Ao responder uma pessoa sobre o que tornava uma história sobre um fazendeiro triste na Islândia seu livro favorito, a protagonista de Heart the Lover de Lily King fala: “Você sabe quando você consegue lembrar exatamente quando e onde você leu certos livros? Um romance genial, verdadeiramente genial, não apenas captura uma experiência ficcional em particular, ela altera e intensifica a forma como você sente sua própria vida enquanto você o lê. E ele o preserva, como uma capsula do tempo.” (tradução torta minha, o livro ainda não foi lançado no Brasil).
Esse comentário sobre grandes obras que nos tocam aparece já quase na porção final do livro, mas é curioso como de certa forma ali enquanto leitor você já consegue entender que esses encontros que mudam nossa percepção da vida não ocorrem apenas com livros: eles também acontecem com pessoas, não importando o tempo que elas passaram conosco. É um pouco como aquele diálogo final da Diane e do Bojack no telhado (I think there are people that help you become the person that you end up being, and you can be grateful for them even if they were never meant to be in your life forever.)
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Alex Lyons é um crítico de teatro famoso por ser filho de uma atriz famosa e por só dar uma estrela para as peças que assiste. Diz que isso aumenta o valor das (raras) cinco estrelas e que se não fosse o critério do jornal para qual escreve obrigá-lo a usar pelo menos uma estrela, daria zero sem dó. Durante o Festival de Edimburgo ele assiste a um monólogo sobre emergência climática e ao sair envia o texto para o jornal com uma crítica destruindo a apresentação. E bem, é parte do jogo, não tem problema. A questão é que logo depois de enviar a crítica para a publicação, ele encontra Hayley – a roteirista/atriz da peça detonada – num bar, e mesmo sabendo que é a artista responsável pela apresentação que ele acabou de destruir, a leva para o apartamento onde está hospedado e passa a noite com a garota.
The Echoes da anglo-australiana Evie Wyld (ainda sem tradução no Brasil) inicia com o que é até o momento minha frase de abertura favorita das leituras de 2025. Diz o narrador: “Eu não acredito em fantasmas, o que desde minha morte vem sendo um problema.”. O fantasma-narrador conversa com o leitor de um ponto recente do pós-vida, ele ainda não sabe o que precisa fazer para sair daquela situação, ele não sabe o que pode fazer já que é um ser incorpóreo e invisível. Ele também não lembra como morreu. Mas sabe que está preso na casa onde vivia com a namorada Hannah.
A famosa “lista de livros para ler” é um bicho estranho: não tem um formato fixo, porque você pode passar meses esperando ansiosamente um título ser lançado e quando ele finalmente chega… fuéééém, você descobre que não está no clima para aquele livro.
“Nossas meninas estão longe daqui
Estava lendo mais uma daquelas listas de lançamentos, quando bati os olhos em uma capa linda (nem venha me julgar, olha ali pro lado e veja como é linda mesmo). Comecei a ler a descrição do livro, “as vidas de três mulheres se cruzam durante um ano em São Paulo“. A cidade brasileira obviamente chamou minha atenção, e pensei que era autora nacional que estava sendo traduzida lá fora, só que pesquisando descobri que a Burnham é filha de brasileira, mas nascida e criada nos Estados Unidos, e o livro foi escrito originalmente em inglês (e boa sorte para quem for traduzir por aqui, mas disso falo depois).
Vou começar dizendo que tinha um post entre o último que publiquei e esse que escrevo agora. Era uma espécie de relato do isolamento que não consegui concluir, mas achei que ficaria esquisito chegar aqui e falar do livro novo da Schweblin que acabei de ler, como se hum, o mundo não estivesse de pernas para o ar (e aqui no Brasil o problema não é só sanitário). Então só para deixar registrado: o mundo está de pernas para o ar, mas a gente toca o barco como pode – no meu caso, ainda bem que ainda tenho meus livros para me distrair.
Se você ler a sinopse de The Regrets, primeiro romance de Amy Bonnaffons, não vai poder dizer em nenhum momento que não foi avisado sobre o fantástico ser uma constante na obra. Thomas morreu em um acidente de moto, mas por causa de uma confusão no passado, foi definido pelo escritório responsável por assuntos do pós-vida como “insuficiente morto”. Para colocar toda a situação em ordem novamente (já deu para perceber que o tal do limbo é um local bem burocrático, não?), o recém-falecido precisará passar mais três meses entre os vivos. É nesse período que ele conhece a bibliotecária Rachel. Contrariando as regras impostas a Thomas, os dois se apaixonam.
Emira Tucker é uma garota de 20 e tantos anos convencida de que perdeu o bonde para a fase adulta: todas suas amigas já estão trabalhando na área em que estudaram, algumas até comemorando promoção. E Emira, mesmo formada, não sabe muito bem o que quer fazer da vida. Por conta disso, paga as contas com trabalhos que não oferecem grandes vínculos (nem benefícios), entre eles babá de uma família de ricos, os Chamberlain.
Logo após completar os 28 anos, trabalhando de caixa em dois mercadinhos e ainda morando com a mãe, Lillian Breaker recebe uma proposta irrecusável de uma amiga dos tempos de escola, Madison Roberts: ajudar a cuidar de seus dois enteados (Bessie e Roland) durante o verão. Partindo desse ponto não parece que o que virá a seguir será uma história cheia de momentos que beiram ao absurdo, outros hilários, e alguns assustadores. Mas Nothing to See Here de Kevin Wilson contraria o próprio título: há muito para se ver ali.