Quando a ordem dos fatores altera o produto

Em algum momento ali em 2023 quando eu estava em uma fase mais crackuda de Anime (o que incluiu assinar o Crunchyroll e finalmente me apaixonar por Yuri!! on Ice como 11 em cada 10 pessoas que assistem Yuri!! on Ice) fiquei sabendo de uma duologia que, reza a lenda, a sua percepção da história muda conforme a ordem que você assiste aos filmes. Achei que seria algo na linha de Dois Lados do Amor, mas não foi bem assim.

To Me, The One Who Loved You (filme rosa) e To Every You I’ve Loved Before (filme azul) são romances envolvendo realidades paralelas – sempre que você ler comentários sobre as duas histórias, notará que as pessoas mencionarão a ordem que assistiram. Eu vi o rosa e depois o azul, e jamais poderei confirmar se a ordem afeta a percepção porque afinal de contas, agora eu já tenho a informação sobre as duas animações. De qualquer forma, gostei dos dois, mas senti que o segundo me pegou de jeito (como já falei aqui mais de uma vez, sou chorona então quando eu digo “me pegou de jeito” entenda-se: fiquei chorando e achando lindo um amor que existiu em todas as realidades possíveis e blablabla).

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Uma playlist para o fim do mundo

Robert Frost e T.S. Eliot são dois poetas nascidos no fim do século XIX que tem em comum o fato de apesar de serem tecnicamente norte-americanos (o Eliot se tornou cidadão britânico em 1927), estavam na Inglaterra no início da Primeira Grande Guerra Mundial. É o tipo de informação que nunca passou pela minha cabeça checar até esse momento, quando eu estava para começar o post fazendo um comentário sobre poetas imaginando o fim do mundo em suas poesias.

Caiu a ficha que o tema não só é parecido, mas eles publicaram os poemas mais ou menos na mesma época (primeira metade da década de 20, já no pós-Guerra). O meu comentário inicial seguiria mais ou menos na linha “lembra quando falar de fim do mundo era só um exercício de imaginação de poetas?“, chamando a atenção para o fato de que agora parece que todo dia alguma coisa nos aproxima do momento final. E aí eu vi a desilusão deles e, ah. É sempre um baque perceber que nada é novo e que aparentemente estamos sempre cometendo os mesmos erros. Nem nossas ansiedades são novidade.

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Heart the Lover (Lily King)

Ao responder uma pessoa sobre o que tornava uma história sobre um fazendeiro triste na Islândia seu livro favorito, a protagonista de Heart the Lover de Lily King fala: “Você sabe quando você consegue lembrar exatamente quando e onde você leu certos livros? Um romance genial, verdadeiramente genial, não apenas captura uma experiência ficcional em particular, ela altera e intensifica a forma como você sente sua própria vida enquanto você o lê. E ele o preserva, como uma capsula do tempo.” (tradução torta minha, o livro ainda não foi lançado no Brasil).

Esse comentário sobre grandes obras que nos tocam aparece já quase na porção final do livro, mas é curioso como de certa forma ali enquanto leitor você já consegue entender que esses encontros que mudam nossa percepção da vida não ocorrem apenas com livros: eles também acontecem com pessoas, não importando o tempo que elas passaram conosco. É um pouco como aquele diálogo final da Diane e do Bojack no telhado (I think there are people that help you become the person that you end up being, and you can be grateful for them even if they were never meant to be in your life forever.)

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Bring the House Down (Charlotte Runcie)

Alex Lyons é um crítico de teatro famoso por ser filho de uma atriz famosa e por só dar uma estrela para as peças que assiste. Diz que isso aumenta o valor das (raras) cinco estrelas e que se não fosse o critério do jornal para qual escreve obrigá-lo a usar pelo menos uma estrela, daria zero sem dó. Durante o Festival de Edimburgo ele assiste a um monólogo sobre emergência climática e ao sair envia o texto para o jornal com uma crítica destruindo a apresentação. E bem, é parte do jogo, não tem problema. A questão é que logo depois de enviar a crítica para a publicação, ele encontra Hayley – a roteirista/atriz da peça detonada – num bar, e mesmo sabendo que é a artista responsável pela apresentação que ele acabou de destruir, a leva para o apartamento onde está hospedado e passa a noite com a garota.

Esse é o ponto de partida de Bring the House Down, romance de estreia de Charlotte Runcie (ainda sem tradução no Brasil). Logo depois de descobrir que o carinha com quem passou a noite é o autor da crítica, Hayley modifica a apresentação a transformando em uma espécie de exorcismo do trauma – ela expõe para o público o que aconteceu, e convida as pessoas da plateia para falarem de outras situações em que Alex Lyons foi um babaca. O show viraliza em toda aquela onda girl power contra homens tóxicos e a situação foge completamente de controle, tanto para Alex quanto para Hayley. Continue lendo “Bring the House Down (Charlotte Runcie)”

