Meu ano de leitura e descaralhamento

Edmund Blair Leighton (1853 – 1922). Sweets to the Sweet.


Os artigos que falam sobre o sucesso da primeira temporada de Bridgerton sempre costumam contextualizar, fazendo uma relação com o a exaustão que sentíamos por causa da pandemia e a necessidade de um escapismo. O romance (e a safadeza) entre pessoas lindas, em cenários lindos usando roupas lindas era o que nossos cérebros cansados precisavam naquele momento. E eu até poderia ter visto tudo isso como uma novidade, não fosse 2018, o que costumo chamar de “Meu ano de leitura e descaralhamento”.

O que aconteceu em 2018? 2018 tivemos a eleição para presidente. No final de semana do segundo turno, descobri uma cura para minhas ansiedades: leitura de romances. Passei o dia todo lendo, fugi de transmissão de tv e fiquei triste quando o bairro comemorou enlouquecido a vitória de Bolsonaro. A partir daí, sempre que estava me sentindo mal sobre *aponta para tudo que está acontecendo agora* tudo isso aí, caçava uma comédia romântica ou um romance histórico e me distraía por algumas horas. É sim escapismo, porque o gênero te garante um desfecho positivo, mesmo que os protagonistas encontrem muitas dificuldades ao longo do caminho. Mas depois de quase dez anos nessa brincadeira, eu me dei conta que a parte das dificuldades a serem vencidas muitas vezes agradam justamente porque tem um pé na nossa realidade.

Eu quero começar dizendo que não estou escrevendo para justificar meus gostos ou o tempo que gasto com minhas leituras. É mais para chamar sua atenção para algo que você pode estar perdendo por preconceito (preconceito que eu reconheço que já tive). Chega uma idade que expressões como “guilty pleasure” perdem totalmente o sentido – a vida é curta, o mundo está indo para a casa do caralho e se você não está prejudicando alguém, que mal tem a satisfação mesmo que momentânea de fazer algo que você gosta, não é mesmo?

E há um preconceito contra o gênero sim, e tendo a acreditar que tenha um pouco (talvez tudo) a ver com misoginia, já que automaticamente relacionamos romance ao público feminino. Sempre cito o Alta Fidelidade do Hornby como exemplo: se fosse escrito por uma mulher e tivesse uma protagonista mulher, o livro dificilmente seria lido e adorado por homens como é até nos dias de hoje. Seria romance, capa rosa com florzinha, “livro de escapismo”. Mas como é escrito por um cara, outros caras param para ler e se identificar e rir das piadas e anotar as referências e imitar o hábito de fazer top5 para tudo.

Sempre me chama a atenção como damos como certo que a experiência masculina é universal (e portanto nós mulheres podemos ler livros escritos por homens com protagonistas homens), mas o contrário não parece sempre verdade. Se as minas brancas não estão tristes, não vale a leitura.

(E note que mesmo quando é um caso de abrir exceção e ler mina branca triste, ainda assim tem muito choro e gritaria, vide o que o Guardian escreveu quando o Booker saiu para um homem esse ano)

Mas retomando, depois da surpresa de Bridgerton, cinco anos depois uma nova febre que também tem como ponto de partida um romance: a série Heated Rivalry está sendo comentada por todo mundo, mesmo nos lugares onde ainda nem está passando (no Brasil chega na HBO agora em fevereiro). Com esses dois sucessos que gostaria de chamar a atenção para o fato de que romance merece uma chance, inclusive do público masculino.

São dois pontos diferentes, mas os dois envolvem política: no caso de Bridgerton, temos o ambiente restrito da Inglaterra no período da Regência, quando mulheres eram pouco mais do que propriedade para os homens da época. Não podiam votar, não tinham direitos e muitas tinham a vida voltada apenas ao preparo para ser uma boa esposa.

E a parte interessante desse tipo de restrição (que se apresenta inclusive como obstáculo para o “final feliz”) é que muitas vezes não é nem preciso falar dela para compreendê-las. Sim, existem romances históricos que não escaparão de discutir abertamente questões políticas (a série A League of Extraordinary Women da Evie Dunmore, por exemplo, traz o romance para dentro de um grupo de sufragistas), mas no geral já damos como parte do universo desse tipo de livro (assim como a existência de uma quantidade infinita de Duques). O que atrai, mais do que escapismo, é o que a Sarah E. Ladd fala em artigo do Lithub: Os leitores adoram ler histórias de outras mulheres que triunfam em uma sociedade determinada a subjugá-las.

(Aqui mais um parêntese para dizer que foi com as mulheres Machadianas que caiu essa ficha para mim. Há anos tenho a teoria que a grande tragédia de Capitu era não ter fonte de renda própria. Note o final de Ressurreição: Lívia percebe que Félix é um ciumento que sempre desconfiará de suas ações – mas ela é uma viúva e tem dinheiro, não precisa casar, não deve nada à sociedade, portanto tem a liberdade de optar não casar com Félix. É um “final feliz”? Não é, mas ainda é melhor do que o de Capitu, porque Lívia pelo menos tem alguma agência.)

