mais sombrio).

Lembrando que no caso dos lançamentos (infelizmente), alguns podem acabar não saindo. Tem livro que eu já esperava para o ano passado e que está na lista desse ano, por exemplo. Ah, sim. E sem maiores comentários sobre as obras porque cada título da lista tem um link para um post que escrevi na época em que li.

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Melhores leituras de 2016

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Eita, que ano. Quase nem consigo atualizar aqui. O balanço: 2016 li menos do que gostaria (37 livros, talvez 38 se engatar o Hot Milk). Li mais livro maizomeno do que gostaria, mas tive minhas boas descobertas. Fico feliz por ter terminado o ano com pelo menos cinco livros que sei que vou continuar recomendando para todo mundo mesmo depois que passar o hype.

Então sem maiores enrolações, vamos para a lista? Vamos. Aquela coisa de sempre, sem ordem definida porque fazer a seleção já é difícil por si só e yadda yadda yadda. Comentários bem breves, título com link é porque escrevi sobre o livro por aqui.

(Ah, sim. As antigas estão aqui: 2012 | 2013 | 2014 | 2015) Continue lendo “Melhores leituras de 2016”