Uma dedicatória

Cornell Capa. Teenage Girls Resting Feet at First Formal Dance at the Naval Armory.

Eu acho que nesse momento dizer que 2025 foi um ano estranho é quase um pleonasmo. Não só 2025, parece que estamos acumulando anos estranhos, tropeçando meio às cegas desde que as coisas começaram a dar errado de um modo geral1. Mas divago. O fato é que 2025 foi sim um ano estranho, em partes pela experiência de ter uma pessoa muito querida naquele limiar entre vida e morte durante um período prolongado de tempo.

Sol é uma pessoa extraordinária – quem conhece sabe. Ela é tão extraordinária que ano passado mais de uma vez contradisse plantonista da UTI que nos alertava que ela poderia morrer a qualquer momento. Extraordinária porque contradisse estimativas e está aqui conosco, um ano depois. E mesmo ainda trabalhando física e mentalmente todo o trauma que viveu, ainda tira tempo para lembrar pessoas que nem conhece sobre a importância da vacina do HPV.

Em uma saída para um café (que privilégio, ainda temos nossos cafés!) falei para ela sobre como foram os dias em que ela estava apagada. Falei da primeira vez, quando um temporal despencou na cidade, uma chuva assustadora quando a vi e me dei conta ao mesmo tempo do milagre que é um corpo funcionando e de quantas coisas podem dar errado conosco. A médica chamou e avisou que poderia ser a última noite. Não foi. Não foi fácil, a recuperação ainda está em andamento, mas ela está aqui.

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Atrasada para a festa

Há uns dias cruzei com uma edição especial de 25 anos de um livro britânico chamado Ralph’s Party, da autora Lisa Jewell – o que situa o lançamento ali em 1999, considerando ano de publicação da edição. 1999 foi um ano esquisito da minha vida, começou com o deslumbre pela vida universitária e terminou com uma faculdade trancada e uma tentativa frustrada de vestibular para outro curso. Fui ver Matrix, A Bruxa de Blair e O Sexto Sentido no cinema e escrevi o refrão de Smooth na porta do banheiro do bar que eu frequentava. Mas enfim, normal que o livro tenha passado completamente batido para mim, no fim das contas.

De qualquer modo, acabei ficando curiosa, e possuída pelo ritmo Ragatanga pelo espírito de que tudo vale a pena se a memória do e-reader não é pequena, resolvi dar uma conferida. Pois bem, Ralph’s Party é uma comédia romântica publicada em 1999, mas com uma história que se passa em 1996 – e ela grita anos 90. Até por causa disso, mais do que a história em si – que é uma versão mais sem filtro (e britânica) de Friends – o que realmente chamou minha atenção foi como é nostálgico ler sobre aquele tempo, mesmo que a época não fosse particularmente boa.

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