As relações perigosas (Choderlos de Laclos)

relacoesperigosasQuando comecei a ler O espírito da prosa de Cristovão Tezza, já estava quase chegando ao final da “autobiografia literária” quando algo chama minha atenção: Tezza fala justamente do livro que eu leria a seguir. Tratava-se de As relações perigosas, romance epistolar escrito pelo francês Choderlos de Laclos no século XVIII. Sobre o livro, Tezza diz que é “a obra-prima que consolidou a cultura moderna da correspondência escrita como o espaço perfeito da expressão privada individual“. E não é exagero do brasileiro usar o termo “obra-prima” para falar do livro de Laclos, que até hoje é referência quando o assunto é romance que tem em sua base cartas. Mas, se é possível dizer isso, obviamente é porque Laclos explora ao máximo todas as possibilidades que este tipo de narrativa pode oferecer, aproveitando-se de certas características para criar não só personagens, mas também uma história inesquecível.

O que não deixa de ser extremamente admirável, já que o enredo de As relações perigosasé até bem simples. Através das correspondências trocadas entre diversas personagens, ficamos sabendo sobre os planos da Marquesa de Merteuil para se vingar de um ex-amante, usando para tal o Visconde de Valmont. Como é então que consegue ser tão interessante? Para começar, o que vejo como a principal qualidade da obra, é a sutileza de Laclos. Valmont e Merteuil são ricos, educados e inteligentes e isso fica evidente em suas cartas, algumas bastante sensuais mas de um jeito que o leitor mais desatento pode acabar deixando passar batido. Não espere nada como as cartas de James Joyce para Nora, por exemplo. A graça aqui é o quanto se pode dizer sem ser explícito ou ainda, o quanto se pode dizer sem nada dizer.

 Foi inclusive bastante interessante perceber, por causa das notas da editora inglesa Helen Constantine, a atração que Merteuil sente pela jovem Cécile Volanges, tal como aparece na carta 63. Aliás, acabei lembrando de uma cena bastante famosa do filme Segundas Intenções (1999), onde Kathryn Merteuil (interpretada por Sarah Michelle Gellar) ensina Cecile (Selma Blair) a beijar na boca. A cena tem inclusive elementos da carta 63, se for reparar bem, como Kathryn escovando os cabelos de Cecile (“fiz-lhe as vezes de camareira: ela não fizera sua toalete, e logo os cabelos soltos se espalharam em seus ombros“, na página 167). E este é só um aspecto entre outros tantos que mostram o valor das notas de Constantine para a leitura, já que elas são essenciais para compreender algumas provocações de Laclos sobre a sociedade da época.

Este é mais um ponto que faz de As relações perigosas um livro tão bom, a crítica ácida à nobreza. E a palavra de ordem novamente é sutileza, mas nesse caso mesclada a um fino senso de humor, evidenciadas pelas “notas do editor” e comentários do redator. A saber, a moldura que agrega todas as cartas é a de que elas foram entregues ao redator, que teve a autorização de publicá-las, deixando de lado as que considerasse inúteis. É óbvio, editor e redator são também personagens do romance, e Laclos empresta a voz deles para fazer suas provocações. Já na advertência do editor (que abre o livro) podemos sentir uma amostra do que será visto: “Com efeito, várias das personagens que ele representa exibem costumes tão perversos que é impossível supor que tenham vivido em nosso século; neste século de filosofia em que as Luzes, difundidas por toda parte, tornaram, como é sabido, todos os homens honrados e todas as mulheres discretas e recatadas“.

