A série Kevin Can F* Himself criada por Valerie Armstrong e que foi ao ar em 2022 conta a história de Allison (interpretada por Annie Murphy) uma esposa em uma sitcom típica de família de classe média norte-americana. O marido Kevin é aquele loser comum das comédias que crescemos assistindo, sempre fazendo um monte de besteiras que renderão risadas do público. O que faz a série ser tão legal é a ideia de que Allison está presa dentro de uma narrativa, ela é um tipo (a esposa de sitcom), mas temos vislumbres de tentativas de fugir da história em que está presa – marcados visualmente por um esfriamento na paleta de cores. A tragédia de Allison é que Kevin também é um tipo, e portanto como todo marido de sitcom acaba escapando de várias situações meramente por ser o que é.
Dá para iniciar uma longa conversa sobre Allison e a representação da mulher, mas quero falar de outra personagem da história, a Patty. Patty é irmã do melhor amigo de Kevin. Patty é um dos caras. E como Allison e seu bom senso são antagonistas de Kevin e suas aventuras engraçadas e absurdas, é óbvio que Patty (inicialmente) detesta Allison. Enquanto Allison é loira, linda, bem vestida, enfim, a epítome do desejo masculino, Patty é o oposto. Eu passei minha adolescência inteira sendo uma Patty.
Edifício Iza Anitta e ao fundo o prédio branco onde a vó morava, pelas lentes de Flavio Antonio Ortolan, publicada no Fotografando Curitiba: https://www.fotografandocuritiba.com.br/2017/08/edificio-iza-anitta.html
Tem uns poucos dias estava lá perdendo uns minutos de vida no Instagram quando vi um post da conta Centro de Curitiba contando que estão para demolir “o predinho rosa do Batel”. Aparentemente, a ideia é construir um hotel no local. Dando um contexto para quem é de fora: o Edifício Iza Anitta fica em uma dos endereços mais famosos de Curitiba, a Avenida do Batel. Se fossem colocar endereços de Curitiba em um tabuleiro de Banco Imobiliário, eu tenho certeza que a Avenida do Batel estaria lá.
E é óbvio que como um endereço de prestígio, qualquer metro quadrado que fique vago abre espaço para um prédio. A questão é que aquele terreno de esquina não está vago, nele há uma construção da década de 1950, um ponto de referência para os curitibanos justamente porque se diferencia das ‘n’ construções de vidro e concreto que sobem toda hora na cidade. Como comentei no Bsky no dia que fiquei sabendo, eu compartilho com todos os curitibanos a tristeza da perda desse prédio, porque faz parte da nossa história. A questão é que nesse caso vai junto para o chão um pouco de história pessoal, porque minha vó morava ali quando eu era criança.
Estive pensando em uma cena em especial do filme As Aventuras de Pi, no momento em que o protagonista está lembrando de quando ele e o tigre Richard Parker se separaram. Fui até consultar o livro para confirmar, e a frase tal como aparece é só na adaptação mesmo. Ao falar da separação, Pi já adulto reflete: “Suponho que, no fim das contas, a via inteira se torna um ato de despedida”. O acúmulo de tempo vivido é também um acúmulo de desapegos, de despedidas, de deixares partir.
Lembrei desta cena em especial porque pareceu um tema meio recorrente em algumas coisas que li e assisti nos últimos tempos. Para começar, de uma forma mais óbvia, o filme britânico Nina Forever(2015). A história (meio comédia romântica, meio filme de terror) fala sobre uma garota (Holly) se apaixonando por um cara (Rob) que ainda está vivendo o luto após a morte da namorada (Nina). Ele parece estar preparado para recomeçar, mas o fato é que tão logo Holly e Rob vão para a cama, a namorada morta aparece. Literalmente. O corpo dela, ainda todo ferido e sangrando surge entre os dois.
Cornell Capa. Teenage Girls Resting Feet at First Formal Dance at the Naval Armory.
