Deep Cuts (Holly Brickley)

Lançado no ano passado lá fora, Deep Cuts de Holly Brickley é um livro para entrar no grupo do “obras para apaixonados por música” ao lado de Alta Fidelidade do Nick Hornby e Love is a Mixtape de Rob Sheffield. Talvez de um jeito um pouco Frankenstein, colhendo detalhes da vida pessoal como o Sheffield e criando ficção como o Hornby, tudo temperado com muitos comentários sobre músicas, bandas e discos – no caso de Brickley, principalmente da primeira década dos anos 2000.

A história é simples: Percy e Joe se conhecem quando ainda estão na universidade. Percebem que entre os dois há uma conexão que resulta naquele tipo de amizade em que você jura que a outra pessoa é sua alma gêmea, tamanha a facilidade de comunicação. Mais do que isso, o músico Joe percebe que tem em Percy uma mistura de musa e colaboradora, papel que a garota abraça sem grandes questionamentos porque (aqui sem surpresa para o leitor) está apaixonada por Joe.

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Meu ano de leitura e descaralhamento

Edmund Blair Leighton (1853 – 1922). Sweets to the Sweet.


Os artigos que falam sobre o sucesso da primeira temporada de Bridgerton sempre costumam contextualizar, fazendo uma relação com o a exaustão que sentíamos por causa da pandemia e a necessidade de um escapismo. O romance (e a safadeza) entre pessoas lindas, em cenários lindos usando roupas lindas era o que nossos cérebros cansados precisavam naquele momento. E eu até poderia ter visto tudo isso como uma novidade, não fosse 2018, o que costumo chamar de “Meu ano de leitura e descaralhamento”.

O que aconteceu em 2018? 2018 tivemos a eleição para presidente. No final de semana do segundo turno, descobri uma cura para minhas ansiedades: leitura de romances. Passei o dia todo lendo, fugi de transmissão de tv e fiquei triste quando o bairro comemorou enlouquecido a vitória de Bolsonaro. A partir daí, sempre que estava me sentindo mal sobre *aponta para tudo que está acontecendo agora* tudo isso aí, caçava uma comédia romântica ou um romance histórico e me distraía por algumas horas. É sim escapismo, porque o gênero te garante um desfecho positivo, mesmo que os protagonistas encontrem muitas dificuldades ao longo do caminho. Mas depois de quase dez anos nessa brincadeira, eu me dei conta que a parte das dificuldades a serem vencidas muitas vezes agradam justamente porque tem um pé na nossa realidade.

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Melhores Leituras de 2025

Cena da série Station Eleven (HBO) que se você ainda não assistiu, deveria assistir.

Acho que nessa altura já estão saindo as listas de livros para ler em 2026 e eu ainda não fiz a minha lista de melhores leituras do ano passado. A real é que tenho um post it com os dez favoritos grudado no computador desde dezembro do ano passado, mas tenho também uma alma procrastinadora, dizer o que.

Enfim, 2025 foi um ano de boas leituras, mas ao mesmo tempo que anima encontrar ótimos livros (e conhecer novos autores), entrei 2026 um tanto desanimada com o cenário atual. Não por causa *aponta para tudo que está acontecendo agora* de tudo isso aí, mas mais porque parece cada vez mais claro que perdemos a luta contra a IA.

Um exemplo é o que é comentado nesse vídeo aqui, sobre a HarperCollins gringa começando a usar IA para tradução. Se um casa editorial grande como a Harper está apostando, tenha certeza que ela não será a única. E se você, pequeno gafanhoto amante de IA acha que “tanto faz, e olha que legal, se não tiver que pagar tradutor talvez o livro fique mais barato” (spoiler: não ficará, digo isso como alguém que achava que ebooks teriam preços mais baixos e não foi o que aconteceu) ou que “IA é inevitável, tem que se acostumar e aprender a usar” (não é) saiba que é uma perda gigante para o leitor a exclusão de um tradutor humano na processo de publicação de um livro.