Porém, engana-se quem pensa que a obra serve como um registro de uma determinada época. Muito do que é criticado por Laclos permanece uma realidade ainda nos dias de hoje. De como, por exemplo, muitas vezes vemos nos relacionamentos um tipo de jogo a ser vencido, não importa a maneira. Ou ainda, das variadas máscaras que utilizamos para nos adequarmos ao que a sociedade espera de nós. Nesse sentido, a personagem mais emblemática é a Marquesa de Merteuil. Sim, ela é o diabo encarnado, sim, ela é perversa. Mas há algo ali que não se pode deixar escapar por conta de suas más ações: de como ela representa a luta da mulher para sobreviver em um mundo dominado por homens. A carta 81 é talvez uma das melhores justamente por revelar como a Marquesa se tornou o que era. “Tendo ingressado na sociedade em uma época em que, moça ainda, estava fadada por meu estado ao silêncio e à inação, disso soube aproveitar-me para observar e refletir“, conta. E ainda responde à preocupação de Valmont sobre um homem que espalhava na sociedade que se aproveitaria dela da seguinte maneira: “Quanto a Prévan, quero tê-lo, e terei; ele quer contar, e não contará: aí tem, em duas palavras, o nosso romance“. E são momentos assim que  fazem com que seja impossível não admirar a Marquesa. Reconhecer suas falhas? Decididamente. Mas que mulher! Sabe o que deseja e usa a inteligência para conseguir.

Valmont também é uma grande personagem, mas de outra maneira. Ele é extremamente sedutor, e é ele que domina melhor o discurso em suas cartas. Tanto que ele é o autor da minha favorita, a carta 153, na qual cobra da Marquesa que cumpra sua parte do acordo e volte a ser sua amante. Esta carta é a explosão da tensão entre as duas personagens, que no final das contas se amam à sua maneira torta, mas tão acostumados às máscaras estão que não se entregam um ao outro por medo de serem enganados. Valmont conclui a missiva da seguinte maneira: “Acrescento, portanto, que o menor obstáculo da sua parte será encarado por mim como uma autêntica declaração de guerra: percebe que a resposta que lhe peço não exige nem longas nem belas frases. Duas palavras serão suficientes“.  E então a Marquesa responde embaixo da mesma carta “Pois que seja! Guerra!“.

É sim um livro de Valmont e Merteuil, e no final das contas as cartas das demais personagens servem apenas para o leitor acompanhar o andamento do plano das personagens, seja o de Valmont de conquistar a Presidenta de Tourvel ou o de Merteuil de se vingar de Gercourt. Mas algumas são interessantes de maneira diferente, como por exemplo, a nítida mudança que Cécile passa durante a história (e não só sobre sua iniciação sexual). É assim que Laclos alinhava a história, mostrando pontos de vistas diferentes para uma situação só. Na minha opinião a única falha de Laclos é o tom meio moralizante da conclusão, entrando em um esquema de “vamos punir os malvados”, no final das contas.

De qualquer modo, confesso que mesmo eu não sendo muito fã de releituras, foi um enorme prazer reencontrar Valmont e Merteuil depois de dez anos da primeira vez que liAs relações perigosas. Muita coisa que eu não tinha percebido anteriormente agora ficou mais claro, outras passagens que eu lembrava de cor foram revisitadas com um sorriso no rosto. É realmente uma obra única, até por conseguir encantar tanto sem que para isso tenha que apresentar personagens perfeitas. Talvez seja pela humanidade dos sentimentos presentes nas cartas que As relações perigosas seja tão apaixonante.

Em tempo: falei sobre Segundas Intenções e seria um pecado não comentar sobre a belíssima adaptação dirigida por Stephen Frears, com Glenn Close como Merteuil e John Malkovitch como Valmont, que chegou no Brasil como Ligações Perigosas. Mal tinha chegado na metade do livro e bateu uma vontade irresistível de rever, e quase 25 anos esse filme continua fantástico. Chamo especial atenção para a cena da abertura e a do desfecho: primeiro com a Marquesa e o Visconde “se maquiando” com dezenas de empregados ao redor, depois com a Marquesa chorando e tirando a maquiagem sozinha. Genial.

(Este post foi originalmente publicado no Meia Palavra em 27/09/2012)

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