Mais apavorante do que a ficção

Era uma vez um texto que rodou bastante a internet ali no começo dos 2000 (ou seja, ainda era recebido em e-mails ou aparecia como posts em fóruns de discussão) e apresentava um título que prometia a versão “verdadeira” dos contos de fadas. Saem os casamentos com príncipes e finais felizes, entram histórias macabras com olhos arrancados, pés decepados e muito, muito sangue. Mas esse uso do termo “verdadeira” é coisa típica de internet, a certeza de saber o que na realidade não sabe, né? Porque a ideia de uma versão ser a “verdadeira” vai contra a própria natureza dos contos, que segundo Angela Carter, tratam-se de “histórias anônimas que podem ser reelaboradas vezes sem fim por quem as conta“. 1

Então, quando falamos de contos de fadas não temos uma versão “verdadeira”, mas várias – é normal a releitura, o reconto. E essa natureza mutante do conto popular continua viva, porque mesmo que o diálogo inicial parta de uma versão de conto lá da Coleção Disquinho, por exemplo, ela segue sendo recontada em livros, filmes e afins. E eu não estou falando desses live-actions totalmente dispensáveis da Disney, é óbvio. Falo de releituras como o filme The Ugly Stepsister (dirigido por Emilie Kristine Blichfeldt) e o livro Sour Cherry de Natalia Theodoridou. Continue lendo “Mais apavorante do que a ficção”

The Echoes (Evie Wyld)

The Echoes da anglo-australiana Evie Wyld (ainda sem tradução no Brasil) inicia com o que é até o momento minha frase de abertura favorita das leituras de 2025. Diz o narrador: “Eu não acredito em fantasmas, o que desde minha morte vem sendo um problema.”. O fantasma-narrador conversa com o leitor de um ponto recente do pós-vida, ele ainda não sabe o que precisa fazer para sair daquela situação, ele não sabe o que pode fazer já que é um ser incorpóreo e invisível. Ele também não lembra como morreu. Mas sabe que está preso na casa onde vivia com a namorada Hannah.

O que eu gosto desse primeiro capítulo é que de certa forma ele já nos apresenta o tom da história, mesmo que ela cresça em forma nos capítulos seguintes: é engraçada na mesma medida em que é melancólica. Ela é, principalmente, uma reflexão sobre como nossas ações no passado acabam repercutindo não só no nosso presente, mas nos dos outros também. E isso conseguimos ver inclusive na estrutura do romance: Max é o mestre de cerimônias, abre o livro com seu capítulo em primeira pessoa que também iniciará a sequência de capítulos que estruturará o livro.

Depois de Max vem sempre Hannah, num passado pouco distante, registrando os últimos meses antes da morte de Max – os capítulos em terceira pessoa. Depois desse passado recente somos jogados para um passado mais distante, na adolescência de Hannah vivida na área rural australiana. Finalmente, fechando a sequência, vemos um pedaço da vida de uma das pessoas desse passado distante de Hannah. Como dá para perceber, Max não é a personagem principal -e de certa forma ele nem será o personagem principal da vida de Hannah. Mas é um daqueles casos de pessoas que passam na nossa vida e deixam uma marca, que (nesse caso literalmente) nos assombram mesmo depois de anos.

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Iris, Annie e outras garotas que falhariam no teste Voight-Kampff

Eu queria ter gostado mais de Acompanhante Perfeita (Companion, 2025), mas até agora eu não se se é o filme que bate na trave mesmo, ou se é porque eu já vi a mesma ideia melhor desenvolvida em um livro no ano passado. Eu achei bem sacado nos minutos iniciais eles não entregarem logo de cara a natureza da Iris (embora por trailers e outras peças de marketing a gente já saiba). Você vê Iris e Josh como um casal normal e apaixonado, fora uns “opa, pera.” que surgem do nada (mas bem discretos, como o fato de Iris chegar carregando as malas grandes sozinha enquanto Josh está só com uma bolsa leve, ou a Iris toda animada depois do sexo e Josh só vira para o lado e diz um “vai dormir, Iris”).

Talvez o que tenha me incomodado é que o enredo tenha girado mais em torno de Iris tentando sobreviver aos eventos da viagem com os amigos de Josh. Em muitos momentos o filme é mais comédia do que um suspense, o que parece tirar um pouco o peso do que é que significam as ações de Josh ou mesmo a relação dele com Iris. É um filme ruim? Não é. Mas fica a sensação de que poderia ser bem melhor. Continue lendo “Iris, Annie e outras garotas que falhariam no teste Voight-Kampff”

Escrever um livro, ter um filho, plantar uma árvore

Foto do Ashikaga Flower Park no Japão, um lugar que eu espero ter visitado com minha vó em alguma outra linha do tempo.

Uma das últimas conversas que tive com minha avó foi no último aniversário que comemoramos na casa dela. Ela falou da vez que achou que minha mãe (ainda bebê) não estava conseguindo respirar e chamaram uma ambulância -e como com todas as histórias da minha vó, do que parece uma história simples do nada o caos se instala e você tem ambulância presa na lama, meu vô sem entender o que estava acontecendo e minha mãe dando um punzinho aliviada quando o socorrista abre os cueiros que estavam muito apertados. Achei engraçado que o que eu considerava um traço da minha ansiedade (checar no meio da noite se o bebê saudável estava respirando) aparentemente é um momento meio universal da experiência da primeira vez como mãe.

