Lançado lá fora agora em 2025 e ainda sem tradução no Brasil, The Compound é romance de estreia da escritora irlandesa Aisling Rawle e ganhou recentemente o prêmio do Goodreads de melhor Ficção Científica (já vou falar sobre isso). Também apareceu em um monte de lista de melhores livros de 2025, e confesso, sou fraca, acabei cedendo à curiosidade e resolvi ler agora no começo do mês.
A proposta é a seguinte: a narradora participa de um reality show num futuro incerto (mas aparentemente não muito distante) onde 10 homens e 10 mulheres competirão para ganhar produtos luxuosos, talvez patrocínio de marcas, itens para a casa onde estão vivendo. Uma das poucas regras, ou pelo menos a mais importante, é que pelo menos até a casa ficar com apenas cinco participantes, uma pessoa SEMPRE terá que dormir na mesma cama que alguém do outro gênero (sim, terrivelmente heterossexual, e uma personagem faz comentário sobre isso). Caso a pessoa passe a noite sozinha, ao amanhecer ela deverá deixar a casa e a competição.
Meu conhecimento de reality show é basicamente a primeira temporada de Casa dos Artistas e mais algumas de Big Brother, então tenham isso em mente sobre o que comentarei. Algo que chamou minha atenção na história é que descobri que meu jeito favorito de acompanhar reality show é lendo. Da mesma forma que um narrador de futebol no rádio deixa até o jogo mais sem graça muito mais empolgante, acompanhar os primeiros dias dos moradores da casa prende a atenção do leitor de um jeito que primeira semana de BBB nunca consegue prender.
E tem algo ali na dinâmica inicial que foi muito bem sacado pela autora, a começar as expectativas de gênero (as mulheres chegam antes para limpar a casa para quando os homens chegarem, por exemplo) ou ainda as tensões criadas pelo fato de os homens chegarem em número menor – obviamente eles têm mais poder de barganha, são eles que “escolhem” suas parceiras para dormir, elas precisam agradá-los e de forma alguma criar conflitos, porque nunca se sabe quando precisarão de um daqueles homens como parceiros.
E esse começo é forte, é bom, prende a atenção e você enxerga todo o potencial para a história. Mas aí… aí afrouxa, desanda e vira o famoso caso do hoje não hoje sim. O primeiro problema é que a autora nunca explora muito as personagens, elas são tipos. O incel fortão, o himbo, a guy’s girl, a guria de humanas, a loira gata mas percebida como burra, etc. E você segue a leitura com uma dose de confiança achando que vai virar, que as personagens surpreenderão em suas ações, mas hmmm, não, elas seguem exatamente como se espera, até o último minuto.
Mesmo as intrigas que poderiam ter sido criadas logo se dissolvem e os poucos problemas que surgem rapidamente são resolvidos para voltarmos ao umbiguismo da protagonista. Pode ser uma ~~crítica social foda~~, a ideia do mundo acabando do lado de fora e você preocupada se parece bonita para as pessoas, se vai ganhar itens luxosos, se as marcas vão querer te patrocinar, mas para o modo como chegamos ao desfecho eu sinto que não: é só um reality show em forma de livro mesmo. Se for sua praia, vai sem medo que tenho certeza que vai agradar – porque pelo menos o suspense de quem será o campeão e como será campeão a autora consegue manter bem até o fim.
Por outro lado eu fico pensando no potencial perdido, na recusa da autora em explorar o lado de fora. Sabemos que há uma guerra que afetou a vida de muita gente, que ter perdido algum membro da família para a guerra é absolutamente comum. Mas também sabemos que eles conseguem levar uma vida normal, porque temos uma personagem que é arquiteta, outra que é salva-vidas, uma que é maquiadora, etc. Então o mundo está indo para as cucuias, mas não tanto assim.
E é meio que a situação em que estamos, não é?
Nessas que eu ainda estou com a pulga atrás da orelha sobre essa categoria scifi (e ainda mais ser o melhor scifi segundo os leitores do Goodreads). Porque não tem nada de realmente especulativo ali, talvez apenas um reality show com produtores que não tem qualquer compasso moral, mas de novo, isso já não é algo normal? Eu não consegui dar aquele salto extra. Não sei se é nossa realidade que anda completamente torta, mas parece ter afetado até minha noção de distopia. E, como comentei no bluesky, isso que eu sou a pessoa que revira os olhos quando o Fabio surge como guardião da misteriosa escala scifi e diz que eu “não gosto de hard scifi“.
Enfim, não achei muito apropriada a categoria, achei menos apropriada ainda a vitória, mas vá lá, eu também não vou posar de guardiã do portão do scifi. O importante é saber que ao contrário de um Hunger Games em que a política e o cenário fora do reality tem um peso enorme, no caso de The Compound a história se restringe aos moradores da casa e de como eles reagem aos desafios apresentados diariamente.
Ruim o livro não é, acaba divertindo especialmente quando você se dá conta de que não irá muito além do reality, por mais que ele seja uma versão um tanto mais extrema de qualquer coisa que a gente possa assistir na TV atualmente. Voltando à comparação com o jogo de futebol no rádio, é como se você acompanhasse um 0x0 do seu time na voz do seu narrador preferido.
Pessoalmente, eu não curto reality shows de nenhum tipo.
Sempre acho uma agressão a forma como uma ou mais coisas acontecem e fico me perguntando porque as pessoas se sujeitam a tais palhaçadas e até a coisas que eu gostaria que fossem consideradas crime…
Por isso creio que vou passar longe desse livro rs
Quanto a ser scifi, pelo que voce descreveu, realmente não me parece, a não ser que haja tecnologias bem a frente do nosso tempo citadas, mas ai entraríamos na questão se pra ser considerada scifi e não fantasia futurista, deveriam haver explicações cientificas, ainda que apenas teóricas hoje, para as tecnologias mostradas.
Chegou a ler o que a própria autora fala a respeito? Como (e se) ela classifica sua obra?
As vezes ela quis apenas mostrar como reality shows são bizarros, distanciando do tempo atual apenas pra evitar acusações ou ataques dos produtores de reality atuais.
A analogia com futebol pelo radio achei curiosa principalmente porque nunca canso de criticar narradores de radio justamente por não refletir a realidade do que estão narrando e passar uma emoção desproporcional a magnitude dos lances 😀
Me incomoda bastante quando a forma que uma pessoa me conta me da uma ideia diferente da que teria assistindo a mesma cena, porque me sinto enganado, ja tive alguma discussões feias aqui em casa por conta disso rs
Não achei nenhuma fala da autora sobre o assunto, mas mesmo as editoras que vendem o livro no máximo o colocam na categoria “literary” (que é bem abrangente) e “thriller” (que acho mais adequada do que scifi). Eu estou achando que foi mancada do Goodreads mesmo, do tipo, viu a palavra distopia piscando e pensou “uia, é scifi!” (o engraçado é que mesmo as críticas que estão saindo do livro usam expressões como “quase distópico”, “semi distopia” e coisas do tipo).
Sobre os narradores de futebol, vou te dizer que não só adoro como ainda sou da teoria que o que faz dos narradores do brasil superiores aos dos outros países é justamente o fato de nossos narradores em sua maioria passarem primeiro pelo rádio antes de irem para a tv. lembro que ano passado viralizou entre os gringos um vídeo do jogo da nfl no brasil, todos encantados com a narração – não só pela fofura que é o brasileiro falando toutchidóóóum, mas tb pela empolgação.