Dois Lados do Amor (The Disappearance of Eleanor Rigby)

eleanor-rigby

Se tem algo que eu adoro em literatura é quando o autor se dá ao trabalho de explorar diferentes pontos de vista para a mesma situação. De como uma história pode ser outra completamente diferente dependendo de quem conta. E foi por ter a oportunidade de ver esse exercício repetido no cinema que fiquei tão empolgada quando fiquei sabendo sobre The Disappearance of Eleanor Rigby (que no Brasil passou no Festival do Rio com a horrenda tradução ‘Dois Lados do Amor‘).

É um projeto audacioso: um filme mostrando a visão do homem, outro mostrando a da mulher e finalmente um terceiro que mescle essas duas versões. Não sei bem por qual motivo, achei que seria uma história típica montada do começo do relacionamento até o fim, mas não é bem por aí: os filmes abordam o modo como Connor (James McAvoy) e Eleanor (Jessica Chastain) lidam com a perda do filho.

The-Disappearance-of-Eleanor-Rigby-Him-2014-Ned-Benson-poster-450Resolvi começar por The Disappearance of Eleanor Rigby: Him, sem uma razão específica (e, lembrando, sem saber sobre qual era a situação do casal). É estranho falar sobre o filme agora que já vi as outras versões (talvez isso faça parte do exercício de saber os diferentes pontos de vista de uma mesma história?), mas a sensação que tive sobre o Him é que ele se concentra muito mais em Connor lidando com a perda de Eleanor do que com a perda do filho. Tanto é que inicialmente eu nem fazia ideia de que essa era a situação dele. Parecia mais que uma insatisfação aleatória levou Eleanor a abandoná-lo.

E mesmo com a revelação da morte do filho, ainda assim, parece que é tudo muito mais sobre a tentativa de fazer Eleanor voltar do que lidar com o sentimento de perda. Talvez isso revele um pouco do modo de Connor lidar com o luto, inclusive uma das cenas mais fortes é justamente quando ao arrumar as coisas para sair do apartamento, Connor finalmente abre a porta do quarto onde estavam guardadas as coisas do bebê. Ele respira fundo, abre a porta e então pega bebê conforto, caixas fechadas de objetos que só seriam usados meses depois, etc.

A ausência de lembretes do filho, o fato de ninguém poder mencionar por perto parecem mostrar bem essa característica de Connor, o problema é que só funciona de fato quando você assiste The Disappearance of Eleanor Rigby: Her. Porque é aí que dá para entender que é só o jeito dele, e que inclusive foi o modo essa completa negação da existência do filho perdido que tanto dói em Eleanor e que fez com que ela resolvesse “desaparecer”.

Outro problema: se o ponto de vista é o dele, por que em determinados momentos a câmera mostra uma visão atrás de Connor? Vou usar como exemplo a cena final no parque para explicar: vemos a personagem andando no lugar onde ele tem uma boa lembrança de Eleanor (por acaso, a cena que abre o filme). Vemos que ele para e observa o local onde anos antes eles se beijaram tão apaixonadamente e então resolve seguir em frente. Só que aí a câmera mostra que ele está sendo seguido por Eleanor. Ué?

Volto para essa cena depois, mas fica essa dúvida: se é o ponto de vista dele, não seria melhor mostrar o que ele está vendo, e não o que está acontecendo atrás dele? O interessante é que eu não vi esse problema acontecer em The Disappearance of Eleanor Rigby: Her.

The-Disappearance-of-Eleanor-Rigby-Her-2014-Ned-Benson-poster-450-2Aliás, sobre o segundo filme, é engraçado que ao começar a assistir a visão dela, tinha medo de que ficaria entendiada revendo uma mesma história, mas não. The Disappearance of Eleanor Rigby: Her é completamente diferente – e nisso acho que o projeto de Ned Benson tenha sido tão bem sucedido. Comprova como basta mudar o observador e outros detalhes, outras conversas surgem. Ao ponto de você claramente poder dizer que um filme foi melhor do que outro (sim, Her é melhor do que Him e Them).

Ok, pode pesar o fato de que nesse eu já sabia desde o começo o que é que estava acontecendo com Eleanor, mas pareceu para mim que em Her a presença do bebê é constante, mesmo quando não mencionada – inclusive adoro como os diálogos com a professora (muito bem interpretada por Viola Davis) parecem sempre cutucar a ferida, porque a professora fala (sem saber da morte da criança) sobre a relação dela com o filho, uma relação que Eleanor sabe que jamais poderá experimentar.