Eu acho que nesse momento dizer que 2025 foi um ano estranho é quase um pleonasmo. Não só 2025, parece que estamos acumulando anos estranhos, tropeçando meio às cegas desde que as coisas começaram a dar errado de um modo geral1. Mas divago. O fato é que 2025 foi sim um ano estranho, em partes pela experiência de ter uma pessoa muito querida naquele limiar entre vida e morte durante um período prolongado de tempo.
Sol é uma pessoa extraordinária – quem conhece sabe. Ela é tão extraordinária que ano passado mais de uma vez contradisse plantonista da UTI que nos alertava que ela poderia morrer a qualquer momento. Extraordinária porque contradisse estimativas e está aqui conosco, um ano depois. E mesmo ainda trabalhando física e mentalmente todo o trauma que viveu, ainda tira tempo para lembrar pessoas que nem conhece sobre a importância da vacina do HPV.
Em uma saída para um café (que privilégio, ainda temos nossos cafés!) falei para ela sobre como foram os dias em que ela estava apagada. Falei da primeira vez, quando um temporal despencou na cidade, uma chuva assustadora quando a vi e me dei conta ao mesmo tempo do milagre que é um corpo funcionando e de quantas coisas podem dar errado conosco. A médica chamou e avisou que poderia ser a última noite. Não foi. Não foi fácil, a recuperação ainda está em andamento, mas ela está aqui.
Há uns dias cruzei com uma edição especial de 25 anos de um livro britânico chamado Ralph’s Party, da autora Lisa Jewell – o que situa o lançamento ali em 1999, considerando ano de publicação da edição. 1999 foi um ano esquisito da minha vida, começou com o deslumbre pela vida universitária e terminou com uma faculdade trancada e uma tentativa frustrada de vestibular para outro curso. Fui ver Matrix, A Bruxa de Blair e O Sexto Sentido no cinema e escrevi o refrão de Smooth na porta do banheiro do bar que eu frequentava. Mas enfim, normal que o livro tenha passado completamente batido para mim, no fim das contas.
De qualquer modo, acabei ficando curiosa, e possuída pelo ritmo Ragatanga pelo espírito de que tudo vale a pena se a memória do e-reader não é pequena, resolvi dar uma conferida. Pois bem, Ralph’s Party é uma comédia romântica publicada em 1999, mas com uma história que se passa em 1996 – e ela grita anos 90. Até por causa disso, mais do que a história em si – que é uma versão mais sem filtro (e britânica) de Friends – o que realmente chamou minha atenção foi como é nostálgico ler sobre aquele tempo, mesmo que a época não fosse particularmente boa.
Lançado no ano passado lá fora, Deep Cuts de Holly Brickley é um livro para entrar no grupo do “obras para apaixonados por música” ao lado de Alta Fidelidade do Nick Hornby e Love is a Mixtape de Rob Sheffield. Talvez de um jeito um pouco Frankenstein, colhendo detalhes da vida pessoal como o Sheffield e criando ficção como o Hornby, tudo temperado com muitos comentários sobre músicas, bandas e discos – no caso de Brickley, principalmente da primeira década dos anos 2000.
A história é simples: Percy e Joe se conhecem quando ainda estão na universidade. Percebem que entre os dois há uma conexão que resulta naquele tipo de amizade em que você jura que a outra pessoa é sua alma gêmea, tamanha a facilidade de comunicação. Mais do que isso, o músico Joe percebe que tem em Percy uma mistura de musa e colaboradora, papel que a garota abraça sem grandes questionamentos porque (aqui sem surpresa para o leitor) está apaixonada por Joe.
Edmund Blair Leighton (1853 – 1922). Sweets to the Sweet.
Os artigos que falam sobre o sucesso da primeira temporada de Bridgerton sempre costumam contextualizar, fazendo uma relação com o a exaustão que sentíamos por causa da pandemia e a necessidade de um escapismo. O romance (e a safadeza) entre pessoas lindas, em cenários lindos usando roupas lindas era o que nossos cérebros cansados precisavam naquele momento. E eu até poderia ter visto tudo isso como uma novidade, não fosse 2018, o que costumo chamar de “Meu ano de leitura e descaralhamento”.
