The Compound (Aisling Rawle)

Lançado lá fora agora em 2025 e ainda sem tradução no Brasil, The Compound é romance de estreia da escritora irlandesa Aisling Rawle e ganhou recentemente o prêmio do Goodreads de melhor Ficção Científica (já vou falar sobre isso). Também apareceu em um monte de lista de melhores livros de 2025, e confesso, sou fraca, acabei cedendo à curiosidade e resolvi ler agora no começo do mês.

A proposta é a seguinte: a narradora participa de um reality show num futuro incerto (mas aparentemente não muito distante) onde 10 homens e 10 mulheres competirão para ganhar produtos luxuosos, talvez patrocínio de marcas, itens para a casa onde estão vivendo. Uma das poucas regras, ou pelo menos a mais importante, é que pelo menos até a casa ficar com apenas cinco participantes, uma pessoa SEMPRE terá que dormir na mesma cama que alguém do outro gênero (sim, terrivelmente heterossexual, e uma personagem faz comentário sobre isso). Caso a pessoa passe a noite sozinha, ao amanhecer ela deverá deixar a casa e a competição.

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Cem absorventes

Sempre que vejo notícia sobre saúde feminina a primeira coisa que vem na minha cabeça é a voz daquela menina cantando “One hundred tampoooons! One hundred tampooooons!“. A música conta uma história da vez que a NASA mandou uma mulher para ficar seis dias no espaço e deram para ela 100 absorventes – e perguntaram se seria o suficiente.

Não sei se a história é real, mas eu entendo totalmente a alma ansiosa que resolveu mandar 100 – porque afinal, a vida do ansioso é imaginar sempre os piores cenários e pensar em soluções antecipadas porque vai que, né. Mas a música é engraçada porque ilustra algo que parece cada vez mais óbvio, o quanto o corpo da mulher e experiências comuns ainda são um mistério. E sabe, não é como se do nada há quinze anos mulheres tivessem começado a menstruar e ficarem grávidas e entrarem na menopausa, isso sempre aconteceu.

Mas aí você lê uma matéria como essa que saiu essa semana na CNN, comentando sobre como as pessoas ainda não sabem sobre a menopausa (e de que forma isso pode ser perigoso) e não dá para não ficar com uma pulga atrás da orelha sobre o que é que possa causar um atraso tão grande não só em estudos sobre saúde feminina, mas também divulgação. Tem coisa aí que já deveria ser conhecimento comum e a gente ainda é obrigada a tropeçar na informação no momento em que está acontecendo com a gente e olha, não é uma boa experiência.

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Tudo agora mesmo pode estar por um segundo

Assim como o grande filósofo Raul Chequer, eu também acho que tem que acabar com estereótipo do idoso sábio, com o tempo dá para acumular burrice também. Então eu antecipo que nada do que falarei aqui tem qualquer relação com a noção de sabedoria, inteligência e muito menos maturidade – é uma questão de mudança de percepção. Eu gosto muito do exemplo que o Michio Kaku dá para falar de outras dimensões, o peixinho de boas no lago achando que o mundo é aquilo e então chega alguém e tira o peixe da água e ele descobre que tem “para cima” e que tem “ar ao invés de água” e “meu deus olha só esse monte de gente esquisita”.

Enquanto ele está só no lago, ele percebe as coisas de um jeito. Saindo do lago, a percepção se altera porque agora ele tem novas informações. No caso do tempo, quanto mais velho você fica, mais tiram seu corpo da água, digamos assim. Tem coisas que a gente não consegue deixar de perceber, e a cabeça faz revisões constantes reformulando a noção do período que certos eventos aconteceram.

Um exemplo para ilustrar o que estou tentando dizer: estava conversando com minha mãe sobre como na minha cabeça “eu sempre tinha passado o natal na casa da vó”, e quando eu tinha uns treze anos isso de fato era verdade. Mas considerando aí meus 40 e tantos natais, eu passei menos da metade na casa da vó. A frase não é mais verdadeira.

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Quando a ordem dos fatores altera o produto

Em algum momento ali em 2023 quando eu estava em uma fase mais crackuda de Anime (o que incluiu assinar o Crunchyroll e finalmente me apaixonar por Yuri!! on Ice como 11 em cada 10 pessoas que assistem Yuri!! on Ice) fiquei sabendo de uma duologia que, reza a lenda, a sua percepção da história muda conforme a ordem que você assiste aos filmes. Achei que seria algo na linha de Dois Lados do Amor, mas não foi bem assim.

