Cem absorventes

Sempre que vejo notícia sobre saúde feminina a primeira coisa que vem na minha cabeça é a voz daquela menina cantando “One hundred tampoooons! One hundred tampooooons!“. A música conta uma história da vez que a NASA mandou uma mulher para ficar seis dias no espaço e deram para ela 100 absorventes – e perguntaram se seria o suficiente.

Não sei se a história é real, mas eu entendo totalmente a alma ansiosa que resolveu mandar 100 – porque afinal, a vida do ansioso é imaginar sempre os piores cenários e pensar em soluções antecipadas porque vai que, né. Mas a música é engraçada porque ilustra algo que parece cada vez mais óbvio, o quanto o corpo da mulher e experiências comuns ainda são um mistério. E sabe, não é como se do nada há quinze anos mulheres tivessem começado a menstruar e ficarem grávidas e entrarem na menopausa, isso sempre aconteceu.

Mas aí você lê uma matéria como essa que saiu essa semana na CNN, comentando sobre como as pessoas ainda não sabem sobre a menopausa (e de que forma isso pode ser perigoso) e não dá para não ficar com uma pulga atrás da orelha sobre o que é que possa causar um atraso tão grande não só em estudos sobre saúde feminina, mas também divulgação. Tem coisa aí que já deveria ser conhecimento comum e a gente ainda é obrigada a tropeçar na informação no momento em que está acontecendo com a gente e olha, não é uma boa experiência.

A gravidez, por exemplo. Toma lá aquele monte de relato de mulher que não sabia que estava grávida e só descobriu quando já estava em trabalho de parto. É um dos meus piores pesadelos, mas eu não consigo deixar de acreditar que seja um combo gigante de negação com desinformação. A maioria fala que “não teve enjoo”, como se isso fosse sintoma garantido. E não é, passei a gravidez do Tui e do Guto bem sossegada, se fosse me fiar no enjoo para saber se estava grávida ou não, eu provavelmente teria aparecido num desses episódios de Eu não sabia que estava grávida.

E é TANTA coisa que acontece nos noves meses, e TANTA COISA BIZARRA que acontece, que tua ferramenta de busca explode com variações de “é normal….?” – e o pior é descobrir que muito do que acontece é normal, sim. E que outros tantos acontecimentos são sinal de que você tem que correr para o pronto socorro. E é dessa experiência maluca que eu virei uma defensora ferrenha do direito de escolha da mulher quando o assunto é maternidade. Não falo só de aborto, falo também de mulher que resolveu não ter filho. Deixa ela, você não tem que dar pitaco, não.

Vou listar umas coisas doidas só para você ter ideia de quanta informação ficamos sem saber quando mesmo no entretenimento reduzem sintomas de gravidez ao enjoo: seus mamilos podem ficar mais escuros, seus pés podem crescer, você pode sentir um gosto metálico na boca, suas gengivas podem ficar mais sensíveis e sangrar, sua vulva pode ficar azulada, você pode ficar com o nariz trancado como se estivesse com crise de rinite, pode ter coceira na pele, seu olfato pode ficar super apurado (esse é massa). Isso citando por alto, e note a frequência do “pode”.

E aí você sai dessa experiência, tem lá um descanso, mas então chega em uma que é compulsória, a menopausa. Minha mãe já passou por tudo isso e nem sabia que existia uma perimenopausa (e nem o corretor do chrome, que fique o registro) e eu estou chegando aí e agora antecipadamente (pois ansiosa) voltando a entupir meu google com “é normal….?” (o google não, porque se mudou uma coisa da minha gravidez para agora, é que o google não é mais uma fonte boa de pesquisa). E eu vejo essa matéria da CNN e percebo o padrão se repetindo. Coisa que nem deveria ser tabu, que a gente deveria conversar até por causa da qualidade de vida. Então não é SÓ uma academia machista que toma o corpo masculino como referência para tudo, nós que achamos que somos tão modernos ainda temos umas travas meio bestas para falar dos nossos corpos (em suas bizarrices, mas também nas coisas legais).

Eu sinto já uma mudança da minha geração para pessoas mais novas. Lembro de ter feito um curso há uns anos com uma menina uns 15 anos mais nova do que eu e fiquei surpresa quando ela perguntou em voz alta para a sala se alguém tinha um absorvente para emprestar. Na hora pensei em todos os esforços que eu e minhas amigas adolescentes fazíamos para esconder nosso absorvente quando íamos para o banheiro trocar. Isso é um avanço. Não ter vergonha de algo que ocorre com teu corpo todo mês durante boa parte da sua vida deveria ser normal desde sempre e não sei o que é que nos condicionava a fazer de conta que era algo que não existia. E olha que eu sempre fui fã do L7 (a Donita Sparks uma vez arremessou um absorvente usado na galera).

Donita <3

Por isso eu digo que percebo sim mudanças, e tento encarar tudo isso de forma positiva. Assim: foi só por volta de 2023 que passaram a testar realisticamente a absorção de produtos para menstruação, mas ei, pelo menos agora já devem estar testando, né? Passos de formiguinhas, mas quem sabe as meninas da idade do Tui e do Guto não precisarão entupir a ferramenta de busca com “é normal…?”. Mas enquanto isso: “One hundred tampooooooons! One hundred tampoooons!“.

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