Literatura na escola (ou: Harry Potter ao invés de Machado não é a solução.)

Sam Reid como Lestat na série Entrevista com o Vampiro representando a cara que eu faço sempre que vejo alguém falando sobre ler Harry Potter ao invés de Machado de Assis na escola.

(Queria começar dizendo: tem outros livros. Se eu consegui largar a mão do Neil Gaiman você também consegue se libertar de Harry Potter, amiguinho.)

Para os cronicamente online há uma espécie de calendário anual de temas a serem debatidos, aqueles assuntos esgotadíssimos que incrivelmente conseguimos sempre retomar e todo ano discutimos com uma paixão que aparentemente só seria possível para um tema novo. Pois ontem me mandaram um print da rede falecida onde uma pessoa leitora (booktwitteira? booktoker? booktuber? não sei.) sugere que o problema do ensino de Literatura no Brasil é que os professores obrigam os alunos a ler Machado de Assis ao invés de Harry Potter. E com isso declaro aberta a temporada de “As crianças deveriam ler Harry Potter ao invés de Machado de Assis“.

Eu já me irritava com essa sugestão mesmo na versão do bem da Rowling, quando ela ainda fazia revisionismo da obra e do nada dizia coisas tipo “Dumbledore é gay”. Na forma atual a gente nem deveria estar mais sugerindo esse tipo de coisa, mas ok, não vou me fazer de boba, eu sei que no fim das contas a ideia é basicamente “O jovem deveria ler young adult, coisas atuais e divertidas, e não clássicos empoeirados e cheios de palavras difíceis”. Então ao longo do post, entenda “Harry Potter ao invés de Machado” como tal.

Pois sendo clara desde o início: a irritação não tem a ver com o livro em si (e aí poderiam sugerir uma infinidade de ya e daria na mesma), mas dessa mania de ex-alunos acharem que experiências pessoais bastam para sugerir fórmulas mágicas (aqui sem intenção de trocadilho) para a educação. Como se um monte de gente que fez da vida o estudo e a prática de Literatura em sala de aula insistisse em bater a porta na cara de Harry Potter por puro preconceito contra obras voltadas ao público mais novo. Sabe, eu não vou dar pitaco sobre como fazer obturações só porque já fui ao dentista.

Além disso, se a sugestão parte de lembrança de tempo escolar, precisamos levar em conta que a memória é um bicho danado, porque a gente mistura tudo quando tenta resgatar o passado e costuma falar de experiência de Ensino Médio como se fosse toda a vivência escolar, por exemplo.

Vou começar nesse ponto porque quando falam em substituir um pelo outro esquecem que esse encontro com o Machado normalmente chega só no Ensino Médio, mais especificamente em preparação para vestibular. Aqui gostaria de ressaltar que fora quem é doido e escolhe Letras (eu) ou alguma área que ainda toque de certo modo a Literatura, esse será o único encontro formal do aluno com o assunto.

O Tui está lendo Machado pela primeira vez, professor pediu O Alienista. Ele está reclamando um monte, mas se ano que vem no vestibular ele optar pelas áreas que tem pensado, o próximo encontro com Machado será só um comentário sobre o lugar do autor naquela linha do tempo das escolas literárias no Brasil. É, portanto, uma das raras chances que ele terá de ler Machado com um mediador, o professor. Você entende então que as oportunidades são raras demais? Que o professor serve como mediador quando apresenta clássicos para os alunos? Que Harry Potter não precisa de um mediador, ao contrário de Machado?

Quando a pessoa sugere “Harry Potter no lugar do Machado”, ela está apostando que todo mundo sairá da escola apaixonado por livro e que eventualmente terá uma oportunidade de encontrar o Bruxo do Cosme Velho só por prazer, não por obrigação. A verdade é que nem sempre basta o contato com um livro divertido para despertar a paixão pela leitura, então é uma aposta que pode custar caro – uma vida sem encontrar o Machado.

Enquanto isso, há um lugar de encontro para obras como Harry Potter antes de os alunos chegarem nos clássicos. É um trabalho constante que professores de Língua Portuguesa fazem, mas que é esquecido porque de lembrança a gente só resgata aqueles anos de “história da literatura” do Ensino Médio e a lista de livros obrigatórios de vestibular. Mas professores estão desde o início da alfabetização trazendo mescla de clássicos e livros recentes (e divertidos) para os alunos. Meu ponto inicial aqui é que é falaciosa essa ideia de que só é imposta leitura de clássicos na escola, e que professores chegam entochando Machado de Assis em crianças já no primeiro contato com Literatura criando um trauma e não permitindo que a criança desenvolva gosto pela leitura. Não é assim.

Já que quem sugere Harry Potter no lugar do Machado vai pelas lembranças da escola, vou na mesma linha com as minhas. Lembro do quarto ano do fundamental, Tia Valéria levando a turma toda uma vez por semana para a biblioteca da escola. Nós estávamos livres por uma hora para ler o que quiséssemos, sem cobrança de atividade relacionada após a leitura. Era só pela leitura mesmo. Eu considero um ponto importantíssimo da minha formação de leitora, mas diria que é a solução para despertar a paixão em todo mundo? Claro que não. Até porque se for pegar todo mundo daquele quarto ano, dá para contar nos dedos quem ainda lê por prazer hoje em dia.