To Me, The One Who Loved You (filme rosa) e To Every You I’ve Loved Before (filme azul) são romances envolvendo realidades paralelas – sempre que você ler comentários sobre as duas histórias, notará que as pessoas mencionarão a ordem que assistiram. Eu vi o rosa e depois o azul, e jamais poderei confirmar se a ordem afeta a percepção porque afinal de contas, agora eu já tenho a informação sobre as duas animações. De qualquer forma, gostei dos dois, mas senti que o segundo me pegou de jeito (como já falei aqui mais de uma vez, sou chorona então quando eu digo “me pegou de jeito” entenda-se: fiquei chorando e achando lindo um amor que existiu em todas as realidades possíveis e blablabla).

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Uma playlist para o fim do mundo

Robert Frost e T.S. Eliot são dois poetas nascidos no fim do século XIX que tem em comum o fato de apesar de serem tecnicamente norte-americanos (o Eliot se tornou cidadão britânico em 1927), estavam na Inglaterra no início da Primeira Grande Guerra Mundial. É o tipo de informação que nunca passou pela minha cabeça checar até esse momento, quando eu estava para começar o post fazendo um comentário sobre poetas imaginando o fim do mundo em suas poesias.

Caiu a ficha que o tema não só é parecido, mas eles publicaram os poemas mais ou menos na mesma época (primeira metade da década de 20, já no pós-Guerra). O meu comentário inicial seguiria mais ou menos na linha “lembra quando falar de fim do mundo era só um exercício de imaginação de poetas?“, chamando a atenção para o fato de que agora parece que todo dia alguma coisa nos aproxima do momento final. E aí eu vi a desilusão deles e, ah. É sempre um baque perceber que nada é novo e que aparentemente estamos sempre cometendo os mesmos erros. Nem nossas ansiedades são novidade.

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Heart the Lover (Lily King)

Ao responder uma pessoa sobre o que tornava uma história sobre um fazendeiro triste na Islândia seu livro favorito, a protagonista de Heart the Lover de Lily King fala: “Você sabe quando você consegue lembrar exatamente quando e onde você leu certos livros? Um romance genial, verdadeiramente genial, não apenas captura uma experiência ficcional em particular, ela altera e intensifica a forma como você sente sua própria vida enquanto você o lê. E ele o preserva, como uma capsula do tempo.” (tradução torta minha, o livro ainda não foi lançado no Brasil).

Esse comentário sobre grandes obras que nos tocam aparece já quase na porção final do livro, mas é curioso como de certa forma ali enquanto leitor você já consegue entender que esses encontros que mudam nossa percepção da vida não ocorrem apenas com livros: eles também acontecem com pessoas, não importando o tempo que elas passaram conosco. É um pouco como aquele diálogo final da Diane e do Bojack no telhado (I think there are people that help you become the person that you end up being, and you can be grateful for them even if they were never meant to be in your life forever.)

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Bring the House Down (Charlotte Runcie)

Alex Lyons é um crítico de teatro famoso por ser filho de uma atriz famosa e por só dar uma estrela para as peças que assiste. Diz que isso aumenta o valor das (raras) cinco estrelas e que se não fosse o critério do jornal para qual escreve obrigá-lo a usar pelo menos uma estrela, daria zero sem dó. Durante o Festival de Edimburgo ele assiste a um monólogo sobre emergência climática e ao sair envia o texto para o jornal com uma crítica destruindo a apresentação. E bem, é parte do jogo, não tem problema. A questão é que logo depois de enviar a crítica para a publicação, ele encontra Hayley – a roteirista/atriz da peça detonada – num bar, e mesmo sabendo que é a artista responsável pela apresentação que ele acabou de destruir, a leva para o apartamento onde está hospedado e passa a noite com a garota.

Esse é o ponto de partida de Bring the House Down, romance de estreia de Charlotte Runcie (ainda sem tradução no Brasil). Logo depois de descobrir que o carinha com quem passou a noite é o autor da crítica, Hayley modifica a apresentação a transformando em uma espécie de exorcismo do trauma – ela expõe para o público o que aconteceu, e convida as pessoas da plateia para falarem de outras situações em que Alex Lyons foi um babaca. O show viraliza em toda aquela onda girl power contra homens tóxicos e a situação foge completamente de controle, tanto para Alex quanto para Hayley. Continue lendo “Bring the House Down (Charlotte Runcie)”

