Livros da quarentena

Diabo de ano esquisito. Eu vejo fotos de janeiro e fevereiro e não consigo nem imaginar o que era que eu tinha em mente sobre 2020, até o sentimento naqueles tempos já parecem meio alienígenas. O negócio é que estou perto de completar cinco meses de isolamento. Já passei por crises de ansiedade, já mandei uns “VOCÊS PAREM COM ESSAS BRINCADEIRAS ESTÚPIDAS PORQUE A GENTE NÃO PODE IR PRO HOSPITAL” para os piás, já estou naquele ciclo de ficar com raiva por mais um dia trancada em casa, e aí me sentir culpada porque afinal eu posso ficar mais um dia trancada em casa, etc. etc. etc.

Enfim, nada que não esteja acontecendo com quase todo mundo por aí (eu digo quase porque dia desses umas gurias da vizinhança gritavam “a minha bandeira jamais será vermelha” da sacada, e eu pensava “puxa, queria viver nessa mesma realidade em que a preocupação principal não é um vírus que já matou mais de 100.000 brasileiros, mas a possibilidade de sermos tomados pelo fantasma do comunismo”.

Blé.

Enfim, a pandemia esculhambou minhas leituras também. Inicialmente porque eu simplesmente não conseguia me desligar da realidade para embarcar na história que lia. Aquela coisa de “Moça, não abraça o cara, cumprimenta de longe” ou “Nha, saudades aglomeração no bar”. Depois o problema com as leituras ficou um pouco diferente, é sobre concentração, mas não mais pelo conflito da realidade que estava vivendo com a ficção. É mais que tem tanto acontecendo que a cabeça está sempre em outro lugar, nunca no que estou lendo e então a leitura não flui como deveria.

Mas mesmo com todas as dificuldades, volta e meia lembro de algum livro que li em outros  tempos. E aí achei que seria legal elaborar uma lista, situando os títulos nos momentos do isolamento, o que de certa forma explicaria a lembrança. Para lembrar os velhos tempos, é um misto de relato com top5. Começando, é claro, pelo começo.

Naquele período em fevereiro em que acompanhávamos notícias de outros lugares mas o Brasil ainda não tinha casos oficiais, pensei muito em On the Beach, um livro de ficção científica originalmente publicado em 1957 e escrito por Nevil Shute. Uma bomba nuclear acaba com quase todo o mundo – o único lugar ainda seguro é a Austrália e bem, submarinos. As pessoas na Austrália guardam a nuvem de radiação chegar ao país. A sensação que eu tinha era essa: do mal que estava se aproximando e não havia nada que eu pudesse fazer para evitar. Obs: Fui procurar uma imagem de capa do livro e descobri que tem uma adaptação de 1959 com Gregory Peck e Ava Gardner e Fred Astaire no elenco chamada A Hora Final.

Aí chegou aquela semana de março em que tudo mudou: com o primeiro caso em Curitiba, as escolas mandando crianças para casa, início do isolamento. Eu fico lembrando do último final de semana antes de começar a quarentena, fomos em um pesque-e-pague com as crianças – fui pensando “se formos ficar isolados mesmo, sabe-se lá quando é que eles vão poder sair”. No dia seguinte fomos ao dentista. Marquei uma consulta com o ortodontista do Arthur para julho dizendo para a secretária “Bem, até lá isso tudo já deverá ter passado”. E aí na terça já não saímos mais. Tem algo sobre essa passagem de tempo que sempre penso em Estação Onze, da Emily St. John Mandel e de um trecho logo no começo do livro: “De todos aqueles que entraram no bar naquela noite, o bartender foi o que sobreviveu por mais tempo. Ele morreu três semanas depois na estrada fora da cidade“. A sensação foi a mesma: achava que a história seguira por um caminho, aí do nada BAM, você é jogado em uma narrativa completamente diferente.