O que aconteceu em 2018? 2018 tivemos a eleição para presidente. No final de semana do segundo turno, descobri uma cura para minhas ansiedades: leitura de romances. Passei o dia todo lendo, fugi de transmissão de tv e fiquei triste quando o bairro comemorou enlouquecido a vitória de Bolsonaro. A partir daí, sempre que estava me sentindo mal sobre *aponta para tudo que está acontecendo agora* tudo isso aí, caçava uma comédia romântica ou um romance histórico e me distraía por algumas horas. É sim escapismo, porque o gênero te garante um desfecho positivo, mesmo que os protagonistas encontrem muitas dificuldades ao longo do caminho. Mas depois de quase dez anos nessa brincadeira, eu me dei conta que a parte das dificuldades a serem vencidas muitas vezes agradam justamente porque tem um pé na nossa realidade.
Cena da série Station Eleven (HBO) que se você ainda não assistiu, deveria assistir.
Acho que nessa altura já estão saindo as listas de livros para ler em 2026 e eu ainda não fiz a minha lista de melhores leituras do ano passado. A real é que tenho um post it com os dez favoritos grudado no computador desde dezembro do ano passado, mas tenho também uma alma procrastinadora, dizer o que.
Enfim, 2025 foi um ano de boas leituras, mas ao mesmo tempo que anima encontrar ótimos livros (e conhecer novos autores), entrei 2026 um tanto desanimada com o cenário atual. Não por causa *aponta para tudo que está acontecendo agora* de tudo isso aí, mas mais porque parece cada vez mais claro que perdemos a luta contra a IA.
Um exemplo é o que é comentado nesse vídeo aqui, sobre a HarperCollins gringa começando a usar IA para tradução. Se um casa editorial grande como a Harper está apostando, tenha certeza que ela não será a única. E se você, pequeno gafanhoto amante de IA acha que “tanto faz, e olha que legal, se não tiver que pagar tradutor talvez o livro fique mais barato” (spoiler: não ficará, digo isso como alguém que achava que ebooks teriam preços mais baixos e não foi o que aconteceu) ou que “IA é inevitável, tem que se acostumar e aprender a usar” (não é) saiba que é uma perda gigante para o leitor a exclusão de um tradutor humano na processo de publicação de um livro.
Eu vou citar como exemplo um caso que vivo trazendo porque para mim foi o que mais deixou evidente a diferença que faz um bom tradutor (humano) tomando decisões (humanas) ao traduzir: a tradução de Grande Sertão: Veredas da Alison Entrekin. Tem quase dez anos do dia que cliquei no link do Word Without Borders com um trecho da tradução. “Nonought. Shots you heard weren’t a shootout, God be. I was training sights on trees in the backyard, at the bottom of the creek. Keeps my aim good.“
Sem brincadeira, meu coração disparou enquanto eu lia. Acho que foi a primeira vez que li algo no caminho inverso do que sempre faço, e foi um daqueles momentos lindos em que você percebe a importância de um trabalho bem feito. Eu li aquele trechinho pequeno com a certeza de que agora sim, os gringos morreriam de inveja da gente porque conheceriam o Rosa.
Não que ele já não tivesse tradução. Uma das traduções em inglês para Grande Serão: Veredas que rolavam por aí é a de 1963, feita por Harriet de Onís e James Taylor, e embora tenha um título massa (The Devil to Pay in the Backlands), dá para sentir que era uma opção de manter mais sentido do que forma, porque aquele começo que citei ficou assim para eles: “It’s nothing. Those shots you heard were not men fighting, God be praised. It was just me there in the back yard, target-shooting down by the creek, to keep in practice. ” Se você não sabe inglês eu sei que você leu as duas versões com voz de adulto do Snoopy, mas confia em mim: as duas dizem exatamente a mesma coisa, mas na primeira a Entrekin faz uma mágica e consegue fazer um sertanejo do Rosa falando em inglês. Na segunda, é apenas uma pessoa falando em inglês.