Mais apavorante do que a ficção

Era uma vez um texto que rodou bastante a internet ali no começo dos 2000 (ou seja, ainda era recebido em e-mails ou aparecia como posts em fóruns de discussão) e apresentava um título que prometia a versão “verdadeira” dos contos de fadas. Saem os casamentos com príncipes e finais felizes, entram histórias macabras com olhos arrancados, pés decepados e muito, muito sangue. Mas esse uso do termo “verdadeira” é coisa típica de internet, a certeza de saber o que na realidade não sabe, né? Porque a ideia de uma versão ser a “verdadeira” vai contra a própria natureza dos contos, que segundo Angela Carter, tratam-se de “histórias anônimas que podem ser reelaboradas vezes sem fim por quem as conta“. 1

Então, quando falamos de contos de fadas não temos uma versão “verdadeira”, mas várias – é normal a releitura, o reconto. E essa natureza mutante do conto popular continua viva, porque mesmo que o diálogo inicial parta de uma versão de conto lá da Coleção Disquinho, por exemplo, ela segue sendo recontada em livros, filmes e afins. E eu não estou falando desses live-actions totalmente dispensáveis da Disney, é óbvio. Falo de releituras como o filme The Ugly Stepsister (dirigido por Emilie Kristine Blichfeldt) e o livro Sour Cherry de Natalia Theodoridou. Continue lendo “Mais apavorante do que a ficção”

The Echoes (Evie Wyld)

The Echoes da anglo-australiana Evie Wyld (ainda sem tradução no Brasil) inicia com o que é até o momento minha frase de abertura favorita das leituras de 2025. Diz o narrador: “Eu não acredito em fantasmas, o que desde minha morte vem sendo um problema.”. O fantasma-narrador conversa com o leitor de um ponto recente do pós-vida, ele ainda não sabe o que precisa fazer para sair daquela situação, ele não sabe o que pode fazer já que é um ser incorpóreo e invisível. Ele também não lembra como morreu. Mas sabe que está preso na casa onde vivia com a namorada Hannah.

O que eu gosto desse primeiro capítulo é que de certa forma ele já nos apresenta o tom da história, mesmo que ela cresça em forma nos capítulos seguintes: é engraçada na mesma medida em que é melancólica. Ela é, principalmente, uma reflexão sobre como nossas ações no passado acabam repercutindo não só no nosso presente, mas nos dos outros também. E isso conseguimos ver inclusive na estrutura do romance: Max é o mestre de cerimônias, abre o livro com seu capítulo em primeira pessoa que também iniciará a sequência de capítulos que estruturará o livro.

Depois de Max vem sempre Hannah, num passado pouco distante, registrando os últimos meses antes da morte de Max – os capítulos em terceira pessoa. Depois desse passado recente somos jogados para um passado mais distante, na adolescência de Hannah vivida na área rural australiana. Finalmente, fechando a sequência, vemos um pedaço da vida de uma das pessoas desse passado distante de Hannah. Como dá para perceber, Max não é a personagem principal -e de certa forma ele nem será o personagem principal da vida de Hannah. Mas é um daqueles casos de pessoas que passam na nossa vida e deixam uma marca, que (nesse caso literalmente) nos assombram mesmo depois de anos.

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Iris, Annie e outras garotas que falhariam no teste Voight-Kampff

Eu queria ter gostado mais de Acompanhante Perfeita (Companion, 2025), mas até agora eu não se se é o filme que bate na trave mesmo, ou se é porque eu já vi a mesma ideia melhor desenvolvida em um livro no ano passado. Eu achei bem sacado nos minutos iniciais eles não entregarem logo de cara a natureza da Iris (embora por trailers e outras peças de marketing a gente já saiba). Você vê Iris e Josh como um casal normal e apaixonado, fora uns “opa, pera.” que surgem do nada (mas bem discretos, como o fato de Iris chegar carregando as malas grandes sozinha enquanto Josh está só com uma bolsa leve, ou a Iris toda animada depois do sexo e Josh só vira para o lado e diz um “vai dormir, Iris”).

Talvez o que tenha me incomodado é que o enredo tenha girado mais em torno de Iris tentando sobreviver aos eventos da viagem com os amigos de Josh. Em muitos momentos o filme é mais comédia do que um suspense, o que parece tirar um pouco o peso do que é que significam as ações de Josh ou mesmo a relação dele com Iris. É um filme ruim? Não é. Mas fica a sensação de que poderia ser bem melhor. Continue lendo “Iris, Annie e outras garotas que falhariam no teste Voight-Kampff”