Coisas Frágeis Vol.1 (Neil Gaiman)

Eu não sei exatamente qual era a intenção da Conrad ao partir Fragile Things de Neil Gaiman em dois. A impressão que fica após a leitura do primeiro volume é que a seleção dos contos e poemas presentes na coletânea do escritor inglês funcionariam muito melhor se viessem como no original.  Isso porque o primeiro volume ficou só com os contos (e uma novela), e alguns deles já apareceram em outras coletâneas de Gaiman, e também porque não respeita a ordem de apresentação da publicação original.

E Gaiman é cuidadoso, e a verdade é que há um ritmo que é criado a partir da ordem dos textos. Os temas também não se repetem, e assim a leitura fica menos cansativa. Resumindo: ainda acho que Coisas Frágeis deveria vir em um volume só, mas isso não significa que não seja bom. Alguns dos melhores trabalhos de Gaiman estão ali. Continue lendo “Coisas Frágeis Vol.1 (Neil Gaiman)”

A menina que não sabia ler (John Harding)

Há algum tempo aparecendo em listas de sugestões de leitura, estava bastante curiosa para conferir A menina que não sabia ler de John Harding. O problema é que sempre atrasava a leitura pensando que seria mais um drama como A menina que roubava livros (títulos similares, e convenhamos, não saber ler é triste). Então li uma resenha e fiquei sabendo que tratava-se de uma história de fantasmas. Na hora a curiosidade virou necessidade de ler e finalmente pude conferir o título.

Não me admira muito que resenhas, orelhas e tudo o mais que falem sobre o livro tragam à tona o nome do escritor Henry James. Apesar da tradução do título aqui no Brasil, o livro em muitos momentos é quase como se A volta do parafuso fosse recontado sob o ponto de vista das crianças, tamanha a semelhança com tema e estrutura. Continue lendo “A menina que não sabia ler (John Harding)”

A sombra da Guilhotina (Hilary Mantel)

Há poucos momentos na História que chegam a ser tão obviamente importantes para a sociedade moderna do que a Revolução Francesa, tanto que marca o início da Idade Comtemporânea na divisão de anos nos estudos históricos. Mas a importância vai além disso. Como lembra Robert Darnton em O beijo de Lamourette: Mídia, Cultura e Revolução, ideias como “liberdade, igualdade e fraternidade” sequer eram compreendidos por um povo que durante toda a vida só conhecia um sistema, no qual eram sempre “menores” em relação à nobreza.

E é pela importância desse momento histórico que não surpreende em nada o tamanho (784 páginas) de A Sombra da Guilhotina, de Hilary Mantel. No prefácio a autora chega inclusive a se desculpar por ter que deixar muita coisa de fora, o que mostra o quão complexo pode ser um romance sobre a revolução francesa. E de fato o é, mas Mantel consegue conduzir a história de modo interessante e mais ainda, cativante. Continue lendo “A sombra da Guilhotina (Hilary Mantel)”

O amante de Lady Chatterley (D. H. Lawrence)

A leitura mais aprofundada é terreno perigoso: se você se prende demais ao contexto social de uma obra, pode distorcer a dita intenção do autor. Mas se não voltar o olhar para o momento no qual a obra foi criada muito do valor do livro pode simplesmente se perder. É o caso de O amante de Lady Chatterley (de D.H. Lawrence), publicado com nova tradução aqui no Brasil no mês passado pela Companhia das Letras através do selo Penguin Companhia das Letras.

Prender-se apenas ao romance de Lady Chatterley com o guarda-caça Oliver Mellors, ou mesmo ao teor “pornográfico” do texto é quase um pecado. A obra de Lawrence vem forte como representante de uma nova Inglaterra que veio a surgir com o fim da Primeira Guerra Mundial. O declínio de um império, a adaptação da nobreza a uma nova realidade. Mesmo que predominantemente de forma sutil, tudo isso está lá, seja no apito da mina que avisa Lady Chatterley que é hora de voltar, seja no que a Guerra fez com os dois homens da vida da personagem. Continue lendo “O amante de Lady Chatterley (D. H. Lawrence)”

Top5 livros em 2010

E como eu adoro tradições, e mais ainda este clima de retrospectiva que impera no final do ano, vamos lá para o top5 de leituras de 2010. Fiz em 2007, 2008 e 2009, e no caso desta lista vale qualquer coisa lida durante o ano, não necessariamente livros que foram lançados agora. 2010 teve pouco daquelas paixões arrebatadoras, o que não significa que não tive meus bons momentos de leitura. Menos brasileiros este ano, o que me deixou com vontade de estipular como meta para 2011 ler mais do que é feito aqui. Vamos ver se eu cumpro isso, hehe.

O começo do ano foi bem devagar, até porque estava trabalhando. Agora com a licença maternidade meu ritmo de leitura subiu um monte, e a maioria dos livros do top5 são, talvez por coincidência, da segunda metade de 2010. Segue então meu top5, lembrando que os links nos títulos levam para os posts que publiquei sobre os livros.

