A série Kevin Can F* Himself criada por Valerie Armstrong e que foi ao ar em 2022 conta a história de Allison (interpretada por Annie Murphy) uma esposa em uma sitcom típica de família de classe média norte-americana. O marido Kevin é aquele loser comum das comédias que crescemos assistindo, sempre fazendo um monte de besteiras que renderão risadas do público. O que faz a série ser tão legal é a ideia de que Allison está presa dentro de uma narrativa, ela é um tipo (a esposa de sitcom), mas temos vislumbres de tentativas de fugir da história em que está presa – marcados visualmente por um esfriamento na paleta de cores. A tragédia de Allison é que Kevin também é um tipo, e portanto como todo marido de sitcom acaba escapando de várias situações meramente por ser o que é.
Dá para iniciar uma longa conversa sobre Allison e a representação da mulher, mas quero falar de outra personagem da história, a Patty. Patty é irmã do melhor amigo de Kevin. Patty é um dos caras. E como Allison e seu bom senso são antagonistas de Kevin e suas aventuras engraçadas e absurdas, é óbvio que Patty (inicialmente) detesta Allison. Enquanto Allison é loira, linda, bem vestida, enfim, a epítome do desejo masculino, Patty é o oposto. Eu passei minha adolescência inteira sendo uma Patty.
Pensei muito nisso enquanto lia Garota sobre Garotas de Sophie Gilbert, que chegou agora em 2026 no Brasil através da Todavia (com tradução da excelente Emanuela Siqueira). Especialmente com os primeiros capítulos, que se concentram mais na década de 90, quando minha resposta para o mundo era ser Patty. A proposta da autora é se debruçar sobre a representação da mulher em vários aspectos, dos anos 90 até os tempos atuais. Música, revistas, filmes, pornôs, redes sociais, livros, programas de tv – em tudo o que enxergamos é um movimento de progresso seguido de retrocesso, repetido continuamente. A sensação é de que assim que as mulheres ganham alguns centímetros, logo passa um rolo compressor para alisar o terreno e forçá-las a começar de novo.
E embora a obra seja essencialmente anglófona (por motivos óbvios), não é difícil pensar em exemplos dentro da cultura nacional para tudo que é descrito por Gilbert. No capítulo sobre música, por exemplo, pensei que cresci ouvindo caras cantarem sobre mulheres, a questão aqui é como elas eram representadas. Estava pensando que até quando faziam o esforço de tentar apontar o dedo para o discurso “errado” dos colegas, algumas vezes os músicos patinavam exatamente no que queriam denunciar. Um exemplo é Garota Regional do Skuba, com os versos:
Não to aqui pra elogiar
Apenas pra relatar
Fatos reais da maioria
Das garotas nacionais
A grande parte
Não é tão boa
Quanto dizem os jornais
Nem todas têm a sua magreza
Atual padrão de beleza
Eu não sei porque
Depois de um filho cai tudo
Aquilo que você
Achou que era melhor do mundo
Yeah
Skuba até hoje não viu a cor
De mulher boa pra comer
Agarra uma garrafa de cachaça
E espera o sol nascer
A nossa musa
Não é uma Deusa
A nossa musa
É você
Que não tem corpo
E cara escultural
Mas tem cabeça
E peito normal
Garota Regional do Skuba era uma resposta à Garota Nacional do Skank, problemática à sua própria maneira. O fato é que assim como no caso de algumas das músicas citadas por Gilbert (um tanto delas com teor extremamente misógino, diga-se de passagem) o fato é que cantávamos e dançávamos e fazíamos a oposição – eu sou a garota regional, a Patty, e não andava com as Allisons da vida.
O que chama minha atenção é que as coisas aconteciam de maneira tal que a só conseguimos perceber o problema de alguns versos hoje em dia. Não é como se não existissem bandas femininas cantando sobre mulheres sob outra luz. Gilbert fala de Madonna, o movimento das Riot Girls e mesmo no rap do Salt-n-Peppa. Eu adorava L7, Hole, No Doubt. E mesmo assim, deixava passar os guris cantando coisas como “And I said, yeah, yeah/ Oh man, she’s got issues/ And I’m gonna pay/ Yeah, yeah/ She says she’s the victim/And she takes it all out on me” 1.
De certa forma o livro ajuda a entender como é que isso foi possível. De como encarnávamos a Patty e tentávamos ser um dos caras, porque a outra opção era apenas ser Allison, o objeto de desejo dos caras. Sim, é sempre sobre os caras. A cultura vai nos moldando para escolher os lados, mesmo que a gente nem perceba.
Por exemplo: Gilbert não chega a mencionar o caso (ela fala de Hillary Clinton enquanto política, e não a esposa do ex-presidente), mas consigo entender hoje em dia como é que na época do escândalo de Clinton e a Monica Lewinsky, o público (e as mulheres!!) acharam que quem deveria ser julgado e execrado era a guria de 20 e poucos anos, e não o homem mais velho, casado e em óbvia situação de poder. Eu acho que minha visão sobre todo o caso só mudou por causa da ficção, através do livro Young Jane Young da Gabrielle Zevin, mas nunca tinha conseguido entender como é que eu fui com a turba e achava que a Lewinsky deveria ser tratada como foi na época. Como disse antes, gora consigo entender.
