
Lovers at the Palace Theater, 1955
Lá em 2004 por causa de um tópico no subfórum Cinema da Valinor eu comecei a publicar anualmente uma lista com os dez melhores filmes que assisti naquele ano. A regra principal era de que só entrava na lista filmes lançados no Brasil, e naquela época isso até fazia algum sentido. Com o passar dos anos, cada vez que deixava um filme de fora (porque não tinha sido lançado no Brasil ainda, ou porque era mais antigo) eu comecei a pensar que talvez fosse uma boa fazer com os filmes o que eu já faço com os livros – não importa a data de lançamento, se foi um dos dez favoritos do ano, entra para a lista.
Só que aí no pós-pandemia bateu um desânimo geral com o blog e em 2022, 18 anos depois de ter começado a publicar as listas, eu parei. Saltamos aí mais uns anos e aqui estou eu, aos poucos me animando novamente a escrever (até como um ato de resistência, sabe? Vou criar conteúdo de graça para fdp tech bro milionário por quê?) e resolvi voltar com as listas. Assisti quase nada esse ano, mas acho que saiu uma seleção ok – e então a partir de agora, não importa mais o ano de lançamento. A lista completa dos filmes que assisti em 2025 está aqui. E os dez favoritos são:
10. A Vida de Chuck (The Life of Chuck, 2024): Já elogiei os trabalhos do Flanagan aqui mais de uma vez – dos mais recentes eu acho que o único que não gostei muito foi a minissérie A Queda da Casa de Usher, mas ainda assim acho que teve seus bons momentos. Sobre A Vida de Chuck, dá para dizer que são quase três histórias em uma, porque o tom de cada parte muda muito, apesar de a personagem Chuck que dá nome ao filme alinhavar toda a narrativa. É tocante (aka: chorei um monte) e vale cada segundo.
9. Apostando no Amor (Dogfight, 1991): Eu não lembro como cheguei ao título, mas decidi conferir depois de ler o comentário da Cláudia lá no Letterboxd. É um filme da década de 90 que passou completamente batido para mim, o que é uma pena, teria sido um alento lá na adolescência – a premissa é simples, mas quando você percebe já se apegou às personagens, quer saber como é que vai acabar aquela noite, como a Rose reagirá ao ficar sabendo sobre a brincadeira cruel dos garotos que estão indo para a guerra. River Phoenix está ótimo, mas quem rouba o show é a Lili Taylor.
8. Nosferatu (idem, 2024): A direção de arte desse filme é um negócio espetacular e eu fico feliz demais de ter ido ao cinema para assistir. A ambientação é feita de um jeito que vira a peça mais importante para a construção da tensão (que é constante), é quase como quando você está em um sonho que tudo parece normal, mas tem algo que você sabe que não está certo (é um efeito que o Eggers também conseguiu em The Witch, embora de um jeito diferente, no caso de The Witch eu acho que o que mais assombra são os silêncios). Eu achava que seria meu filme de terror favorito desse ano, mas lá em janeiro eu mal sabia que ainda teria muito filme de terror bom para sair (já falo deles).
7. Flow (idem, 2024): Que animação linda, que história maravilhosa. Daquelas idas ao cinema no estilo “ok, vamos levar os guris para ver um filme” e você sai da sala de cinema até meio atordoado e de alma lavada. Os guris também gostaram, mas acho que eu sou muito mais emocionada do que eles (lembrando aqui do olhar horrorizado do Arthur para mim depois que acabou Elemental “Mãe?! Você tá chorando por causa desse filme ruim??!!“). Ah, e esse ano teve o sabor extra de ser um estúdio independente ganhando o Oscar de melhor animação (eu tenho comemorado cada vitória de qualquer coisa fora dos grandes conglomerados como se fosse pessoal).
6. Nosso Amor de Ontem (The Way We Were, 1973): Eu já tinha esse filme na lista dos que queria ver há anos (porque era citado em uma comédia romântica que li e gostei bastante), mas é a história de sempre, aquela enrolação e a tendência besta de querer ver aquele-filme-do-qual-todos-estão-falando. Aí no dia da morte do Robert Redford resolvi assistir como homenagem. Eu já conhecia o trabalho do Redford, então não deveria ser surpresa que ele pega uma personagem que no fim das contas é um conservador safado e mesmo assim o torna apaixonante (ao ponto de você entender a ligação humilhante da personagem da Barbra Streisand em determinado momento, meudeus, morri de vergonha alheia ali e fiquei torcendo que ela estivesse só fingindo estar falando ao telefone, mas não, ela estava falando mesmo, mas ao mesmo tempo, sim, entendo).
