Melhores leituras de 2020

É estranho. Passei quase todo o ano passado falando que a pandemia tinha esculhambado minhas leituras, afetado o ritmo, etc e aí fechou o ano, fui ver as contagens lá do Goodreads e meio que bateu com minha média de sempre. Mas eu sei que afetou algumas escolhas de leitura (tendi para leituras mais leves, por exemplo), e tenho total noção que afetou a experiência de leitura também. Tenho certeza que já coloquei esse link do texto do Julián Fuks em vários lugares, mas vou citá-lo mais uma vez porque descreve exatamente meu sentimento enquanto leitora:

(…) me sinto menos capaz de me entregar por completo à leitura, de deixar que ela tome a minha mente inteira. O momento que vivemos é estridente demais, a cada instante convoca os meus pensamentos. Sinto falta, então, de uma literatura plena – e sinto falta de um passado e de um futuro que se deixem ler sem a lente do presente.

No fim das contas não é tanto sobre a quantidade de páginas ou de livros lidos, é mais como estava minha cabeça quando foram lidos. E por causa disso, fica aquela promessa de revisitar em outro momento alguns títulos, mesmo os que não apareceram entre os dez favoritos. E é isso. Então toca o play para a trilha sonora do post e vamos para a lista de 2020, que ficou assim (lembrando, títulos com link é porque já falei do livro aqui):

1 Piranesi (Susanna Clarke): Piranesi começa bem estranho, quase como se você tivesse acabado de entrar no labirinto habitado pela personagem que dá nome ao livro. Mas conforme as páginas vão avançando, o mistério vai se resolvendo e aí chega a familiaridade, mas do que qualquer coisa, o encanto total por Piranesi. A doçura que talvez só seja possível com uma boa dose de esquecimento. Quando chegamos  na conclusão, é com aquele aperto no coração por deixar uma personagem para trás. Não tem tradução no Brasil ainda.

2 Enterre Seus Mortos (Ana Paula Maia): Já falei do livro aqui (e quando tiro as teias de aranha do blog para escrever sobre um livro, é porque ele de alguma forma me empolgou), mas vou reforçar o quanto foi uma leitura especial – até porque ecoou muito durante todo o ano com essa pandemia. Não dá para ver imagens de doentes acamados ao lado de defuntos sem lembrar de alguns trechos do livro, do descaso com os corpos. E, principalmente, do medo da solidão que essa doença impõe na hora da morte, tanto de quem morre, quanto de quem fica por aqui.

3 Na Corda Bamba (Kiley Reid): Também já falei dele aqui, mas na época ainda não tinha saído tradução no Brasil (chegou na segunda metade do ano pela Arqueiro, tradução de Roberta Clapp). Eu não vi muita gente da minha bolha ~~dos livros~~ comentando, o que é uma pena, porque mesmo que seja mais comédia do que drama, ainda assim acerta em cheio na crítica a muitas questões atuais.  Ficar de olho na Reid porque eu acho que muitas outras coisas bacanas virão depois desse romance de estreia.

4 O Mez da Grippe (Valêncio Xavier): Assim como Enterre seus Mortos, foi um livro que ficou comigo mesmo após a leitura. Alguns trechos são inescapáveis quando você confronta o passado com o que estamos vivendo. Queria muito, muito mesmo ter lido antes da pandemia, tenho certeza que teria sido outra experiência completamente diferente. A edição nova ficou por conta da curitibana Arte&Letra, li em um artigo que foi pura coincidência o ano do lançamento bater com o da pandemia.

5 The Regrets (Amy Bonnaffons): Falei dele aqui no blog (até que atualizei mais do que o normal, heim). Ainda não tem tradução no Brasil. Enfim, apesar da premissa parecer que será um livro romântico esquisitinho (uma menina se apaixona por um fantasma) é na realidade uma história sobre relacionamento abusivo, e sobre as marcas que deixamos nas vida de outras pessoas. Pontos extras por não fazer trocadilho com ghosting, porque a quantidade de contos e romances que estão saindo lá fora com a premissa totalmente ligada ao trocadilho, viiiiish…

6 It is Wood, It is Stone (Gabriella Burnham): Falei dele no aqui (!!!!). Ainda não vi nada sobre tradução aqui no Brasil, mas continuo curiosa sobre o que fariam para manter a estranheza da língua estrangeira (uma vez que no livro a língua estrangeira é nosso Português). Tem uma das passagens mais bonitas que li esse ano, não por frase inspiradora ou sei lá o que, mas pela imagem que criou na minha cabeça mesmo (o bar em Paraty com as pessoas cantando Águas de Março). E por falar em imagem, que fique registrado também que foi minha capa favorita do ano passado.

7 Crossings (Alex Landragin): A ideia é muito legal, você pode ler o livro de duas formas: a convencional (página 1 até a última página), ou The Baroness Sequence, que faz você pular de um lado para outro entre os capítulos. Eu acabei optando por seguir a convencional, não sei como seria a experiência com a outra ordem de leitura, mas mesmo no convencional é bacana demais. A história envolve pessoas vivendo por muitos e muitos anos! Tem Baudelaire! Tem Walter Benjamin! Tem livros raros! Tem mistério! Enfim, é muito divertido. Mas fuééém, ainda não tem tradução no Brasil.

8 Temporada de Furacões (Fernanda Melchor): Foi um dos últimos que li no ano passado. Que experiência estranha. É um livro maravilhoso, mas extremamente perturbador. Ele abre com a descoberta de um cadáver, a partir daí personagens relacionados direta ou indiretamente ao crime contam pedaços de suas vidas que de certa forma tocam a da pessoa assassinada. A cada mudança de narrador, novos elementos aparecem – constante ali é só a violência. Eu li (vergonhosamente) em inglês, aí pesquisando sobre traduções descobri que saiu uma aqui no Brasil pela Mundaréu no final do ano (tradução do Antônio Xerxenesky).

9 Little Eyes (Samanta Schweblin): Também falei dele aqui no Hellfire. Então, eu pesquisei de novo para falar dele aqui no blog e não achei nada sobre tradução. É meio estranho, o livro é de 2018, sabe? Já teria tempo para alguma editora daqui ter lançado. É tipo Los peligros de fumar en la cama da Mariana Enríquez, de 2009 – que sai agora em 2021 em inglês mas não apareceu por aqui. Enfim, sobre Little Eyes. Desde que terminei o livro volta e meia dou uma olhada para a tela do meu celular e penso que a gente se vendeu fácil, nossos celulares nem são bichinhos fofinhos. Para quem for procurar o livro no idioma original, o nome ficou Kentukis.

10 Meet Me in the Bathroom: Rebirth and Rock and Roll in New York City 2001 – 2011 (Lizzy Goodman): Então, foi o primeiro livro de 2020 eu nem tinha ideia do que seria o ano que passou. Falei dele aqui em um momento em que acreditava que faria atualizações mais constantemente, hehe. O trabalho de contextualização que a Goodman faz é um negócio de outro mundo, você volta no tempo e consegue entender direitinho como é que aquelas bandas surgiram ali. É um trabalho tão completo, e é tão bacana ouvir as vozes de quem estava lá, que eu realmente acho que o livro não é só para os fãs das bandas citadas. Aliás, The Yeah Yeah Yeahs eu só comecei a ouvir de verdade depois de ler o livro (shame! shame! shame!). Ainda sem tradução por aqui.

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