Heart the Lover (Lily King)

Ao responder uma pessoa sobre o que tornava uma história sobre um fazendeiro triste na Islândia seu livro favorito, a protagonista de Heart the Lover de Lily King fala: “Você sabe quando você consegue lembrar exatamente quando e onde você leu certos livros? Um romance genial, verdadeiramente genial, não apenas captura uma experiência ficcional em particular, ela altera e intensifica a forma como você sente sua própria vida enquanto você o lê. E ele o preserva, como uma capsula do tempo.” (tradução torta minha, o livro ainda não foi lançado no Brasil).

Esse comentário sobre grandes obras que nos tocam aparece já quase na porção final do livro, mas é curioso como de certa forma ali enquanto leitor você já consegue entender que esses encontros que mudam nossa percepção da vida não ocorrem apenas com livros: eles também acontecem com pessoas, não importando o tempo que elas passaram conosco. É um pouco como aquele diálogo final da Diane e do Bojack no telhado (I think there are people that help you become the person that you end up being, and you can be grateful for them even if they were never meant to be in your life forever.)

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Bring the House Down (Charlotte Runcie)

Alex Lyons é um crítico de teatro famoso por ser filho de uma atriz famosa e por só dar uma estrela para as peças que assiste. Diz que isso aumenta o valor das (raras) cinco estrelas e que se não fosse o critério do jornal para qual escreve obrigá-lo a usar pelo menos uma estrela, daria zero sem dó. Durante o Festival de Edimburgo ele assiste a um monólogo sobre emergência climática e ao sair envia o texto para o jornal com uma crítica destruindo a apresentação. E bem, é parte do jogo, não tem problema. A questão é que logo depois de enviar a crítica para a publicação, ele encontra Hayley – a roteirista/atriz da peça detonada – num bar, e mesmo sabendo que é a artista responsável pela apresentação que ele acabou de destruir, a leva para o apartamento onde está hospedado e passa a noite com a garota.

Esse é o ponto de partida de Bring the House Down, romance de estreia de Charlotte Runcie (ainda sem tradução no Brasil). Logo depois de descobrir que o carinha com quem passou a noite é o autor da crítica, Hayley modifica a apresentação a transformando em uma espécie de exorcismo do trauma – ela expõe para o público o que aconteceu, e convida as pessoas da plateia para falarem de outras situações em que Alex Lyons foi um babaca. O show viraliza em toda aquela onda girl power contra homens tóxicos e a situação foge completamente de controle, tanto para Alex quanto para Hayley. Continue lendo “Bring the House Down (Charlotte Runcie)”

The Echoes (Evie Wyld)

The Echoes da anglo-australiana Evie Wyld (ainda sem tradução no Brasil) inicia com o que é até o momento minha frase de abertura favorita das leituras de 2025. Diz o narrador: “Eu não acredito em fantasmas, o que desde minha morte vem sendo um problema.”. O fantasma-narrador conversa com o leitor de um ponto recente do pós-vida, ele ainda não sabe o que precisa fazer para sair daquela situação, ele não sabe o que pode fazer já que é um ser incorpóreo e invisível. Ele também não lembra como morreu. Mas sabe que está preso na casa onde vivia com a namorada Hannah.

O que eu gosto desse primeiro capítulo é que de certa forma ele já nos apresenta o tom da história, mesmo que ela cresça em forma nos capítulos seguintes: é engraçada na mesma medida em que é melancólica. Ela é, principalmente, uma reflexão sobre como nossas ações no passado acabam repercutindo não só no nosso presente, mas nos dos outros também. E isso conseguimos ver inclusive na estrutura do romance: Max é o mestre de cerimônias, abre o livro com seu capítulo em primeira pessoa que também iniciará a sequência de capítulos que estruturará o livro.

Depois de Max vem sempre Hannah, num passado pouco distante, registrando os últimos meses antes da morte de Max – os capítulos em terceira pessoa. Depois desse passado recente somos jogados para um passado mais distante, na adolescência de Hannah vivida na área rural australiana. Finalmente, fechando a sequência, vemos um pedaço da vida de uma das pessoas desse passado distante de Hannah. Como dá para perceber, Max não é a personagem principal -e de certa forma ele nem será o personagem principal da vida de Hannah. Mas é um daqueles casos de pessoas que passam na nossa vida e deixam uma marca, que (nesse caso literalmente) nos assombram mesmo depois de anos.

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Shark Heart (Emily Habeck)

A famosa “lista de livros para ler” é um bicho estranho: não tem um formato fixo, porque você pode passar meses esperando ansiosamente um título ser lançado e quando ele finalmente chega… fuéééém, você descobre que não está no clima para aquele livro.

