State of the Union

Um casal em crise se encontra uma vez por semana em um pub, um pouco antes do horário da terapia. Ela toma sempre vinho branco, ele uma London Pride. Enquanto esperam, conversam sobre o relacionamento e as expectativas – em uma conversa salpicada com referências aos mais variados assuntos atuais, desde aplicativos como o Tinder até o Brexit. Ah, sim: tudo isso em 10 minutos.

Esse poderia ser um resumo de State of the Union, série com roteiro de Nick Hornby (autor de Alta Fidelidade) e dirigida por Stephen Frears (diretor da adaptação para o cinema de Alta Fidelidade, hehe). Interpretando o casal Tom e Louise temos Chris O’Dowd (de The IT Crowd, e vá lá, depois de Juliet, Naked virou minha referência para protagonista do Hornby) e Rosamund Pike (de Garota Exemplar). Ou seja: um monte de gente bacana no projeto, não tinha como dar errado.

A ideia de fechar o tempo de cada episódio nos dez minutos que antecedem à terapia de casal é o que faz toda a diferença. Vá lá, histórias sobre pessoas com problemas no casamento existem às pencas. Se voltar ali nas referências aos trabalhos anteriores das pessoas envolvidas no projeto, tirando The IT Crowd tudo gira em torno dessa questão. O que torna State of the Union algo diferente é que os dez minutos são marcados pelo diálogo – pura e simplesmente. É o tipo de roteiro que você consegue imaginar uma transposição para o teatro, por exemplo.

E os dez minutos são muito bem aproveitados. Dá para entender muito sobre o casal, conhecê-los sem qualquer outra coisa além do que eles dizem. E o não dito e não visto também emprestam algum charme extra: por que Louise entra feliz no pub em determinado dia, o que aconteceu durante a semana entre uma sessão e outra? Por que Tom está fazendo palavras-cruzadas num papel, e não no jornal? Etc. E é durante a conversa que vamos sabendo o que aconteceu no intervalo de tempo. Por exemplo:

“‘Crybaby’? That’s a bit harsh. You cried last week.”
“I cried about Brexit, not about the terrible state of our relationship.”
“Well. You didn’t cry about Brexit per se. You cried about me voting for Brexit. So in a way you were crying about the terrible state of our relationship.”
“The main reason I cried is because I work in the NHS and half my staff is European.”
“Remember Kenyon said we weren’t allowed to talk about it until we saw her today.”
“And I also cried because you weren’t honest about it.”
“It’s a private matter.”
“Privacy and lying are different.”

Considerando que o texto é do Hornby, já dá para saber qual o tom do humor. Sobre o enredo em si também não há qualquer novidade. Aliás, as histórias do Hornby parecem sempre girar em torno de um sujeito meio loser que depende de uma mulher bem mais madura e bem sucedida para tocar o barco (Tom e Louise poderiam ser Rob e Laura, basicamente). Mas aí vem a Pike e o O’Dowd e fazem toda a diferença.

Rosamund Pike as Louise, Chris O’Dowd as Tom – State of the Union _ Season 1, Episode 5 – Photo Credit: Parisatag Hizadeh/Confession Films/SundanceTV

Aqui uma pausa para explicar melhor. Junto com a série, foi publicado também um livro que Hornby chama de “um romance em diálogos” e bem, é basicamente o roteiro. State of the Union: A Marriage in Ten Parts não tem nada (ou pelo menos quase nada) de diferente do que é apresentado nos dez episódios, e é lendo o texto e vendo a série que dá para perceber como o trabalho dos atores é importante: alguns olhares e tons de voz que mesmo que você esteja muito afinado no tom do autor, ainda assim pode acabar deixando passar batido. Adoro o riso de Pike para as piadas entregues no melhor jeitão autodepreciativo do O’Dowd, por exemplo. É crível, sabe. É quase como se você estivesse na mesa ao lado espiando a conversa dos dois.

Minha experiência foi a seguinte: eu lia um capítulo, depois assistia a um episódio. Como livro e série são curtos, é o tipo de coisa que não requer muito tempo para fazer. A série saiu lá fora pela SundanceTV, não sei se vai passar aqui no Brasil. O livro (em inglês) está disponível na Amazon brasileira pela Penguin, então dá para ter aquela esperança de que em algum momento a Companhia das Letras traga para cá em português.

Tem toda uma conversa rolando sobre uma segunda temporada, com um casal diferente – formato tipo antologia, que hoje em dia já é tão comum. Espero que se for acontecer mesmo, a dupla de atores seja tão boa quanto a dessa primeira temporada.

“We love without feeling.”

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