E veio abril, e maio, junho e o pico sempre indo mais para frente e a sensação de que nunca viria o momento em que isso acabaria. A dúvida “sou a única idiota fechada em casa?” começa a bater, principalmente quando preciso ir à farmácia e vejo a avenida principal aqui de perto de casa com o movimento de sempre – a única diferença é que algumas pessoas usam máscaras. Os dias vão passando e parecem se repetir, ao ponto de o Augusto chegar para mim e dizer que “parece que estamos em um ‘lúpem infinito’“. Lembrei muito de Esperando Godot do Beckett. Godot agora é uma vacina, um tratamento efetivo, é o Átila dizendo que a gente pode sair.

Quando o número de mortos começou a crescer rapidamente, relatos de corpos empilhados esperando liberação para enterro, de famílias que não puderam velar seus mortos, voltou na memória uma leitura do começo do ano, Enterre seus mortos da Ana Paula Maia. Fica martelando aquela ideia de que se o que nos separava dos animais era justamente o modo como lidávamos com nossos mortos, agora essa linha parece ter sido apagada. Minha avó paterna faleceu em abril. Não foi por covid, mas com mais de 100 anos, muitos filhos, netos e bisnetos, apenas 10 pessoas puderam estar presentes no enterro por causa do protocolo de segurança. A gente fica meio bicho quando não consegue se despedir direito de quem ama.

E aí chega agosto. Tem poucos dias que li O Mez da Grippe do Valêncio Xavier, que acabou de sair em nova edição pela Arte & Letra. Com recortes de periódicos da época mesclados ao testemunho de quem viveu durante a pandemia de gripe espanhola aqui em Curitiba, Xavier cria algo novo – não é romance histórico, é uma linguagem diferente que utiliza a realidade para criara ficção. Mas agora em 2020 ganhou cara de profecia. Publicado em 1981, a gripe espanhola aparece ali como a moldura para outras histórias. Mas assim: se o Mez da Grippe caísse em minhas mãos um ano antes, seria outro livro. O que vivo no momento acabou o transformando completamente, porque lido durante a pandemia de covid, é impossível não estabelecer paralelos. O jornal falando que tratava-se “de uma simples grippe”, o número real de mortos escondido da população, a especulação se o presidente pegou ou não, ou ainda:

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Eu gostaria de voltar para fazer uma outra lista, descrevendo os meses finais de isolamento – mas vá lá, a gente chegou naquele momento em que a sensação que dá é que não será tão de repente quanto começou. Será aos poucos. Fábio já teve reunião presencial, já estão falando de retorno às aulas… no fim das contas a gente vai junto com a maré. O diabo dessa doença é que somos criaturas sociais. É o que ajuda a espalhar, é o que torna tudo tão difícil para nós – mesmo os mais eremitas como eu (que já estou aqui sentindo saudades de recusar convites).

2 comentários em “Livros da quarentena”

  1. Achei interessante esses On the Beach e Estação Onze, acredito que vão me ajudar a retomar o ritmo de leitura de janeiro, pois é de um livro que instiga que todos necessitam para manter a paixão pela leitura acessa.
    Um questionamento, seu blog desde 2004 era desse modo de agora, escuro com essas fontes e tals?
    Estou a pesquisar blogs por aí, e achei o seu interessante, pode parecer um questionamento futil, mas tenho a impressão que sites com tema escuro são coisa relativamente pros hoje em dia tudo.
    Antes quando via um site com tema escuro ele era quase sempre deveras peculiar.
    Clamo por humildade, paciência e educação. Ou somente uma desceção de feed sem compartilhar a imagem de Jesus.

    1. Oi João,

      Sempre foi escuro. Quando tentei um visual claro em 2008 (acho? agora não lembro) o pessoal que frequentava o blog não curtiu e voltei para o escuro (essa coisa de “frequentar blog” tb parece de outros tempos hahaha).

      Obrigada e abraço!

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