A professora Laís no sétimo e oitavo ano tinha uma outra proposta, uma vez por mês tínhamos que falar para a sala toda sobre o livro que tínhamos lido da biblioteca da sala, ou qualquer outro livro caso os da sala não interessassem. Foi quando me apaixonei por Wilde e Voltaire. Fiz uma apresentação falando de As Brumas de Avalon usando formato de bula de remédio, então note que não havia restrição e nem imposição, para além da condição de que teríamos que falar de livros. Tenho certeza que a Anica que escreve posts sobre livros no Hellfire Club nasceu ali, mas de novo: daquela turma toda, poucos ainda poderiam ser considerados leitores atualmente.

Então meu segundo ponto é que não há solução e livros únicos que despertarão o gosto pela leitura, porque a formação de leitores é uma combinação de eventos na vida de uma pessoa (e de gostos pessoais, vale lembrar). Ter acesso é importante, ter gente perto de você (e fora da escola) que lê é importante, ter sorte com professores que também gostem de ler é importante. São muitas variáveis para chegar o twitteiro médio e reduzir a questão toda para o fato de que as escolas obrigam alunos a lerem clássicos quando deveriam obrigar a ler young adults.

Aqui tenho mais dois pontos: o terceiro é o termo obrigação. Se é obrigatório, o jovem por regra vai se colocar contra, mesmo que seja o livro mais comentado e adorado do mundo. Além disso, se eu que sou leitora formada sei que certos gêneros não me agradam e portanto passo longe deles, qual seria o efeito de obrigar alguém a ler fantasia quando essa não é a praia do aluno? Ou só porque é indicado para jovens o livro agrada todos os gostos? Difícil, né.

Meu último ponto e aqui o mais importante está na questão do papel do ensino de Literatura na escola. Aluno sair das aulas de literatura com gosto pela leitura é uma meta, sim, mas é mais naquele sentido de “opa, se rolar, que ótimo”. Mas a meta principal é fornecer ferramentas básicas para o aluno para que ele fora da escola tenha a capacidade de fazer leitura mais reflexiva sozinho. Porque amar leitura tem muito a ver com compreendê-la e perder o medo de que seja algo acessível para poucos.

Não é necessariamente ensinar sobre narrador em primeira ou terceira pessoa, mas fazer com que ele perceba que dentro de uma obra a escolha do narrador pode fazer diferença (e quer melhor obra para mostrar esse tipo de coisa do que Dom Casmurro?). Que a escolha de determinados termos ajudam a tornar uma história mais engraçada ou mais sombria. Que alguns textos brilham no que não é mencionado. Que existem histórias que o escritor te convidará para pensar no desfecho por conta própria, e que está tudo bem não chegar a nenhuma conclusão.

E assim como as Gramáticas emprestam muito texto da literatura clássica para exemplo, os professores recorrem aos clássicos para aula de Literatura porque são ricos em materiais para esse tipo de tarefa. Mas, mais do que tudo, são obras que já passaram pelo teste do tempo e que por causa disso passam mais facilmente pelo teste do pai surtado. Porque tem esse fator a se considerar também: num momento em que pais surtam nas escolas por causa de livro com palavrão, ou dizem ser por causa de palavrão, mas sabemos que outra coisa, vocês acham mesmo que um livro de escola de bruxos seria bem recebido por todos os pais? No fim, a escolha por clássicos é segura, porque nenhum pai é doido de chegar na escola reclamando que o professor está mandando o filho ler Machado.

Então por favor, quando sentir que teve uma ideia brilhante e inovadora ao sugerir young adult no lugar de clássicos na escola, primeiro saiba que você não é a única pessoa que pensou nisso. E depois, que tem muita gente estudando e trabalhando para tentar formar mais leitores no país.

Mas é importante bater na tecla de novo e dizer que não há solução única e que assim como com higiene básica e noção de convivência em sociedade, não dá para os responsáveis pelas crianças terceirizarem todo o trabalho para a escola.

2 comentários em “Literatura na escola (ou: Harry Potter ao invés de Machado não é a solução.)”

  1. É por isso que este é o meu blogue favorito. Interessantes reflexões que me levaram a algumas rememorações da minha formação enquanto leitor e até o próprio questionamento da minha ação enquanto professor. Eu definitivamente me encantei com a leitura a partir de Harry Potter (tudo bem que foi motivado para ter papo com uma garota em específico), mas isso e nada é, sinceramente, a mesma coisa. O Brasil tem tanta literatura fabulosa, que vai desde o século XIX com o Machado que é um gênio inegável, para o século XX onde tanta coisa maravilhosa se desenvolveu, e mesmo chegando no século corrente, com muita coisa se desenvolvendo e que servem para demonstrar que leitura não é algo estática – essa, inclusive, é uma falha minha, e o segundo motivo deste ser meu blogue favorito é essa excelente curadoria de literatura contemporânea.

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