Por outro lado, alguns que você nem sabia que existiam aparecem do nada e passam na frente de uma série de esperados (ou dos que já estão há tempos no kindle e estante). Foi o que aconteceu comigo quando li a sinopse de Shark Heart, romance de estreia de Emily Habeck (ainda sem tradução no Brasil). Eu nem pensei duas vezes e já fui colocar no kindle e comecei a ler, devorando em pouco tempo.

Shark Heart, que tem como subtítulo “Uma história de amor”, começa com Lewis e Wren se apaixonando e casando. Mais especificamente, abre com um diálogo do pedido de casamento, como se fosse um pedaço de roteiro de teatro mesmo. Note que ao contrário do que se esperaria (o casamento como a coroação, o ponto alto das histórias de amor), aqui ele marca apenas o começo da jornada. Isso porque depois do casamento, Lewis percebe algumas mudanças no corpo e após uma visita ao médico vem o diagnóstico: ele está se transformando em um tubarão branco.

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In Memoriam (Alice Winn)

“Nossas meninas estão longe daquiNão temos com quem chorar e nem pra onde irSe lembra quando era só brincadeiraFingir ser soldado a tarde inteira?

(Soldados, Legião Urbana)

In Memoriam de Alice Winn (lançado em março de 2023 e ainda sem tradução no Brasil) começa com uma sequência de recortes de jornais. O primeiro é uma página de um informativo de um internato inglês, publicado no final de junho de 1914. No editorial, Cuthbert-Smith comenta que com o fim do período os mais velhos estão partindo para a glória em Oxford, Cambridge e Sandhurst. “Que nossos futuros sejam tão brilhantes quanto os deles!“, é a última frase do editorial.

O informativo seguinte (de outubro do mesmo ano) já traz uma lista de alunos e ex-alunos mortos em combate ou por causa de ferimentos durante os primeiros meses da Grande Guerra. Entre os mortos, está o editor Cuthbert-Smith. Morto aos 18 anos de idade.

Fora a tristeza e indignação de ler sobre meninos morrendo ainda nos anos iniciais da guerra, os recortes de abertura do romance poderiam ser lidos com o mesmo distanciamento com que lemos as notícias nos jornais atualmente. É um atestado ao talento da Alice Winn que uma releitura dessas mesmas páginas após a conclusão do romance falem tanto, e toquem tão profundamente ao leitor.

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It is Wood, It is Stone (Gabriella Burnham)

Estava lendo mais uma daquelas listas de lançamentos, quando bati os olhos em uma capa linda (nem venha me julgar, olha ali pro lado e veja como é linda mesmo). Comecei a ler a descrição do livro, “as vidas de três mulheres se cruzam durante um ano em São Paulo“. A cidade brasileira obviamente chamou minha atenção, e pensei que era autora nacional que estava sendo traduzida lá fora, só que pesquisando descobri que a Burnham é filha de brasileira, mas nascida e criada nos Estados Unidos, e o livro foi escrito originalmente em inglês (e boa sorte para quem for traduzir por aqui, mas disso falo depois).

Fiquei imediatamente curiosa, até porque renderia no mínimo um olhar diferente sobre nosso país – alguém que apesar da ancestralidade, “não é daqui”. Lembrei muito de um artigo ótimo que li no Millions, Rivers and Mirrors: World-Building in Nonfiction. Escrito pelo jornalista Chris Feliciano Arnold (nascido no Brasil mas criado por norte-americanos no Oregon) o texto comenta a tentativa de falar de um país que é dele mas ao mesmo tempo não é, de como sua língua-mãe não dá conta de descrever o lugar onde ele nasceu: “Sad but true: There is only so much room in the English language for stories about non-English speaking countries.”

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Little Eyes (Samanta Schweblin)

Vou começar dizendo que tinha um post entre o último que publiquei e esse que escrevo agora. Era uma espécie de relato do isolamento que não consegui concluir, mas achei que ficaria esquisito chegar aqui e falar do livro novo da Schweblin que acabei de ler, como se hum, o mundo não estivesse de pernas para o ar (e aqui no Brasil o problema não é só sanitário). Então só para deixar registrado: o mundo está de pernas para o ar, mas a gente toca o barco como pode – no meu caso, ainda bem que ainda tenho meus livros para me distrair.

Sobre o livro: Little Eyes (Kentukis no original) da argentina Samanta Schweblin saiu em outubro de 2018 e recentemente ganhou uma tradução para o inglês – há uma tradução portuguesa, mas no Brasil pelo que eu vi ainda não tem nada. Os anglófonos estão bem encantados, tanto é que o livro está na longlist para o International Booker Prize de 2020, então o negócio é torcer para que isso sirva como incentivo para alguma editora daqui.