As histórias podem ser principalmente sobre como as protagonistas conseguirão conquistar seus interesses românticos (essa é, afinal, a definição do gênero, o foco no relacionamento entre as personagens e a garantia do final feliz), mas há sempre essa segunda batalha sendo travada contra uma sociedade que julgava o valor de uma mulher em sua capacidade de ficar de boca fechada e ter filhos. E aí a questão: para muita gente, isso ainda é real nos dias de hoje (tradwife, alou?).

Certo, e Heated Rivalry? Ele é moderno, o mundo é moderno. Mas as amarras são diferentes. Pois vou ilustrar o que quero dizer aqui com algo que observei no mesmo mês que saíram os episódios: logo após o encerramento da temporada de F1, saiu um vídeo do Lando Norris comemorando o campeonato em uma casa noturna. Em determinado momento no vídeo ele parece acariciar o rosto de um amigo. As pessoas da internet que falam de F1 começaram a postar o vídeo com um monte de piadinhas. E veja bem, não faz a menor diferença qual a orientação sexual do piloto (pois ele é piloto, e não qualquer outra profissão imaginária que exigisse que ele sentisse atração apenas pelo sexo oposto), mas ainda assim o tom é de zombaria – aquele discurso machinho que a gente conhece tão bem no ambiente esportivo, com torcidas achando que o pior que podem xingar alguém do time rival é chamá-lo de gay.

É nesse universo que Heated Rivalry acontece e a gente sabe disso. E sabe que esse ambiente homofóbico (isso sem nem falar do país de origem de Ilya) é um dos problemas para que as personagens consigam o “final feliz”. Mas o truque da série (ou ainda, a magia do romance, haha) é que apesar do mundo o tempo todo tentando subjugá-los, nós temos o momento de escapismo, de uma realidade que permite um beijo entre Scott e Kip na frente do público ao som de I’ll Believe in Anything do Wolf Parade sem que tenhamos que acompanhar a reação de uma torcida homofóbica enfurecida. Talvez para mim esse seja o principal charme do romance, permitir continuar sonhando uma realidade melhor.

E agora chovem artigos tentando entender o sucesso, tentando entender inclusive o que faz mulheres também gostarem da série (quando, como já estabelecido anteriormente, passamos anos lendo livros escritos por homens héteros brancos e aceitando isso como experiência universal. Se tem alguém que consegue praticar empatia é a leitora mulher, acredite). E o pior é perceber que a resposta nem é tanto uma novidade. Um dos filmes mais assistidos da Netflix agora em janeiro é adaptação de um romance da Emily Henry. Não é o melhor livro dela, e muita gente odiou a adaptação, mas está aí: a gente precisa de romance.

***

Vou terminar dizendo que embora eu adore um romance contemporâneo, meu vício é mesmo romance histórico. E a parte irônica de tudo que eu falei aqui é que eu não gosto muito dos livros da Julia Quinn (embora goste muito do livro do Visconde). Mas se você quiser nadar nessas águas, vou deixar aqui algumas sugestões:

Uma Semana Para Se Perder (Tessa Dare): Os cronicamente online podem ter encontrado a senhora Dare no twitter, na época em que ela estava tentando aprender português e comentava BBB com a galera. Eu gosto muito dos livros dela porque ela tem um senso de humor ótimo e Uma Semana Para Se Perder é o mais engraçado e divertido dela. Foi um dos livros que li no Meu Ano de Leitura e Descaralhamento e um dos responsáveis por eu gostar tanto de romance histórico. Aqui no Brasil saiu pela Gutemberg com tradução de A. C. Reis.

Ravishing the Heiress (Sherry Thomas): Infelizmente sem tradução no Brasil, e digo infelizmente porque esse aqui é muito *chef’s kiss*. É um livro sobre o qual você provavelmente ouvirá falar no meio do romance histórico, tem gente que odeia, tem gente que adora, tem gente que adoraria poder ler novamente como se fosse a primeira vez (eu). Todos os romances dela são bons, a parte triste é que ela migrou para a área do mistério e deixou o romance de lado.

Duke of Sin (Elizabeth Hoyt): O livro é o décimo de uma loooonga série com enredos completamente malucos (MUITO malucos, pense em um Batman do período Georgiano, por exemplo), mas o legal das autoras de romances históricos é que elas criam universos próprios, mas ao contrário do que acontece com os autores de fantasia, normalmente não faz muita diferença ler os livros na ordem errada, ou ler apenas um de uma coleção. Esse aqui vale demais a pena para conhecer Valentine Napier, uma mistura de Lestat com Pepe le Gambá.

Os três livros são o que lá fora chamam de “porta aberta”, com descrição de relação sexual entre as personagens. Eu poderia dizer que não faz diferença na hora de escolher, mas se você ficou com um mínimo de interesse nesse tipo de livro por causa de Bridgerton ou de Heated Rivalry eu acho que podemos ser honestos e assumir que é um dos atrativos também, certo?

Se quiser mais algumas opções, aqui tem uma lista com os 250 títulos mais recomendados no subreddit de romance histórico.

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