Meu ano de leitura e descaralhamento

Edmund Blair Leighton (1853 – 1922). Sweets to the Sweet.


Os artigos que falam sobre o sucesso da primeira temporada de Bridgerton sempre costumam contextualizar, fazendo uma relação com o a exaustão que sentíamos por causa da pandemia e a necessidade de um escapismo. O romance (e a safadeza) entre pessoas lindas, em cenários lindos usando roupas lindas era o que nossos cérebros cansados precisavam naquele momento. E eu até poderia ter visto tudo isso como uma novidade, não fosse 2018, o que costumo chamar de “Meu ano de leitura e descaralhamento”.

O que aconteceu em 2018? 2018 tivemos a eleição para presidente. No final de semana do segundo turno, descobri uma cura para minhas ansiedades: leitura de romances. Passei o dia todo lendo, fugi de transmissão de tv e fiquei triste quando o bairro comemorou enlouquecido a vitória de Bolsonaro. A partir daí, sempre que estava me sentindo mal sobre *aponta para tudo que está acontecendo agora* tudo isso aí, caçava uma comédia romântica ou um romance histórico e me distraía por algumas horas. É sim escapismo, porque o gênero te garante um desfecho positivo, mesmo que os protagonistas encontrem muitas dificuldades ao longo do caminho. Mas depois de quase dez anos nessa brincadeira, eu me dei conta que a parte das dificuldades a serem vencidas muitas vezes agradam justamente porque tem um pé na nossa realidade.

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A sombra da Guilhotina (Hilary Mantel)

Há poucos momentos na História que chegam a ser tão obviamente importantes para a sociedade moderna do que a Revolução Francesa, tanto que marca o início da Idade Comtemporânea na divisão de anos nos estudos históricos. Mas a importância vai além disso. Como lembra Robert Darnton em O beijo de Lamourette: Mídia, Cultura e Revolução, ideias como “liberdade, igualdade e fraternidade” sequer eram compreendidos por um povo que durante toda a vida só conhecia um sistema, no qual eram sempre “menores” em relação à nobreza.

E é pela importância desse momento histórico que não surpreende em nada o tamanho (784 páginas) de A Sombra da Guilhotina, de Hilary Mantel. No prefácio a autora chega inclusive a se desculpar por ter que deixar muita coisa de fora, o que mostra o quão complexo pode ser um romance sobre a revolução francesa. E de fato o é, mas Mantel consegue conduzir a história de modo interessante e mais ainda, cativante. Continue lendo “A sombra da Guilhotina (Hilary Mantel)”