Honeysuckle (Bar Fridman-Tell)

O mito galês de Blodeuwedd conta como ela foi criada a partir de plantas e pedaços de madeira pelos magos Math e Gwydion para burlar a maldição que o herói Lleu Llaw Gyffes recebera da mãe Arianrhod – ele não poderia se casar com uma mulher humana, Blodeuwedd resolveria o problema uma vez que não era humana. É a partir de elementos dessa história que a canadense Bar Fridman-Tell criou seu excelente Honeysuckle (ainda sem tradução no Brasil), mas com alguns twists. Se no mito Blodeuwedd de certa forma aparece como uma vilã traidora, na obra de Fridman-Tell a personagem aparece como uma alegoria para as consequências de um desequilíbrio de poder em um relacionamento.

Em Honeysuckle somos apresentados a Rory, um garotinho de oito anos que vive em uma casa no interior apenas com a irmã mais velha. Abandonados pelos pais, a convivência com adultos se limita à governanta e ao tutor. A questão é que quando a irmã chega na adolescência, as brincadeiras infantis de Rory perdem a graça. Para não ter o irmãozinho a perseguindo pelo terreno da casa, ela cria uma blodeuwedd para ele. Uma amiga para correr, brincar, pescar, nadar no lago.

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Literatura na escola (ou: Harry Potter ao invés de Machado não é a solução.)

Sam Reid como Lestat na série Entrevista com o Vampiro representando a cara que eu faço sempre que vejo alguém falando sobre ler Harry Potter ao invés de Machado de Assis na escola.

(Queria começar dizendo: tem outros livros. Se eu consegui largar a mão do Neil Gaiman você também consegue se libertar de Harry Potter, amiguinho.)

Para os cronicamente online há uma espécie de calendário anual de temas a serem debatidos, aqueles assuntos esgotadíssimos que incrivelmente conseguimos sempre retomar e todo ano discutimos com uma paixão que aparentemente só seria possível para um tema novo. Pois ontem me mandaram um print da rede falecida onde uma pessoa leitora (booktwitteira? booktoker? booktuber? não sei.) sugere que o problema do ensino de Literatura no Brasil é que os professores obrigam os alunos a ler Machado de Assis ao invés de Harry Potter. E com isso declaro aberta a temporada de “As crianças deveriam ler Harry Potter ao invés de Machado de Assis“.

Eu já me irritava com essa sugestão mesmo na versão do bem da Rowling, quando ela ainda fazia revisionismo da obra e do nada dizia coisas tipo “Dumbledore é gay”. Na forma atual a gente nem deveria estar mais sugerindo esse tipo de coisa, mas ok, não vou me fazer de boba, eu sei que no fim das contas a ideia é basicamente “O jovem deveria ler young adult, coisas atuais e divertidas, e não clássicos empoeirados e cheios de palavras difíceis”. Então ao longo do post, entenda “Harry Potter ao invés de Machado” como tal.

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Garota Sobre Garota (Sophie Gilbert)

A série Kevin Can F* Himself criada por Valerie Armstrong e que foi ao ar em 2022 conta a história de Allison (interpretada por Annie Murphy) uma esposa em uma sitcom típica de família de classe média norte-americana. O marido Kevin é aquele loser comum das comédias que crescemos assistindo, sempre fazendo um monte de besteiras que renderão risadas do público. O que faz a série ser tão legal é a ideia de que Allison está presa dentro de uma narrativa, ela é um tipo (a esposa de sitcom), mas temos vislumbres de tentativas de fugir da história em que está presa – marcados visualmente por um esfriamento na paleta de cores. A tragédia de Allison é que Kevin também é um tipo, e portanto como todo marido de sitcom acaba escapando de várias situações meramente por ser o que é.

Dá para iniciar uma longa conversa sobre Allison e a representação da mulher, mas quero falar de outra personagem da história, a Patty. Patty é irmã do melhor amigo de Kevin. Patty é um dos caras. E como Allison e seu bom senso são antagonistas de Kevin e suas aventuras engraçadas e absurdas, é óbvio que Patty (inicialmente) detesta Allison. Enquanto Allison é loira, linda, bem vestida, enfim, a epítome do desejo masculino, Patty é o oposto. Eu passei minha adolescência inteira sendo uma Patty.

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Hiraeth (“hee-rayeth”)

Edifício Iza Anitta e ao fundo o prédio branco onde a vó morava, pelas lentes de Flavio Antonio Ortolan, publicada no Fotografando Curitiba: https://www.fotografandocuritiba.com.br/2017/08/edificio-iza-anitta.html


Tem uns poucos dias estava lá perdendo uns minutos de vida no Instagram quando vi um post da conta Centro de Curitiba
contando que estão para demolir “o predinho rosa do Batel”. Aparentemente, a ideia é construir um hotel no local. Dando um contexto para quem é de fora: o Edifício Iza Anitta fica em uma dos endereços mais famosos de Curitiba, a Avenida do Batel. Se fossem colocar endereços de Curitiba em um tabuleiro de Banco Imobiliário, eu tenho certeza que a Avenida do Batel estaria lá.

E é óbvio que como um endereço de prestígio, qualquer metro quadrado que fique vago abre espaço para um prédio. A questão é que aquele terreno de esquina não está vago, nele há uma construção da década de 1950, um ponto de referência para os curitibanos justamente porque se diferencia das ‘n’ construções de vidro e concreto que sobem toda hora na cidade. Como comentei no Bsky no dia que fiquei sabendo, eu compartilho com todos os curitibanos a tristeza da perda desse prédio, porque faz parte da nossa história. A questão é que nesse caso vai junto para o chão um pouco de história pessoal, porque minha vó morava ali quando eu era criança.

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Suponho que, no fim das contas, a vida inteira se torna um ato de despedida.

Dá o play aí:

Estive pensando em uma cena em especial do filme As Aventuras de Pi, no momento em que o protagonista está lembrando de quando ele e o tigre Richard Parker se separaram. Fui até consultar o livro para confirmar, e a frase tal como aparece é só na adaptação mesmo. Ao falar da separação, Pi já adulto reflete: “Suponho que, no fim das contas, a via inteira se torna um ato de despedida”. O acúmulo de tempo vivido é também um acúmulo de desapegos, de despedidas, de deixares partir.

Lembrei desta cena em especial porque pareceu um tema meio recorrente em algumas coisas que li e assisti nos últimos tempos. Para começar, de uma forma mais óbvia, o filme britânico Nina Forever (2015). A história (meio comédia romântica, meio filme de terror) fala sobre uma garota (Holly) se apaixonando por um cara (Rob) que ainda está vivendo o luto após a morte da namorada (Nina). Ele parece estar preparado para recomeçar, mas o fato é que tão logo Holly e Rob vão para a cama, a namorada morta aparece. Literalmente. O corpo dela, ainda todo ferido e sangrando surge entre os dois.

Cena do filme Nina Forever.

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