Ainda nessa linha, a cena com os vaga-lumes, quando ela tenta libertá-los ao amanhecer, mas eles não se mexem e ela agita o pote dizendo “Wake up, wake up” – e pela expressão dela você sabe que foi exatamente o que ela fez com o bebê.

Pesa também o fato de que Eleanor parece cercada de personagens mais fortes. Embora eu goste da relação de Connor com o amigo e com o pai (adorei aquele “Todo dia eu faço uma coisa que me deixa feliz”), Eleanor tem, além da professora, as figuras da mãe e do pai, excelentes. O pai (William Hurt) tem inclusive dois momentos incríveis no filme: o primeiro, quando tenta se aproximar da filha para falar sobre o bebê (“Tragedy is a foreign country. We don’t know how to talk to the natives“) e depois quando conta uma história da infância de Eleanor, quando pensa que ela tinha se afogado no mar.

Algo que também só percebemos após assistir aos dois filmes é que em cenas e que as duas personagens se encontram os diálogos e expressões dos atores mudam um pouco. Cito como exemplo uma das melhores cenas (nos dois filmes), quando eles conversam sobre o que lembram do filho, Connor começa a descrevê-lo. Em Him, Connor diz que ele tinha o nariz, a boca, o queixo etc. de Eleanor, e então “Mas ele tinha meus olhos. E eu adorava isso” Em Her ele diz “Ele tinha seus olhos, seu nariz, seus lábios, El, ele era todo você”.

Parece marcar a diferença não só do que realmente foi dito, mas também do que eles realmente pensavam e/ou gostariam de dizer. Digo isso especialmente por causa da cena final (eu disse que voltaria para ela). Him, Connor caminha pelo parque, vemos que Eleanor o está seguindo, o filme acaba. Her, vemos Eleanor seguindo Connor, e quando ele para naquele local que traz as boas lembranças, Eleanor grita HEY, Connor a vê, sorri e o filme acaba.

The-Disappearance-of-Eleanor-Rigby-2014-Ned-Benson-poster-450-1Só que aí começa o Them. Seguindo a ideia do ponto de vista, podemos concluir que Them seria contado por um observador onipresente, que portanto sabe qual é a versão exata do que ocorreu. Nessa versão, o observador bateria o martelo sobre o que realmente foi dito e aconteceu nesses encontros das duas personagens. E nessa versão, Connor continua caminhando, sem que Eleanor o chame.

The Disappearance of Eleanor Rigby: Them se assistido sem Him e Her pode ser bastante problemático. Ele parece depender bastante do conhecimento prévio de quem vê sobre o que as personagens atravessaram naquele período de separação. Ele não é tão fluido quanto as duas versões anteriores, parece faltar detalhes que tão bem preencheram as histórias quando separadas. A pena é que, pelo que entendi, a distribuição do filme tem sido só do Them (foi o que passou no Festival do Rio), o que pode afetar o julgamento sobre a proposta de Benson.

Por isso acho que os três devem ser vistos. Acho que minhas impressões sobre Connor em Him seriam diferentes se eu seguisse a ordem Her-Him-Them, mas acredito que mesmo uma ordem Them-Her-Him/Them-Him-Her não alteram a experiência final (justamente essa mudança de opinião sobre um relato), que é o que conta. Portanto, o importante é assistir aos três, não importa a ordem.

Gostei mais do Her, por motivos já citados, mas confesso que o Him envelheceu bem na minha cabeça, apesar de alguns problemas que não dependem exatamente da questão do ponto de vista (como o caso da posição da câmera). De qualquer forma, ótima experiência. Mas insisto: se for ver, veja os três.

10 pensamentos em “Dois Lados do Amor (The Disappearance of Eleanor Rigby)”

    1. você conhece o popcorn time? Acabei de dar uma olhada e lá tem os três, com legenda em português. Se legenda em inglês não for problema, no netflix us também tem os três filmes =]

    1. Eu acho que o Them é a versão “o que realmente aconteceu”, então é meio que isso mesmo: ele continua andando e a Eleanor não o chama. Acho que o final do Her (com a Eleanor gritando “hey!”) mostra o que ela queria que tivesse acontecido, ou pelo menos o que ela tinha a intenção de fazer.

          1. achei muito obrigada.Acabou de passar no TC TOUCH the disappearance of eleanor rigby sendo THEM,mas já tinha assistido o mesmo ,como HER. Já tinha visto HIM,HER e só faltava THEM,mas ainda tenho duvida se tava assistindo de forma correta, não sei se no her eu tava vendo them,ou them eu tava vendo o her.

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