O mito galês de Blodeuwedd conta como ela foi criada a partir de plantas e pedaços de madeira pelos magos Math e Gwydion para burlar a maldição que o herói Lleu Llaw Gyffes recebera da mãe Arianrhod – ele não poderia se casar com uma mulher humana, Blodeuwedd resolveria o problema uma vez que não era humana. É a partir de elementos dessa história que a canadense Bar Fridman-Tell criou seu excelente Honeysuckle (ainda sem tradução no Brasil), mas com alguns twists. Se no mito Blodeuwedd de certa forma aparece como uma vilã traidora, na obra de Fridman-Tell a personagem aparece como uma alegoria para as consequências de um desequilíbrio de poder em um relacionamento.
Em Honeysuckle somos apresentados a Rory, um garotinho de oito anos que vive em uma casa no interior apenas com a irmã mais velha. Abandonados pelos pais, a convivência com adultos se limita à governanta e ao tutor. A questão é que quando a irmã chega na adolescência, as brincadeiras infantis de Rory perdem a graça. Para não ter o irmãozinho a perseguindo pelo terreno da casa, ela cria uma blodeuwedd para ele. Uma amiga para correr, brincar, pescar, nadar no lago.
No universo de Honeysuckle há um sistema de magia que confunde-se com engenharia. Então, pensar em Daye, a blodeuwedd criada pela irmã de Rory, é quase como imaginar uma androide feita com produtos da natureza. E o garoto logo descobre que ela responde às estações, para cada mudança o corpo se deteriora e precisa de reparos e a inclusão de elementos típicos da estação em que ela está vivendo.
Esse elemento por si só cria imagens belíssimas ao longo da história. A ideia de alinhavar o que é coletado para a criação da blodeuwedd, as descrições da garota que muda junto com as estações, o cenário idílico, é tudo tão lindo e um contraste enorme com o desenrolar da narrativa. Frases como “Her heart- the heart she wove together from bluebells, rosemary and wild garlic – drummed loudly in her ears” aparecem durante todo livro. Mas não se engane, apesar do tom de contos de fadas, Honeysuckle é uma história de horror.
Inicialmente horror para Rory, que abandonado pelos pais e depois pela irmã quando essa vai para a universidade fica completamente dependente de Daye, e apavorado com a possibilidade de rever o momento em que ela se desfaz se não é remodelada para a mudança de estação (numa ação que eles chamam de “transição”). Mas conforme Rory vai ficando mais velho, o horror muda para Daye, que passará a ser submetida às vontades do garoto como se não tivesse agência alguma.
Porque Rory começa a crescer. E começa a mudar o modo como enxerga Daye, não mais uma amiga-quase-irmã, mas uma garota lindíssima. Ao mesmo tempo, o mundo de Rory também começa a se expandir, para além dos limites do terreno da família: inicialmente com viagens rápidas para a cidade para emprestar livros na biblioteca, buscando formas de garantir que Daye não precisasse das “transições” para as estações.
Na cidade ele faz amizade com pessoas da mesma idade, uma oportunidade que ele não tivera até então. Ele experimenta coisas novas, conhece lugares novos, tudo isso sem Daye, que continua no interior esperando seu retorno. Quando volta para casa, ele encanta a garota com histórias do que viveu na cidade, mas a promessa de fazer com que ela possa fazer a viagem com ele é logo esquecida. Pior, em um momento que para o leitor é uma nítida traição (ainda mais se considerar quando é quem o pensamento de Rory no livro), ele nunca pensou a sério na possibilidade de levá-la, mesmo sabendo como fazer. Porque para Rory é mais cômodo separar os dois mundos: o que ele vive com Daye, e a cidade, onde vive com os amigos e a irmã. É a primeira ruptura no relacionamento deles.
“She had forgotten how to transmute loneliness into mere aloneness, how not to fall in the hole of his absence.“
Com os colegas da cidade entendemos também que ninguém vê com bons olhos a relação entre humanos e blodeuwedds. Isso porque é um fato conhecido que para a criação de blodeuwedds, é utilizado madressilva (honeysuckle que dá título ao livro), que cria um laço entre o criador e o constructo. É um vínculo que estabelece que o constructo sempre terá que satisfazer as vontades do criador. É interessante que esse é um conhecimento que Rory tem desde que começa a estudar sobre o assunto ainda por conta própria, mas parece que o único aspecto disso que o tormenta é o fato de que seu amor pode não ser correspondido, a resposta de Daye ao que ele sente pode ser só efeito da madressilva.
