Ao responder uma pessoa sobre o que tornava uma história sobre um fazendeiro triste na Islândia seu livro favorito, a protagonista de Heart the Lover de Lily King fala: “Você sabe quando você consegue lembrar exatamente quando e onde você leu certos livros? Um romance genial, verdadeiramente genial, não apenas captura uma experiência ficcional em particular, ela altera e intensifica a forma como você sente sua própria vida enquanto você o lê. E ele o preserva, como uma capsula do tempo.” (tradução torta minha, o livro ainda não foi lançado no Brasil).
Esse comentário sobre grandes obras que nos tocam aparece já quase na porção final do livro, mas é curioso como de certa forma ali enquanto leitor você já consegue entender que esses encontros que mudam nossa percepção da vida não ocorrem apenas com livros: eles também acontecem com pessoas, não importando o tempo que elas passaram conosco. É um pouco como aquele diálogo final da Diane e do Bojack no telhado (I think there are people that help you become the person that you end up being, and you can be grateful for them even if they were never meant to be in your life forever.)
Mas me adianto. Heart the Lover é o romance mais recente de Lily King, contando a história de uma escritora dividida em três partes: na primeira temos a protagonista conhecendo na faculdade dois amigos que parecem ter tudo tão mais em ordem do que ela. Eles sabem o que querem no curso, têm planos realistas para o futuro e estão concentrados em colocá-los em prática. Se você chegou na faculdade meio deslumbrada e tão protegida que nem conseguia pensar em termos práticos o que gostaria para sua vida, e aí encontrou aquelas pessoas que circulavam por ali com uma desenvoltura de quem parecia que estava há bem mais tempo que você, era amigo dos professores de um modo que você nem imaginava possível, bem, você vai entender o deslumbre da protagonista quando ela encontra Sam e Yash (especialmente no momento em que ela vê Sam fazendo anotações em Latim e diz “Eu fiz todas as escolhas erradas“).
Os dois passam a chamá-la de Jordan, em uma referência à Jordan Baker de O Grande Gatsby. Tem algo nessa brincadeira com o nome que me incomodou profundamente – e acredito que seja um pouco de propósito por parte da autora. Há uma dinâmica ali em que fica claro que ela está sempre correndo atrás da validação dos dois, mais de Yash do que de Sam, com que começa eventualmente a namorar. É uma pausa que vale a pena observar porque nos mostra que nem tudo é simples e idílico e que sim, a gente faz muita besteira por causa de homem, incluindo aí abrir mão de uma identidade própria para agradar.
A questão é que a relação entre os três se complicará – até o leitor mais desatento perceberá desde o início que a história não é sobre Jordan e Sam, mas Jordan e Yash. Yash é para Jordan o equivalente do livro favorito que muda tudo. Mas é também aquela pessoa que por uma série de decisões ruins e timing ruim não é a que ficará com Jordan para sempre. É aí que chegamos na segunda parte de Heart the Lover.
O capítulo abre com os dois se reencontrando, Yash brincando com os filhos de Jordan. Logo descobrimos que há um intervalo de mais de 20 anos da última vez que os dois se encontraram, Jordan o tempo todo sem entender o que é que levou o amigo depois de tanto tempo a procurar. O que é mais interessante nessa parte é perceber como aquela relação de tanto tempo (e se pensarmos até no período em que eles estão separados, de tão curta duração) moldou de certa forma a adulta que a protagonista se tornaria. Yash aponta como algumas coisas na casa são parecidas com a casa do professor onde começou a amizade deles (aquilo de referência de conforto) ou mesmo, de modo bem óbvio, como o jogo de cartas lá dos tempos de faculdade foi ensinado para os filhos e virou uma brincadeira em família.
Nesse reencontro já está claro que (se tomarmos emprestado todo o imaginário da trilogia Before do Linklater) Jordan está naquele momento da vida em que ela já percebeu que encontros entre duas pessoas como o dela e Yash são raros. Ela não é infeliz com o marido Silas, isso é bastante óbvio, mas ela e Yash são o que teria acontecido se Celine e Jesse jamais tivessem se reencontrado na livraria em Paris dez anos depois do primeiro encontro. Do que estabelecemos que não existe um único amor da vida, é mais que a pessoa com quem passaremos o resto das nossas vidas além de ser “um dos livros favoritos”, é também o livro que caiu em nossas mãos no momento certo.
A terceira parte é a que talvez eu tenha gostado menos – narra eventos de uns poucos anos depois desse reencontro entre os dois. Eu achei que acaba dando uma derrapada porque King pesa a mão na fantasia feminina, quando estabelecer que a relação dos dois foi muito importante embora ele nunca tenha sido a pessoa com quem ela dividiria uma vida. Yash poderia ter se realizado e encontrado alguém assim como ela encontrou Silas, e isso não teria diminuído o efeito ou a importância dele. Mas mesmo assim, confesso, dei uma chorada básica porque afinal de contas eu sou uma manteiga derretida.
Tem também a tensão de se ela fará a grande revelação ou não, ou quando fará – e qual será a reação de Yash. É algo que atiça a curiosidade do leitor – mesmo na segunda parte a autora prende nossa atenção igualmente através da curiosidade. Queremos saber se ela contará, mas a segunda parte é também uma tentativa de entender o que aconteceu depois do dia em que eles deveriam supostamente se reencontrar.
E então tem o desfecho, que vai ali para a galeria dos meus favoritos desse ano. O detalhe de finalmente descobrirmos o nome real da protagonista através de uma fala de Silas, lembrando que ela pode ter carregado muitas coisas do período que passou com Yash, mas ela não é só isso. Ah, sim. O começo é ótimo também.

Enfim, um livro tocante e que eu tenho certeza de que lembrarei por um bom tempo. Eu espero que seja traduzido logo e eu sei que a capa gringa parece feia (quer dizer, É feia), mas ela tem uma razão de ser, então torço que mantenham por aqui. Em Português já estão disponíveis dois títulos dos sete dela, Escritores e Amores e uma coletânea de contos chamada Cinco Terças de Inverno.