High Fidelity (2020)

Agora em 2020 Alta Fidelidade de Nick Hornby completa 25 anos. Dos 25, pelo menos 16 eu passei comentando, citando, babando ovo para o livro aqui no Hellfire – então dá para entender que sim, eu sou exatamente o público da nova adaptação do romance que saiu em fevereiro desse ano no Hulu. Soma aí a curiosidade de ver como é que ficaria a série em uma versão mais moderna e com o tal do gender flip – Rob Fleming agora é Robyn “Rob” Brooks, interpretada por Zoë Kravitz.

Começando pela versão moderna – vale lembrar que quando o livro saiu, as pessoas ainda compravam cds. Não só pessoas apaixonadas por música, mas pessoas comuns. Não tinha internet para baixar trocentos mil álbuns de bandas de todos os cantos do mundo, a relação ainda era diferente. Eu nem vou me prolongar muito nisso porque sobre as diferenças o próprio Nick Hornby já comentou em um artigo que escreveu há cinco anos para a Billboard (recomendo demais a leitura).

A parte curiosa é pensar que mesmo 25 anos depois da publicação, as pessoas ainda compram vinis. E mais ou menos no mesmo contexto lá dos anos 90: a clientela da Championship era composta por amantes de música, aqueles doidos colecionadores que entendiam que a qualidade do som era melhor em vinil do que em cd. Pula para os anos 2020, dá para dizer o mesmo, substituindo o cd por mp3. Então o emprego de Rob (ou ainda, dos Robs) é o mesmo, algo que tem muito mais a ver com paixão do que com ambição.

Há uma menção ou outra para as formas mais modernas de ouvir música – o ex namorado de Rob, por exemplo, em determinado momento cita como uma regra aprendida nos anos juntos: “não usarás o shuffle nas playlists“. Porque mandar uma playlist para alguém é o equivalente atual de fazer uma mixtape – e as regras continuam as mesmas, como Rob explica para o público.

Fica então a questão da mudança de gênero de algumas personagens. Sobre Rob, Zoë Kravitz acerta em cheio nas características mais marcantes da personagem que é, embora a protagonista, uma idiota egoísta com um medo tremendo de virar adulta. O porém é que eu senti falta daquelas pequenas diferenças que marcassem de fato a troca de gêneros. Senti que ficou muito mais óbvio no caso da Cherise – o “Barry” da série. Da’Vine Joy Randolph não deve nada ao Barry de Jack Black, por exemplo. Mas a personagem enquanto mulher, e mais, enquanto mulher negra e gorda – acaba passando por situações que Barry não passava.

E eu achava que a Rob da Kravitz merecia mais desses momentos, até para que a troca de gênero não fosse mero gimmick. Tem uma cena em que o fato de Rob ser mulher muda as coisas – quando um especialista babacão fala só com o homem que está acompanhando Rob sobre música, e quando Rob corrige esse cara ele insiste no erro porque bem, obviamente ele não acredita que uma guria pode saber mais do que ele (um clássico). Mas fora isso as mudanças são mais superficiais, e falam mais sobre os homens da série do que sobre as mulheres. Por exemplo, o aborto de Laura poderia ter feito parte do enredo. Até porque o término do namoro de Rob e Cam é bem confuso – e piora conforme vamos sabendo mais sobre o que aconteceu.

Mas acho que esse é meu único porém sobre a série, que eu realmente adorei. A trilha sonora é obviamente ótima, há uma série de “homenagens” ao filme de 2000, o “what fucking Ian guy?” ficou perfeito e ainda tem o Simon, que nessa versão é um dos exes da Rob. A personagem ficou incrível na releitura, e rendeu o meu episódio favorito, Ballad of the Lonesome Loser (S01E08).

Enfim, valeu a pena – e o desfecho ficou resolvido de tal forma que não precisa de mais temporadas (na realidade, nem sei se há a intenção de, espero que não). Foi divertido, tem umas cenas impagáveis (e na hora que aparece a Debbie Harry conversando com a Rob e resolvi que assistiria a temporada toda). Ah, e uma curiosidade final: o sexto episódio (Weird… but warm) foi dirigido pela Natasha Lyonne, a Nadia de Boneca Russa (para citar um dos trabalhos mais recentes).

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