Lançado no ano passado lá fora, Deep Cuts de Holly Brickley é um livro para entrar no grupo do “obras para apaixonados por música” ao lado de Alta Fidelidade do Nick Hornby e Love is a Mixtape de Rob Sheffield. Talvez de um jeito um pouco Frankenstein, colhendo detalhes da vida pessoal como o Sheffield e criando ficção como o Hornby, tudo temperado com muitos comentários sobre músicas, bandas e discos – no caso de Brickley, principalmente da primeira década dos anos 2000.
A história é simples: Percy e Joe se conhecem quando ainda estão na universidade. Percebem que entre os dois há uma conexão que resulta naquele tipo de amizade em que você jura que a outra pessoa é sua alma gêmea, tamanha a facilidade de comunicação. Mais do que isso, o músico Joe percebe que tem em Percy uma mistura de musa e colaboradora, papel que a garota abraça sem grandes questionamentos porque (aqui sem surpresa para o leitor) está apaixonada por Joe.
A questão é que aos poucos o papel de musa/colaboradora começa a trazer insatisfação para Percy. Não só porque ela e Joe em determinada noite fazem uma promessa doida – e clássica – de não tentarem nada além da amizade para não estragá-la (e também o que estão conseguindo compor juntos), mas porque ser a pessoa que está nas beiradas, nunca ganhando créditos pelo que ajudou a fazer enquanto Joe aos poucos é reconhecido, obviamente gera uma infinidade de sentimentos conflitantes com a tal da amizade que eles tanto queriam manter.
O principal do enredo se concentrará nisso, esse cabo de guerra entre os dois. É até engraçado que um nunca nega ao outro a importância da relação, mas se formos considerar o período que o romance cobre (se eu não me engano, dez anos), eles passam mais tempos separados, brigados e remoendo ciúmes do que juntos. E se fosse só uma obra do tipo “guria conhece o cara e eles se apaixonam” eu tenho certeza que seria extremamente chata, até porque os dois são muito imaturos e em algumas brigas entre os dois (e Zoe, a melhor amiga de Percy e ex de Joe) eu fiquei meio “vão ficar meses sem se falar por causa disso mesmo?” no melhor estilo gif do John Travolta confuso.
Mas lembre do que falei no começo: “tudo temperado com muitos comentários sobre músicas, bandas e discos“. Ao longo do livro lemos artigos, posts de blog, ensaios para MFA e toda sorte de texto (e diálogo) sobre música. E Brickley é obviamente uma pessoa apaixonada pelo assunto, e que viveu todo o cenário musical daquele começo de século, acompanhou bandas no início de carreira, o surgimento dos blogs especializados, o início da cultura dos influencers. É uma verdadeira viagem no tempo, com uma trilha sonora que passa por Interpol, Yo La Tengo e The Shins. Mas ela fala de canções de outras décadas também e o capítulo que cita Pulp é maravilhoso, assim como o artigo que ela escreve sobre Janis Joplin e o Leonard Cohen.
Uma coisa que reparei logo no começo do livro é que embora parte da minha bagagem musical cruze com a da autora (nas bandas já citadas aqui, mas também Fiona Apple, Nina Simone, PJ Harvey, Radiohead, No Doubt, etc) até pelo fato de que temos idade aproximada (assim como eu, ela também cai naquele limbo entre a Geração X e os Millenials), ainda assim tem muita coisa que ela cita que eu não conhecia. Inicialmente meu movimento era interromper a leitura, pegar o celular e buscar a canção citada (todos os títulos são músicas, mas algumas são fictícias), depois vi que uma criatura iluminada listou todas as canções reais que aparecem no livro e colocou no Spotify.
Nos vários tipos de texto que estão presentes em Deep Cuts, eu gosto bastante de como ela mostra que o blog no formato de antigamente era uma evolução natural do fanzine. Percy começa escrevendo para um fanzine na universidade, e durante um tempo escreve sobre música em um blog, que depois transformará em um site quando passar a se reconhecer como produtora e compositora. É um daqueles momentos mágicos que a literatura permite, de te fazer viajar no tempo, relembrar com o relato do outro algo que você também viveu (digo isso para fincar o pé e contradizer o que uma das personagens diz, que isso é algo possível só através da música. O próprio livro prova que a literatura também).
O período em que Percy está em Nova York me fez pensar demais no Meet Me in the Bathroom da Lizzy Goodman. É claramente um olhar de quem estava lá, passando por tudo aquilo – nesses momentos eu fico pensando que Deep Cuts quase vira um roman à clef. Pelo menos quando joga aleatoriamente para o leitor que esteve no show de uma banda de hip-hop que depois contrataria uma mulher e chegaria no topo das paradas (ela não cita o nome, o que me faz pensar na escolha, já que ela fala abertamente de outras bandas, mas aqui pela referência fica meio óbvio que é o Black Eyed Peas). Naquele trecho a sensação que o leitor tem é quase o de Brickley ter te puxado para dentro dos bares, pelas ruas e pessoas como aquela amiga extrovertida que adota o amigo tímido.
O maior problema do livro na minha opinião é que fora quando ela mergulha no que ama e entende (a música) a história se arrasta. Como disse, o enredo é simples e as personagens são imaturas, alguns momentos ali fica um tanto difícil não revirar os olhos, mesmo que você também tenha sido um jovem idiota que toma decisões idiotas. Os dez anos da história de Percy e Joe cobrem a ascensão e queda de várias bandas, mas parece que os dois nunca deixam de ser os jovens universitários inseguros de vinte e poucos anos. No fim acabei considerando a história dos dois mais como uma moldura para todos os textos sobre música, esses sim, maravilhosos. Se for consideração a conclusão, acho que é meio que isso mesmo.
Eu sei que do jeito que falei fica parecendo que é uma obra que no fim das contas não é daquelas imperdíveis que tão logo você termina, sai sugerindo para todo mundo ler também. Mas tem algo na paixão e conhecimento da Brickley sobre música e pelo modo que ela fala disso que me deixou feliz por esse livro ter aparecido no meu radar. Se música do começo do século (hahaha) também é sua praia, eu acho que vale conferir.
Aqui no Brasil o Deep Cuts saiu também no ano passado pela editora Rocco com o título de Lado B e tradução de Marcela Isensee (por alguma razão obscura ele não aparece no Goodreads como uma das várias edições do Deep Cuts, mas como um livro separado). E já aviso que depois além desse post, é provável que você acabe ouvindo falar de Deep Cuts em algum momento num futuro próximo porque uma adaptação do livro já está em pré-produção (com Cailee Spaeny e Drew Starkey como Percy e Joe e direção de Sean Durkin) pela A24.
PS: Esqueci de dizer. “deep cuts” em inglês é o termo para falar das músicas menos conhecidas de um artista ou banda. Algo que só os fãs mais devotos acabariam citando e que não costuma aparecer em coletâneas ou tocar nas rádios. Nesse sentido a escolha do título em português aqui no Brasil foi bem boa.