É uma das ideias de Gilbert, de que a cultura serve de barômetro para entendermos o momento em que vivemos. Em um dos capítulos ela cita o caso de um monte de gente chilicando por causa de um elenco feminino para Os Caça-Fantasmas e conclui:
Se os Estados Unidos não estavam prontos nem para ceder temporariamente a um universo fictício de mulheres investigadoras paranormais, dirigindo um carro de funerária e fugindo de ectoplasmas, era difícil que confiassem a uma de nós os códigos nucleares.
E se a cultura é barômetro, a resposta é que as coisas nunca estiveram muito bem, mesmo quando pensávamos estar avançando. No capítulo que trata sobre a ambição feminina, Gilbert fala sobre como o badalo para o lado do progresso logo perde força quando feminismo vira mercadoria. Ou ainda, quando o discurso para a formação das “girlbosses” empurra para debaixo do tapete o fato de que é um grupo bem específico de mulher que pode se tornar girlboss, um feminismo mais ligado ao capital e que deixa no caminho uma variedade de mulheres não poderia ser chamado como tal, não é mesmo.
E o que dizer sobre a campanha pela Real Beleza da Dove, citada no livro como um dos momentos em que passamos a adotar um léxico de maior aceitação dos nossos corpos depois de anos tentando imitar o heroin chic que víamos nas revistas? Não é engraçado que a mesma marca que lança a campanha continua vendendo medos e inseguranças, quando coloca no mercado um produto para clarear as axilas? 2
O badalo entre progresso e retrocesso se repete em todos os exemplos citados pela autora. Uma mulher cria algo, ganha espaço, e logo o que ela criou será transformado em produto, desacreditado por ter virado produto ou simplesmente por ser algo criado por mulher. O capítulo sobre autoria confessional é emblemático nesse aspecto, sobretudo quando pondera que:
Homens que escrevem sobre sua vida tendem a ser canonizados como corajosos autores da experiência humana; mulheres que fazem o mesmo são acusadas de compartilhar demais.
Ela complementa com a citação de Rachel Sykes:
Escritores como Ben Lerner, Karl Ove Knausgård e Tao Lin escrevem relatos autoficcionais muito similares sobre a interioridade, o corpo e a vida sexual de seus protagonistas, mas a crítica costuma celebrá-los como encarnações de Marcel Proust, em vez de literatos que compartilham demais.
Trazendo para um caso bem recente para ilustrar, temos lá a história do Édouard Louis criticando a escrita da Elena Ferrante. Tem também a repercussão ao episódio CPF na nota? do podcast Radio Novelo, que comentei lá no post sobre Bring the House Down. Eu já falei mais de uma vez: livros escritos por mulheres tendem a ser diminuídos meramente por serem escritos por mulheres, como se apenas a experiência masculina tivesse o necessário para ser lida e aceita como universal.
Eu que era “um dos caras” tive na minha formação como leitora uma infinidade de títulos escritos por homens. Foi ali na década de 10 que comecei a ler mais mulheres – e é impressionante o quanto ouvir vozes diferentes amplia o seu léxico, ao ponto de você entender por exemplo, porque a abordagem da situação da Lewinsky estava completamente errada. Ou como é extremamente problemático que a Adriane Galisteu só tivesse 19 anos quando começou a se relacionar com Senna (e 20, quando sofreu aquele tratamento horroroso após a morte dele). Ou ainda, tomando aqui uma informação que eu nunca tinha levado em conta e que só fiquei sabendo lendo o Garota Sobre Garota: Paris Hilton tinha apenas 19 anos quando a sextape que vazou foi gravada.
E eu sei que soa como uma leitura pessimista, a sensação de que o badalo entre progresso e retrocesso nunca vai acabar e que estamos sempre à mercê do que “grandes poderes” decidem que iremos assistir, ouvir ou ler, mas não é bem assim. As mulheres continuam criando, mesmo que às margens. Quando Gilbert fala do sumiço das bandas femininas com a chegada das Spice Girls e o girl power de boutique, na minha cabeça o que passou foi “Não sumiço, né, elas só saíram do holofote, mas ainda estavam lá”. E nós temos autonomia para recusar e escolher.
Autonomia inclusive para entender como é que ser a Patty e antagonizar as Allisons do mundo é extremamente contraproducente e exatamente o que os caras estão esperando, enquanto tudo for sobre eles, a gente se distrai do que realmente precisa mudar.
Valeu bastante a leitura, acho que único capítulo chatinho foi o sobre os reality shows, mas isso porque não sou muito fã do formato e aí não tinha muita bagagem para saber do que ela estava falando. Tem o capítulo sobre a indústria dos filmes pornôs que eu queria muito em algum momento comentar à parte, casando com uma outra ideia que a Gilbert coloca mais lá para o fim sobre como o amor romântico seria um dos principais vetores para acabar com a desigualdade de gênero, mas aí nesse momento já é ter o olho maior do que a barriga, fica para outra hora.
Fora isso, é uma obra que serve bastante para compreender como chegamos aqui e, de certa forma, servir de alerta para as tempestades que estão chegando. Porque, de novo: se a cultura serve de barômetro para o momento em que vivemos, então 2026 é a hora do berenice, segura, nós vamos bater. Ontem mesmo li um artigo sobre a nova tendência serem os Ballerina Boobs. Se um monte de luz vermelha de alerta não começou a piscar para você, esse vídeo da Alice Caldeira no Instagram pode te ajudar a entender.