5. Hedda (idem, 2025): Esse foi lançado direto no Prime e eu fui correndo conferir primeiro porque sou fã demais da Tessa Thompson, segundo porque é baseado em uma peça do Ibsen e eu tenho um fraco por filmes baseados em peças de teatro. Estava falando disso com a Sol, o roteiro tem um ritmo diferente – no caso de Hedda ritmo é uma palavra importante, porque ele vai acelerando aos poucos, conforme a noite de festa na casa de Hedda vai ficando cada vez mais caótica. Excelente trabalho com a trilha, aliás, algumas cenas pareciam quase que uma coreografia – não que ator também não tenha movimento e lugar marcado, mas pense em coreografia no sentido de execução de uma dança mesmo.
4. Sorry, Baby (idem, 2025): Eu nunca tinha ouvido falar da Eva Victor até assistir Sorry, Baby, mas agora ela está na minha lista de “se ela estiver envolvida, eu vou assistir”. É uma história bem introspectiva, e eu tenho certeza que mesmo apesar do tema principal, ainda assim terá perdido dizendo “nada acontece”, porque é isso, né, cada vez mais as pessoas precisam de falas e imagens mostrando absolutamente tudo para elas (mas isso é conversa para outra hora). A cena da casa do professor é maravilhosa justamente porque se recusa a entregar tudo fácil, e talvez até por isso seja tão mais forte. Tem várias interações da Agnes com outras personagens que se destacam (não só para entendermos o efeito daquele dia na vida da protagonista, mas entendê-la e enxergá-la para além do evento), mas aquela fala no final para o bebê, aquela ali acerta em cheio e é maravilhosa, vai ficar comigo por um bom tempo.
3. A meia-irmã feia (The Ugly Stepsister, 2025): Como disse antes, foi o ano do terror, né. Sobre o filme eu já tinha comentado aqui no bró, então nenhuma surpresa que estaria entre meus favoritos. É um body horror vestido de conto de fada por sua vez vestido de produção da década de 70, o que entrega um efeito visual muito legal. E aí ficamos no horror de perceber que apesar da ficção, apesar do tom de faz-de-conta, sabemos que as mulheres diariamente se submetem à toda sorte de tortura física para no fim das contas agradar o olhar masculino. Tem qualquer coisa no tema que casa bem com A Substância, eu passaria os dois juntos numa double feature.
2. Frankenstein (idem, 2025): Eu seiiiii que alguns fãs do livro odiaram, mas eu vejo o filme como uma leitura de Frankenstein, mais do que adaptação. Isso parece não fazer diferença, mas perceba: o leitor tem uma visão própria da obra, que escapa a intenção do autor. Dá para dizer que é fanfic? Digo de forma elogiosa – o Del Toro foi lá, colheu os elementos da história da Shelley e na dele fala essencialmente da relação de pai e filho, mas explora também a ideia de como continuar num mundo tão horrível. E aí tem o extra de ser o Del Toro, que aparentemente tem na cabeça absolutamente tudo o que eu acho que fica lindo visualmente (somos almas gêmeas góticas, inclusive abri o ano assistindo outro filme dele, que é meu filme conforto justamente por causa do visual: A Colina Escarlate). PS. Dando aí o crédito onde cabe, parte principal do que me encanta nos dois filmes do Del Toro é o figurino, assinado pela mesma pessoa: Kate Hawley.
1. Pecadores (Sinners, 2025): Esse aqui doeu não ter visto no cinema, porque se na TV já foi aquele desbunde, fico imaginando nas condições ideais. Vampiros como apropriadores de cultura pode ser meio óbvio demais, mas como funcionou bem nesse filme. Ele é redondinho, flui sem quebra no ritmo e é impressionante como com tanto personagem ainda assim dá conta de apresentar cada um ao ponto de as perdas serem relevantes, tanto quanto os irmãos Smoke e Stack. E ainda rendeu um dos melhores comentários lá no Letterboxd:
E é isso. Volto para a lista de melhores leituras ainda em janeiro.
