
Tem uns poucos dias estava lá perdendo uns minutos de vida no Instagram quando vi um post da conta Centro de Curitiba contando que estão para demolir “o predinho rosa do Batel”. Aparentemente, a ideia é construir um hotel no local. Dando um contexto para quem é de fora: o Edifício Iza Anitta fica em uma dos endereços mais famosos de Curitiba, a Avenida do Batel. Se fossem colocar endereços de Curitiba em um tabuleiro de Banco Imobiliário, eu tenho certeza que a Avenida do Batel estaria lá.
E é óbvio que como um endereço de prestígio, qualquer metro quadrado que fique vago abre espaço para um prédio. A questão é que aquele terreno de esquina não está vago, nele há uma construção da década de 1950, um ponto de referência para os curitibanos justamente porque se diferencia das ‘n’ construções de vidro e concreto que sobem toda hora na cidade. Como comentei no Bsky no dia que fiquei sabendo, eu compartilho com todos os curitibanos a tristeza da perda desse prédio, porque faz parte da nossa história. A questão é que nesse caso vai junto para o chão um pouco de história pessoal, porque minha vó morava ali quando eu era criança.
Para questão de clareza, vale dizer que na realidade a vó morava no prédio ao lado do Iza Anitta, e que vai para o chão junto, faz parte do terreno que foi comprado para a construção do hotel. Na hora que soube da notícia já compartilhei com a família, e começamos a trocar memórias do lugar. As paredes verdes escuras do corredores, a vista do castelinho do Batel e histórias que inventávamos sobre o local, a banheira e o piso esquisito do banheiro, o corrimão que era parecido com o da escola onde estudávamos.
(E tinha também a garagem, que eu morria de medo. Jamais saberei explicar o sentimento, acho que porque não costumávamos visitar a vó à noite e nas poucas vezes que íamos a lâmpada amarelada acesa no subsolo dava uma sensação bem esquisita quando víamos das escadarias que davam acesso para a entrada.)
Enfim, de acordo com as notícias a Prefeitura diz que quem comprou o terreno não tem alvará de demolição e que tem um documento dizendo que o imóvel está em estudo para a inclusão no inventário do Patrimônio Cultural de Curitiba. Isso nem de longe quer dizer que a possibilidade de demolição acabou, até porque o Hospital do Bom Retiro teve uma história parecida e foi demolido. E ao mesmo tempo que todo mundo está prestando atenção ao caso do Iza Anitta, parece que já está acontecendo algo semelhante com a Casa Amarela na Benjamin Constant – a casa de 1942 não é uma Unidade de Interesse de Preservação.
E acho que o que mais me enlouquece com essas demolições pela cidade, é saber que quem as promove volta e meia vai para a Europa babar em construções históricas dos estrangeiros. Acha a Paris de Haussmann linda, tira foto na frente de pubs centenários em Londres e não perde a selfie em igrejas na Itália. Aliás, se tem algo que fica claro quando você vai visitar a terra dos gringos, é que é possível ser moderno, crescer, e mesmo assim preservar cultura e História. Minha cidade favorita do mundo todo é Edimburgo, e ela faz exatamente isso.
E não é algo impossível. Quem acompanha a conta do Centro de Curitiba já ouviu falar sobre o Arlei Smanhotto, um empresário de 70 anos que hoje em dia tem como projeto comprar casas históricas e reformá-las. Já são dez casas reformadas no Centro da cidade. É um trabalho incrível, partindo de uma pessoa só – já pensou se empresários investissem nessa ideia? No caso o Iza Anitta, se a invés de derrubá-lo fazer uma reforma no interior e preservar a fachada, tornando parte da personalidade do hotel que supostamente querem colocar no local?
É, eu sei que é sonhador demais, ainda mais nos tempos atuais. Como é a música? “Aqui tudo parece/Que era ainda construção/E já é ruína” . É estranho ter que dizer que História e memória são importantes logo no final de semana em que estaremos todos torcendo por O Agente Secreto no Oscar. Dá a sensação de que não estavam prestando muita atenção.
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A palavra que dá título ao post (Hiraeth) significa algo como “saudade de um lugar que pode não mais existir” em Galês. Aprendi a palavra lendo esse artigo que saiu no Guardian, escrito por Dan Fox, falando sobre sua relação com a língua galesa – é um texto tão, mas tão lindo que vale a pausa no dia para ler (é uma leitura mais longa do que os dois ou três parágrafos que dominam a internet hoje em dia, mas confie, vale a pena demais). Na hora que li a explicação do Dan Fox para a palavra, pensei no Edifício Iza Anitta, mais especificamente no prédio ao lado. Com suas paredes verdes escuras e garagem assustadora, um dia vai ser só memória, e não mais lugar.
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Comentei sobre O Agente Secreto e só para deixar registrado: eu estou bem cética sobre as chances do Brasil nesse Oscar, mas preciso dizer que depois de tempos sem muito interesse pela premiação, esse ano eu estava até animada. Não ao ponto de ver todooos os filmes como fazia antigamente, mas até senti saudades de escrever aquele post de dia seguinte como costumava fazer. (Fui checar aqui e a última vez que fiz isso tem dez anos já, hahahaha.)
Eu achei o prédio uma graça. E, infelizmente, tenho certeza de que vão fazer um prédio bem mais do mesmo no lugar.
E adorei conhecer a palavra Hiraeth.
Né? Eu sei que alguns prédios que estão subindo agora daqui uns 50 anos também serão ponto de referência e parte da história da cidade, mas é um prédio tão legal, com tanta personalidade, derrubar para subir torre espelhada como os ‘n’ hotéis espalhados pela cidade é triste demais.
(Eu gostei bastante da palavra também. Achei engraçado que jogando no google tradutor – shame on me – ele dá como tradução direta a palavra saudade. A gente cresce ouvindo a história que saudade não tem tradução, do mesmo jeito que os galeses devem achar que hiraeth também não tem, e aí descobrimos que são meio primas em sentido)