O sentido se conserva, mas onde o Rosa brilha de verdade, no uso das palavras, fica perdido na tradução da segunda citação. E se eu falo isso é para te mostrar que se tivermos uma IA traduzindo livros, ela não fará um trabalho como o da Entrekin, porque ela não tem capacidade para isso. E isso quer dizer que você estará lendo versões pálidas de obras e nem vai pagar mais barato por isso.
A verdade é que eu queria chegar em 2026 falando coisas como “Nossa, que bonito a Charco Press que coloca os nomes dos tradutores na capa, em lugar de destaque”, mas cá estou eu precisando dizer que pode até ter um monte de função que você pode encontrar para inteligência artificial, mas nunca conte com essa tecnologia para a área criativa. E acho que é isso, fim do devaneio, vamos para os dez favoritos (lista elaborada por mim, e não por uma inteligência artificial que alucina enredo ou títulos).
Lá em 2004 por causa de um tópico no subfórum Cinema da Valinor eu comecei a publicar anualmente uma lista com os dez melhores filmes que assisti naquele ano. A regra principal era de que só entrava na lista filmes lançados no Brasil, e naquela época isso até fazia algum sentido. Com o passar dos anos, cada vez que deixava um filme de fora (porque não tinha sido lançado no Brasil ainda, ou porque era mais antigo) eu comecei a pensar que talvez fosse uma boa fazer com os filmes o que eu já faço com os livros – não importa a data de lançamento, se foi um dos dez favoritos do ano, entra para a lista.
Só que aí no pós-pandemia bateu um desânimo geral com o blog e em 2022, 18 anos depois de ter começado a publicar as listas, eu parei. Saltamos aí mais uns anos e aqui estou eu, aos poucos me animando novamente a escrever (até como um ato de resistência, sabe? Vou criar conteúdo de graça para fdp tech bro milionário por quê?) e resolvi voltar com as listas. Assisti quase nada esse ano, mas acho que saiu uma seleção ok – e então a partir de agora, não importa mais o ano de lançamento. A lista completa dos filmes que assisti em 2025 está aqui. E os dez favoritos são:
“Talvez não haja comparação entre Ian dormir com Laura e ‘Cães de Aluguel’, afinal. Ian não tem Harvey Keitel e Tim Roth no elenco. E Ian não é engraçado. Nem violento. E a trilha sonora dele é uma bosta, a julgar pelo que ouvíamos através do teto. Já chega disto.” (Nick Hornby, Alta Fidelidade)
Eu sempre tive certeza de que se minha vida fosse uma comédia romântica, o cara responsável pela trilha sonora teria um senso de humor um tanto peculiar. As canções nunca batem com o que está acontecendo, e não vou falar nem de quantidade de música horrível que faz parte da minha biografia.
Por exemplo, a primeira música que dancei com um menino. Era festinha de aniversário de uma amiga, ela convidou algumas pessoas e entre elas um guri por quem eu nutria uma paixão platônica há uns tempos. Era um amigo que eu queria que virasse mais do que amigo, mas nunca foi mais do que amigo – enfim, para ele fica reservado o título de “primeira pessoa com quem dancei uma música lenta”, evento canônico na vida de uma adolescente dos anos 90.
A festa era um jantar e depois minha amiga começou a tocar alguns discos na sala. O guri me chamou para dançar e aí alguns detalhes foram completamente apagados da minha memória: ele foi pressionado por minha amiga para me convidar? Eu que fui doida e chamei e lembro errado como se ele tivesse chamado? Não sei, só lembro que eram poucas pessoas e meio que fomos só nós dois ali na sala dançando, talvez só mais um par. Tenho que reconhecer que ele foi corajoso, mas a música que dançamos foi… BED OF FUCKING ROSES DO BON JOVI. Veja bem, era parte da minha personalidade de adolescente idiota “não ser como as outras garotas” e portanto detestar Bon Jovi. Continue lendo “The saddest of songs I’ll sing for you”