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Ficção de Polpa Vol.1 (Vários)

Antes de tudo uma história para ilustrar. Há uns anos fui assistir uma adaptação de Sonhos de uma noite de verão da FAP, dita como releitura modernizada. Esperei bastante para contar essa última parte para meu marido porque sabia que ele não iria gostar muito disso, e resolvi que o melhor momento era já no meio do caminho para o teatro. A resposta dele foi um “Ah, não, vão colocar um Puck repentista na peça!”. Não, não colocaram. A peça foi excelente mas isso não vem ao caso. O que importa disso é um sintoma da criação artística no Brasil: esta necessidade de colocar as ditas “cores” nacionais em tudo que se faz, como se apenas isso validasse o que foi criado como algo “brasileiro”.

Ficção de Polpa da Não Editora chega justamente para desmentir essa ideia. Ao convidar vários escritores para formar a coletânea, a proposta segundo (Samir Machado de Machado na introdução) era esta: criar um conto de ficção científica, fantasia ou horror com completa liberdade temática. E os autores souberam aproveitar essa liberdade sem usar o conto como “meio” para apresentar brasilidades, eles fazem ficção brasileira, e de qualidade – sem a artificialidade de elementos inclusos única e exclusivamente para dizer que bem, é ficção feita no Brasil. Continue lendo “Ficção de Polpa Vol.1 (Vários)”

A elegância do ouriço (Muriel Barbery)

A elegância do ouriço de Muriel Barbery é daquele tipo de livro que chega como quem não quer nada e vai encantando aos poucos. Quando você está quase no fim, percebe que já está completamente apaixonado. Os desdobramentos de um enredo até bem simples acabam seduzindo o leitor, que vai devorando as páginas sem sequer sentir o tempo passar.

Inicialmente somos apresentados aos dois fios que conduzem a história: a narrativa da Sra. Michel, uma zeladora de um edifício luxuoso de Paris; e os escritos diários de Paloma, uma menina de doze anos que vive no mesmo prédio que a Sra. Michel e está decidida a fazer duas coisas no dia do aniversário, suicidar-se e atear fogo no apartamento. Continue lendo “A elegância do ouriço (Muriel Barbery)”

Morte na Mesopotâmia seguido de O caso dos dez negrinhos

Quando se fala em histórias policiais, Agatha Christie é sempre citada. Seus livros estão entre os mais traduzidos no mundo (naquela lista seleta que entra a Bíblia e Shakespeare), o que lhe rendeu o apelido de a Rainha do Crime. Para quem já a conhece as histórias, a boa notícia é que estão chegando no Brasil através da L&PM adaptações feitas para os quadrinhos, das quais pude conferir Morte na Mesopotâmia seguido de O caso dos dez negrinhos.

Tanto Morte na Mesopotâmia quanto O caso dos dez negrinhos foram roteirizados por François Rivière. É óbvio que muito se perde na adaptação, mas Rivière consegue fazer um trabalho razoável na transposição do texto para a linguagem dos quadrinhos. Talvez apenas Morte na Mesopotâmia tenha sofrido alguns cortes que atrapalharam um pouco o ritmo, mas O caso dos dez negrinhos segue eletrizante do começo ao fim – tal como na obra escrita por Agatha Christie. Continue lendo “Morte na Mesopotâmia seguido de O caso dos dez negrinhos”

Bonequinha de Luxo (Truman Capote)

Sei que devemos muito à Audrey Hepburn por imortalizar a imagem de Holly Golightly em frente à joalheria Tiffany’s no filme Bonequinha de Luxo (1961). Mas é só depois de terminar a novela escrita por Truman Capote que você se dá conta que a personagem era na realidade um presente para a atriz, porque ela já vem pronta: arrebatadora, cativante. Página após página o narrador, visivelmente apaixonado pela moça, a apresenta para o leitor de modo que é impossível terminar a história não amando Holly Golightly.

São pequenas manias (como coçar o nariz quando sua privacidade é invadida), o jeito tagarela, inocente e ao mesmo tempo esperto, sonhador e calculista. Não dá para explicar. É uma combinação de elementos que prendem ao leitor da novela porque ele quer mais Holly, saber mais dela. Dia desses ao falar de Amuleto (Roberto Bolaño) comentei sobre a dificuldade de um homem escrever uma personagem feminina e de como eram raros os que conseguiam fazer isso sem cair em clichês. Pois bem, coloquem Capote na lista. Holly é a personagem feminina mais encantadora da qual tenho lembrança. Continue lendo “Bonequinha de Luxo (Truman Capote)”

Os Gatos (T.S. Eliot)

Desde que fiquei sabendo que estava grávida comecei a fazer uma bibliotecazinha para o Arthur. Livros que quero que ao longo da infância ele tenha contato, seja porque foram especiais para mim quando era criança (como Flicts do Ziraldo), seja porque foram ótimas descobertas já na fase adulta. A nova aquisição (presente adiantado de Natal!) foi o livro Os Gatos, de T.S. Eliot, que chegou aqui no Brasil pela Companhia das Letrinhas em uma edição tão, mas tão caprichada que eu quase roubei do Arthur para colocar na minha biblioteca.

Já conhecia as poesias porque elas estão naquela edição de Obra Completa que saiu pela Arx, com tradução de Ivan Junqueira. Mas ontem enquanto arrumava os presentes de Natal, não resisti e lá fui eu reler as histórias dos bichanos como Mister Mistófelis, Rim Tim Tantã e Gogó. É tão divertido que nem dá para sentir o tempo passar, especialmente se você for um gateiro.

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