Eu vou citar como exemplo um caso que vivo trazendo porque para mim foi o que mais deixou evidente a diferença que faz um bom tradutor (humano) tomando decisões (humanas) ao traduzir: a tradução de Grande Sertão: Veredas da Alison Entrekin. Tem quase dez anos do dia que cliquei no link do Word Without Borders com um trecho da tradução. “Nonought. Shots you heard weren’t a shootout, God be. I was training sights on trees in the backyard, at the bottom of the creek. Keeps my aim good.

Sem brincadeira, meu coração disparou enquanto eu lia. Acho que foi a primeira vez que li algo no caminho inverso do que sempre faço, e foi um daqueles momentos lindos em que você percebe a importância de um trabalho bem feito. Eu li aquele trechinho pequeno com a certeza de que agora sim, os gringos morreriam de inveja da gente porque conheceriam o Rosa.

Não que ele já não tivesse tradução. Uma das traduções em inglês para Grande Serão: Veredas que rolavam por aí é a de 1963, feita por Harriet de Onís e James Taylor, e embora tenha um título massa (The Devil to Pay in the Backlands), dá para sentir que era uma opção de manter mais sentido do que forma, porque aquele começo que citei ficou assim para eles: “It’s nothing. Those shots you heard were not men fighting, God be praised. It was just me there in the back yard, target-shooting down by the creek, to keep in practice. ” Se você não sabe inglês eu sei que você leu as duas versões com voz de adulto do Snoopy, mas confia em mim: as duas dizem exatamente a mesma coisa, mas na primeira a Entrekin faz uma mágica e consegue fazer um sertanejo do Rosa falando em inglês. Na segunda, é apenas uma pessoa falando em inglês.

O sentido se conserva, mas onde o Rosa brilha de verdade, no uso das palavras, fica perdido na tradução da segunda citação. E se eu falo isso é para te mostrar que se tivermos uma IA traduzindo livros, ela não fará um trabalho como o da Entrekin, porque ela não tem capacidade para isso. E isso quer dizer que você estará lendo versões pálidas de obras e nem vai pagar mais barato por isso.

A verdade é que eu queria chegar em 2026 falando coisas como “Nossa, que bonito a Charco Press que coloca os nomes dos tradutores na capa, em lugar de destaque”, mas cá estou eu precisando dizer que pode até ter um monte de função que você pode encontrar para inteligência artificial, mas nunca conte com essa tecnologia para a área criativa. E acho que é isso, fim do devaneio, vamos para os dez favoritos (lista elaborada por mim, e não por uma inteligência artificial que alucina enredo ou títulos).

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Os melhores filmes que assisti em 2025

Weegee
Lovers at the Palace Theater, 1955

Lá em 2004 por causa de um tópico no subfórum Cinema da Valinor eu comecei a publicar anualmente uma lista com os dez melhores filmes que assisti naquele ano. A regra principal era de que só entrava na lista filmes lançados no Brasil, e naquela época isso até fazia algum sentido. Com o passar dos anos, cada vez que deixava um filme de fora (porque não tinha sido lançado no Brasil ainda, ou porque era mais antigo) eu comecei a pensar que talvez fosse uma boa fazer com os filmes o que eu já faço com os livros – não importa a data de lançamento, se foi um dos dez favoritos do ano, entra para a lista.

Só que aí no pós-pandemia bateu um desânimo geral com o blog e em 2022, 18 anos depois de ter começado a publicar as listas, eu parei. Saltamos aí mais uns anos e aqui estou eu, aos poucos me animando novamente a escrever (até como um ato de resistência, sabe? Vou criar conteúdo de graça para fdp tech bro milionário por quê?) e resolvi voltar com as listas. Assisti quase nada esse ano, mas acho que saiu uma seleção ok – e então a partir de agora, não importa mais o ano de lançamento. A lista completa dos filmes que assisti em 2025 está aqui. E os dez favoritos são:

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