A memória mais antiga que tenho da epidemia de AIDS é a infame capa da Veja com o Cazuza – e nem é de quando foi lançada, no final de 1989. A revista se congratulava muito pelo barulho ao redor da capa1, e nos anos seguintes volta e meia ela aparecia em matérias sobre a doença. Acredito que considerando que na época da capa eu tinha ainda oito anos, é normal que eu demorasse quase dez anos para entender a gravidade do assunto. Isso tudo para dizer que, embora nascida em 1981, eu não vivi de fato aquele período e não sei muito sobre ele a não ser o que li depois.
O material sobre os primeiros anos da epidemia é farto. Representações no cinema, reportagens, artigos, livros. O quadro formado não é bonito, e sempre o que mais se destaca é o preconceito da época, já que inicialmente a AIDS era vista como uma “doença de gays”. Você que sobreviveu à pandemia de COVID e agora está com o olho tremelicando só de lembrar como muita gente achou que dava para tocar uma vida normal já que “só idoso morria de COVID”, talvez consiga ter alguma ideia do que esse descaso inicial com a epidemia significou porque inicialmente criou-se a ideia de que existia um “grupo de risco” cuja vida era dispensável ou não relevante.
A questão é: ainda que igualmente revoltante, não foi de forma alguma a mesma coisa. O descaso do começo da epidemia de AIDS tinha um toque de crueldade, uma visão asquerosa de que a doença era uma espécie de punição para um grupo específico de pessoas. Basta assistir ao curta da Vanity Fair When AIDS Was Funny, que trouxe ao público áudios até então inéditos da conferências de imprensa da época do começo da epidemia. Eu recomendo o clique porque acho importante sempre não esquecer para não repetir, mas é sim um conteúdo pesadíssimo, especialmente quando passa o som da risada de todo mundo na conferência de imprensa assim que o repórter se refere à doença como “peste gay”.