A outra coisa que falamos foi sobre a glicínia no quintal dela, que naquele momento já tinha escapado do controle e dominava todo o muro, subindo em galho de árvore, caindo para o lado da casa do vizinho. Descobrimos que compartilhávamos a flor favorita.

Um pouco depois a vó morreu. Sempre que converso com meus parentes sobre isso fico na dúvida se eles realmente entendem o que quero dizer, mas quando retorno para aquele dezembro, penso aliviada que pelo menos foi antes do COVID. A vó tinha problemas pulmonares, teria sido um inferno para ela. Teria sido um inferno para nós também não poder se despedir. Continue lendo “Escrever um livro, ter um filho, plantar uma árvore”

Melhores Leituras de 2024

Já começo dizendo que vou aproveitar o post das Melhores Leituras de 2024 (que no fim das contas é meu jeito de registrar as leituras favoritas do ano para ter um link fácil à mão para quando me perguntam “e aí, o que você tem lido de bom?“) para deixar a sugestão do aplicativo Bookmory.

Já tem algum tempo que falo dele em redes sociais, mas acho que o que eu não costumo ressaltar como ponto positivo é justamente o fato de NÃO SER uma rede social de livros, o que é ótimo. Eu gosto de redes sociais, eu uso redes sociais e acho que tem muito de positivo na existência delas para criarmos espaços para falar sobre livros, mas eu sinto também que falta um pouco o momento pessoal, algo para além das opiniões de terceiros.

Porque com o passar dos anos mesmo quando você se sente profundamente consciente das suas escolhas, ainda assim parece que há sempre uma nota de performance no que a gente divulga em rede social, não? Eu já me peguei escolhendo livro para ler porque tinha muita gente falando dele e queria conferir mais pelo FOMO do que qualquer outra coisa – mesmo sabendo que ele não tinha muito o perfil de livro que eu gosto. Isso para não falar dos doidos que leem livros que obviamente não vão gostar só para fazer vídeo/post/sinal de fumaça na linha “eu li livro x para que você não tenha que ler”.

Além disso, tome por exemplo também as famosas metas de leitura. Eu tenho meta de leitura acho que desde 2016. Eu gosto, mas para mim sempre foi algo lúdico, não um compromisso sério. Aí agora no final do ano no topo do Goodreads 1 tinha um link para uma lista de livros curtos para quem queria bater a meta de leitura. Aí eu te pergunto: onde fica a diversão?

Adianta ficarmos apavorados com os dados da Retratos de Leitura de 2024 se seguimos impondo uma natureza de obrigação para a leitura? Ou ainda, essa ideia de que leitura tem que ser mais do que por prazer, tem que sei lá, ser edificante, moralizante, ou qualquer outro -ante. Que a leitura tem que vir com conteúdo para te preparar para o mercado de trabalho, para ser uma boa pessoa, para ser alguém de sucesso?

Eu me pergunto de verdade se a gente espera de um filme da Marvel ou de uma série da Netflix a mesma coisa. E eu não estou diminuindo filmes da Marvel e séries da Netflix, eu estou dizendo que algumas vezes está ok só se divertir com arte, e com a leitura isso também funciona. Especialmente se você não é professor de literatura nem trabalha no mercado editorial ou com jornalismo cultural e portanto leitura nenhuma é obrigatória para você.

Enfim, vai lá amiguinho, descobre o que te faz feliz e se divirta. Por exemplo, eu abracei de vez o gênero mina branca triste, é minha praia e quando vejo um lançamento que segue nessa linha, vou sem medo de ser feliz. Até quebro a cara como no caso do Gold Rush, por outro lado passei boas horas com Piglet, Adelaide, As Irmãs Blue, As Young As This, What’s Like in Words, que só não entraram no top10 porque bem, é top10, não top15 ¯\_(ツ)_/¯.  Vamos para a lista então? Fora de ordem porque como sempre digo, já é difícil selecionar só dez.

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Os melhores livros do Século XXI segundo o NYT (e a Anica também)

Chegando com um mês de atraso para o rolê porque acabei falando disso mais lá na Valinor, mas achei que valia o registro aqui também. Então que o New York Times em uma decisão bastante preocupante resolveu elaborar uma lista dos 100 melhores livros lançados no Século XXI. Digo preocupante porque não chegamos nem a completar um quarto de século, né, qual a pressa? Eles sabem de algo que não sabemos? Dias depois estava a ESPN lançando lista de melhores atletas do século e a ansiosa que vive em mim já ficou com a pulga atrás da orelha. Mas divago.

Como era de se esperar, depois que saiu a lista começaram as reclamações. É natural, principalmente quando não encontramos nossos favoritos e ao mesmo tempo vemos livros do século passado entre os melhores do século atual (NYT carece de uma aula básica sobre como funciona a divisão de séculos, livros do ano 2000 são do século XX).

Das reclamações o que eu achei interessante foram os brasileiros falando que a lista tinha muito livro anglófono: é um periódico estadunidense, a lista elaborada com voto de leitores estadunidenses considerando livros lançados só nos Estados Unidos 1, as pessoas realmente esperavam diversidade? 

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