E sim, amor. Quando Rory fica mais velho, ainda nas primeiras idas à cidade, antes de quando a quantidade de dia que passa longe de casa fique cada vez maior, ele se dá conta que ama Daye não só como uma amiga-quase-irmã. Aqui começa o horror de fato, porque aos poucos ele manipula a situação para que Daye aceite mudanças físicas, porque a mudança do amor de amiga-quase-irmã para mulher se dá quando Rory começa a sentir desejo por Daye. O momento em que ele a convence a criar órgãos genitais para que possam fazer sexo (e junto, aumentar os seios da garota e acrescentar curvas no que até então era um corpo infantil) é apavorante, porque lembra muito situações parecidas com o que já comentei em outro post – o conto de fadas falando dos horrores que as mulheres vivem na vida real.
E mentiras, manipulações e omissões vão se acumulando, sempre sob o pretexto de melhorias para evitar a decomposição entre estações. Mas as melhorias são sempre as que ele quer, nunca o que ela pede (que é poder ir para a cidade junto com ele). Eu acho curioso que quando a investigação dele ainda era inocente, a primeira mudança que ele tenta pesquisar é a possibilidade de fazer com que Daye sinta gosto, o que foi logo esquecido, mas depois as mudanças tem cada vez menos a ver com o que Daye quer, e sim com o que ele deseja.
Quando ele domina a transição, logo pensa nos seios maiores e nos genitais. Note que até esse ponto aqui ele sequer tinha cogitado a possibilidade de estudar uma forma de fazer com que ela conseguisse falar (Daye e Rory se comunicavam por sinais). E mesmo a voz (que ele dá para Daye num momento que é uma violência tremenda à natureza da garota), ele pensa em como tornar a voz uma possibilidade não porque Daye pediu, mas porque queria ouvi-la dizendo seu nome e que o amava (mais para frente ele quer também que ela gema e diga que está gostando do sexo).
Enfim, como já ficou claro, há um total desequilíbrio. Mentiras vão se acumulando, Rory decidindo as coisas por Daye sempre com a justificativa de que era para evitar uma briga (quando é evidente que o que ele temia mesmo era a negativa). Eu acredito que depois da metade do livro é difícil justificar qualquer ação dele, mesmo que sempre voltemos ao ponto de partida, o garoto solitário abandonado por todos. E é difícil de justificar porque é uma história que todo mundo já ouviu antes, mesmo que não necessariamente com os mesmos elementos. É fantasia falando da realidade.
A questão da agência e do consentimento inclusive tem um ponto bem interessante. Daye tem vontade própria, tem sentimentos – ela sofre quando Rory está longe, ela quer Rory sempre por perto e feliz. Mas por causa da madressilva ela não pode negar qualquer coisa que Rory peça. É algo que ele discute com os amigos e parece não enxergar ele mesmo a solução (como dar agência para alguém que tem compulsão de fazer tudo que você pede?), por mais simples que seja: ouvir e respeitar as vontades de Daye.
“You don’t get to decide I need to be fixed.” Her voice cracked, “Rory, you don’t get to choose only the me that’s the most comfortable for you and called it love.”
Eu adorei o que foi feito com a porção final da história, que fica tensa ao ponto de você não conseguir largar o livro até chegar na última página. A autora brinca com o tempo de um modo que o leitor fica realmente torcendo para que Daye consiga fazer o que precisa antes da chegada de Rory. E o desfecho é lindo demais. Porque, como já dito antes, um dos (vários) medos de Rory é que Daye só o amasse por causa da madressilva. Nós descobrimos que não, ela realmente o amava, mas ele jamais saberá.
Enfim, adorei. É um romance de estreia bem forte e vou ficar atenta para o que mais a autora escrever no futuro. E no fim das contas é curioso pensar o que é que é feito com o mito de Blodeuwedd – na história galesa, ela é transformada em coruja como punição. Em Honeysuckle, é como a possibilidade de liberdade.