Meet Me in the Bathroom: Rebirth and Rock and Roll in New York City 2001-2011 (Lizzy Goodman)

Observando de longe, histórias de bandas de rock não são muito diferentes entre si, seja lá a qual década elas pertençam. Um elemento ou outro pode até faltar, mas no geral quase todos estarão lá. As narrativas são construídas a partir de encontros ao acaso. Tem aquele momento meio aleatório da escolha do nome da banda que depois significará tanto para tantas pessoas. O trabalho duro e os shows em lugares pequenos anteriores à fama, contrastando com o completo assombro ao passar a tocar em lugares enormes e lotados.

Com a fama, os atritos entre personalidades fortes e egos gigantes passam a ser mais constantes, piorados pelo abuso de drogas e bebidas. Surgem projetos paralelos e ciúmes, algum membro acaba resolvendo ir embora ou acaba morrendo. A banda acaba. Ou continua, mas resignada que aquele momento de explosão é único e não se repete.

Dito isso, é óbvio que Meet Me in the Bathroom de Lizzy Goodman não fugirá da regra ao falar de bandas do começo dos 2000, como The Strokes, Interpol e Yeah Yeah Yeahs. Mas o charme do livro não está nas coisas que todo fã saberia, mas em como ao usar várias vozes, a jornalista consegue fazer um retrato tão preciso do momento em que essas bandas estiveram no auge. 

E quando digo várias vozes, são várias MESMO. Ano passado tinha lido Daisy Jones & The Six (que também segue a estrutura de relato oral, montando uma história a partir de recortes de entrevistas), e pensei como seria bacana se a banda realmente existisse. Mas eram poucas personagens, e a história era sobre a relação entre os dois membros principais da banda, isso ficava bem claro. Bom, o trabalho de Goodman é com bandas reais e gira ao redor de bem mais do que uma banda. Então, entre músicos, jornalistas, assistentes, empresários e gente que até o fim do livro eu não sabia muito bem qual era a função, são vários pontos de vista que em alguns momentos se contradizem, se complementam e, mais importante, conseguem passar uma imagem precisa do que foi a Nova York dos anos 2000, e de porque aquelas bandas só poderiam ter surgido ali, e naquele momento.

Aliás, meu capítulo favorito é justamente o primeiro, que contextualiza o momento em que as bandas começaram a aparecer. O que significava gostar de rock naquele período – e embora concentrado especificamente em Nova York, o sentimento não era muito diferente no resto do mundo. Mesmo nos capítulos seguintes, o assunto da cidade antes das bandas surgirem retorna. Em dado momento um dos entrevistados diz “Coldplay era indie!“. Ou quando James Murphy fala sobre o que era ser fã de Smiths no fim dos 90: “Agora, o tom atual é de ‘Claro, quem não seria? Que maníaco odiaria Led Zeppelin?’, mas em 1999 não era cool. Não tem como explicar isso para as pessoas. Nós éramos como ‘Sabemos que isso não é cool, mas é o nosso gosto’“.

Relato após relato, aquele fim de 90 e começo de 2000 é reconstruído. Nada escapa. Mesmo o modo de curtir música em bares que muda após a proibição de cigarros em ambientes fechados (algo que é mais recente aqui no Brasil, vale dizer). A chegada do Napster, a internet mudando a relação das pessoas não só no modo como adquiriam música:

DAVE GOTTLIEB (da gravadora RCA): Eu lembro que estava em um vôo para LA e vi dois garotos com um portfólio de CDs. Apenas um em 30 era comprado em loja; o resto era pirata. Então eu perguntei para os garotos: “Certo, como vocês fazem isso? O que vocês fazem? Por que vocês não compram os CDs?” E eles me contaram: “Tinha apenas uma música boa, então é melhor fazer só um mix” E eu, “Ok, mas você tem esse CD do Dave Matthews.” O garoto diz “Uma pessoa compra e nós vamos trocando” Eu fiquei só sentado lá e pensando “Oh meu Deus. Estamos mortos.”

Mas também em como se falava de música, já que além dos jornalistas já estabelecidos (tem Rob Sheffield de Love is a Mixtape entre os entrevistados!!), mas também os blogueiros:

Do que eu realmente gostava dos primeiros blogs é que aquelas garotas que poderiam não se sentir bem-vindas no mundo da crítica ainda dominado por homens estavam encontrando uma voz e uma nova forma de cobrir a cena. Tinha algo ali que me lembrava um pouco da era dos zines riot grrrl. Essas blogueiras eram uma mistura interessante de fãs, repórteres, caçadoras de tendências e autoridade.

E é claro que saber anedotas e fofoquinhas sobre as bandas também é legal, mas é, como disse, um pouco mais do mesmo – não é tanto sobre quem pegou quem, quem usou mais drogas ou quem não se dava bem com quem. É sobre como essas bandas só poderiam surgir ali. Dito isso, é óbvio que Nova York entra na história quase como uma personagem, especialmente a noite nova iorquina. Pode parecer meio estranho ouvir por capítulos e capítulos sobre bares e festas que você jamais frequentou e nem frequentará, mas são lugares sem os quais provavelmente não existiriam as bandas que ouvimos até os dias de hoje, são parte fundamental da história.

Ainda sobre a cidade, um outro capítulo que merece destaque é sobre o 11 de Setembro. Passados quase 20 anos do dia do atentado, parece que já ouvimos todo tipo de relato envolvendo aquele dia. Mas eu não lembro de ter visto algo sob o ponto de vista de músicos que moravam na cidade. O modo como descrevem o que viveram, os dias seguintes ao ataque, é algo completamente diferente do que vi em literatura e mesmo no cinema. E isso que recentemente li um livro bem bacana da Nell Zink chamado Doxology, que começa em um cenário parecido com o Meet Me in the Bathroom (Nova York, uma banda punk do final dos 90, etc.) e tem como ponto central a reação das personagens a uma perda ocorrida no 11 de setembro.

Enfim, são mais de 600 páginas, mas valeu muito pela viagem no tempo. Acho que o único porém é que fiquei com a sensação de que a editora não soube aproveitar todos os recursos que o formato como o e-book poderia oferecer, a começar, um link entre o nome das pessoas que estavam falando e a lista de personagens lá do começo? Não sei se isso deixaria o arquivo muito pesado, mas é meio chatinho ficar voltando e tendo que procurar o nome na lista quando eram pessoas que você não conhecia bem – óbvio que você sabem quem é Julian Casablancas e Karen O, mas tem um punhado de pessoas ali que são do cenário mas não são exatamente conhecidas por pessoas de fora, digamos assim.

Outra coisa é que as fotos que estão no final do livro poderiam ser distribuídas entre capítulos. Terminei o livro pensando “Puxa, acabou? Poderia ter mais fotos”, e aí passa agradecimentos, índice remissivo e finalmente… um monte de foto. Ficaria bem melhor dentro do corpo do texto.

Ah, sim, sugestão: se for ler, leia com o celular por perto. O número de coisa que o livro comenta e você vai ficar curioso para conferir é enorme. Eu não sabia do Interpol no episódio de Friends, por exemplo. Capas de revista, fotos, clipes, etc. Enfim, é um monte de coisa – e realmente complementa a leitura. 

O livro saiu lá fora em 2017 e ainda não tem tradução no país, infelizmente. Traduzi as citações, então já peço desculpas desde já se dei alguma derrapada (quase passei kids para guris, ahaha).

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