(EDITADO 06/08/2021: A Fósforo lançou o livro aqui no Brasil há pouco, o título é o mesmo do original, Kentukis. A tradução é de Livia Deorsola. Clique aqui para saber mais.)

A história descreve a vida das pessoas do mundo todo durante a mania dos kentukis – bichinhos de pelúcia controlados remotamente por uma pessoa desconhecida. Desde o início fica a impressão de que é  algo que poderia acontecer conosco agora mesmo – isso se não extrapolarmos e pensarmos que já acontece, de certa maneira, com nossos celulares ou assistentes tipo a Alexa. Mas o mais bacana é que a autora vai além da discussão sobre como abrimos mão de nossa privacidade, explorando também o horror do que somos quando ninguém está olhando – ou quando achamos que ninguém está olhando.

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The Regrets (Amy Bonnaffons)

Se você ler a sinopse de The Regrets, primeiro romance de Amy Bonnaffons, não vai poder dizer em nenhum momento que não foi avisado sobre o fantástico ser uma constante na obra. Thomas morreu em um acidente de moto, mas por causa de uma confusão no passado, foi definido pelo escritório responsável por assuntos do pós-vida como “insuficiente morto”. Para colocar toda a situação em ordem novamente (já deu para perceber que o tal do limbo é um local bem burocrático, não?), o recém-falecido precisará passar mais três meses entre os vivos. É nesse período que ele conhece a bibliotecária Rachel. Contrariando as regras impostas a Thomas, os dois se apaixonam.

Parece quase uma comédia romântica imaginada por Tim Burton, não? Mas embora The Regrets seja muito engraçado em vários momentos, ele surpreende pelas escolhas da autora, e ao invés de ser uma fantasia sobre um casal improvável, é uma história que lida (entre outros tantos temas) sobre relacionamentos nos tempos atuais: das marcas que deixamos nas pessoas que passam em nossas vidas, da bagagem que carregamos para novos relacionamentos, da dificuldade de romper quando é preciso.

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Such a Fun Age (Kiley Reid)

Emira Tucker é uma garota de 20 e tantos anos convencida de que perdeu o bonde para a fase adulta: todas suas amigas já estão trabalhando na área em que estudaram, algumas até comemorando promoção. E Emira, mesmo formada, não sabe muito bem o que quer fazer da vida. Por conta disso, paga as contas com trabalhos que não oferecem grandes vínculos (nem benefícios), entre eles babá de uma família de ricos, os Chamberlain.

Em uma noite especialmente ruim para Emira (comemorando o aniversário de uma amiga e percebendo justamente o quanto está ficando para trás), os Chamberlain pedem que ela venha correndo ajudá-los a distrair a filha mais velha enquanto lidam com uma janela quebrada. Emira leva a pequena Briar para um mercado da região e em determinado momento é abordada pelo segurança: uma cliente achou estranho uma menina tão pequena em um mercado naquela hora, e sugere que ela tenha sido sequestrada. Ah, sim, claro: Emira é negra, Briar é branca.

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Nothing to See Here (Kevin Wilson)

Logo após completar os 28 anos, trabalhando de caixa em dois mercadinhos e ainda morando com a mãe, Lillian Breaker recebe uma proposta irrecusável de uma amiga dos tempos de escola, Madison Roberts: ajudar a cuidar de seus dois enteados (Bessie e Roland) durante o verão. Partindo desse ponto não parece que o que virá a seguir será uma história cheia de momentos que beiram ao absurdo, outros hilários, e alguns assustadores. Mas Nothing to See Here de Kevin Wilson contraria o próprio título: há muito para se ver ali.

O interessante é que tudo vai sendo revelado aos poucos, através das palavras da narradora-protagonista Lillian. Como uma pessoa que já tomou algumas bordoadas na vida, confiança não é exatamente uma característica que ela possui, então é evidente que não entregará o jogo rapidamente. São algumas páginas para revelar que talvez Madison nem seja mais sua amiga (o que tornaria o pedido estranho). Segue um pouco mais para contar a razão para a dúvida sobre a amizade. E lá vão umas trinta páginas quando ficamos sabendo as reais condições da proposta de Madison: seus enteados simplesmente pegam fogo quando estão nervosos. O pai das crianças está em um momento crucial da carreira e precisa ficar longe de qualquer tipo de escândalo, por isso Lillian deve garantir que as crianças não causem problemas durante o verão.

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