The Sense of an Ending (Julian Barnes)

the-sense-of-an-ending-julian-barnes(Post originalmente publicado no Meia Palavra em 7/12/11)

Confesso que não conhecia Julian Barnes, embora ele já tenha publicado onze romances. Foi o fato de o último livro dele, The Sense of an Ending ter levado o Man Booker desse ano que chamou minha atenção para o título. A sensação que ficou ao ter acabado o romance em questão foi um misto de alívio por saber que tenho mais do autor para conhecer e arrependimento por nunca ter lido algo dele antes. Não dá para economizar elogios, é realmente um livro fantástico.

E como todo livro bom, falar do enredo pode ser perigoso, passar uma falsa ideia de que é simples. Cabe então frisar que embora The Sense of an Ending gire em torno das memórias de Tony Webster, especialmente em seu relacionamento com seu primeiro amor Veronica e sobre sua amizade com Adrian, ele é muito mais do que isso. Há camadas e camadas nesse romance, muito para se absorver. Tanto, que após lido há uma sensação de urgência em encontrar mais alguém que também o conheça para poder conversar sobre ele. Continue lendo “The Sense of an Ending (Julian Barnes)”

Filmes em 2013 (Parte I)

(Então que ainda não consegui pensar em um nome melhor do que “Cinema com mamadeira” para minha lista de rapidinhas cinematográficas, portanto ficaremos com o “Filmes em 2013” por enquanto.)

clubedoscincoO Clube dos Cinco (The Breakfast Club, 1985): Então que um dos pontos positivos (ou negativos) do Netflix é que você revê MUITA COISA. Você vê o título x e pensa “Puxa, esse filme era tão legal!” ou ainda, “Nossa, faz tanto tempo que nem lembro se vi mesmo”. O Clube dos Cinco se enquadra no segundo caso. Juro que não marcou minha memória, embora seja quase certeza que eu assisti. A ideia de colocar cinco jovens que aparentemente nada tem em comum fechados em uma sala até que descubram como são parecidos é bem bacana, é o tipo de filme que não precisa nem de um remake, já que os esteriótipos são tão atemporais. Mas vá lá, o melhor mesmo é a conclusão com Simple Minds tocando Don’t you (forget about me). Continue lendo “Filmes em 2013 (Parte I)”

As aventuras de Pi (Yann Martel)

AS_AVENTURAS_DE_PI_1355401498PComo comentei no post em que falo sobre o filme As aventuras de Pi, estava com uma birra gigante com essa história por conta de todo o bafafá sobre o autor (Yann Martel) ter plagiado um livro de Moacyr Scliar chamado Max e os Felinos. E como ficou bastante claro para quem me ouviu falar sobre a adaptação, a birra acabou porque me encantei completamente com a história, o que acabou fazendo com que o livro “furasse a fila” das leituras pendentes. Neste post falarei sobre o livro, sobre o plágio e sobre como minha visão do filme mudou após ler a obra – mas vamos por partes.

1. O filme após a leitura

Eu adorei o filme. É meu queridinho para o Oscar, por mais que eu saiba que ele não tenha café no bule para ser o grande ganhador da noite. E como andei sendo bem ranzinza com algumas adaptações (As vantagens de ser invisível e O lado bom da vida, mais especificamente), achei que cabiam alguns comentários, até para deixar claro que eu não sou aquele tipo de bocó que não consegue perceber que é óbvio que adaptações são diferentes dos livros.

A questão é: tomo o trabalho de Ang Lee com As aventuras de Pi como modelo de um bom roteiro adaptado. Coisas foram deixadas de lado? Claro. Coisas foram alteradas? Evidente. Mas a essência da obra foi captada, o que a fez dela algo especial (ou seja, uma história que merecia ser contada), está lá.  Continue lendo “As aventuras de Pi (Yann Martel)”

As Virgens Suicidas (Jeffrey Eugenides)

virgensNota: Este post foi originalmente publicado no Meia Palavra em 08/05/2012. Trago agora para o Hellfire porque, pelo menos de acordo com o site da Livraria Cultura, hoje o livro sai em nova tradução (de Daniel Pellizzari) pela Companhia das Letras, o que vale a divulgação. Lembrando que a tradução que li foi feita por Marina Colasanti, e saiu pela L&PM através de acordo com a Rocco.

Por mais que algumas pessoas pensem que boas histórias são escritas como que em uma enxurrada criativa vivida pelo autor, a verdade é que pelo menos nos bons livros nada é por acaso. Para explicar meu ponto de vista, dou este exemplo: o que seria de Dom Casmurro se ao invés de um narrador-personagem (Bentinho) tivéssemos um narrador em terceira pessoa, onisciente e que não atribuísse qualquer juízo de valor aos acontecimentos descritos? Bom, obviamente que Capitu não seria lembrada por tantos brasileiros (mesmo os que se traumatizaram com as aulas na escola). E digo isso porque se As Virgens Suicidas é um livro tão hipnotizante, é justamente por causa das (ótimas) escolhas de Jeffrey Eugenides ao contar os mistérios envolvendo os suicídios das meninas Lisbon. Continue lendo “As Virgens Suicidas (Jeffrey Eugenides)”

Documentando nossos momentos

Há tempos que tenho pensado sobre algo que li no blog da Amanda Palmer, no post em que ela falava sobre seu casamento com Neil Gaiman. O post todo é lindo, independente de você gostar ou não do casal, vale a pena ler, mas fiquemos com o trecho em questão. Diz Amanda Palmer:

i don’t want to live to document my moments. i don’t want to see a sunset and reach for my iPhone. i don’t want to live my life and love my loves inside out. i fear, sometimes, that i do. i fear for all of us. and in these moments, i find non-action is the only antidote. or something like that.

Eu acho que entendi direitinho o que ela quis dizer, porque eu tenho um medo parecido. Hoje em dia, ao mesmo tempo que a internet acaba nos aproximando de modos que antes seriam difíceis de imaginar (do tipo: acabo de enviar um tweet para uma pessoa do Rio Grande do Sul e deixar um comentário no facebook de uma pessoa do Rio de Janeiro), por outro lado parece nos afastar do mais básico, que é viver o momento. Não por acaso temos aquela famosa piadinha de How I Met Your Mother:

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Sherlock (BBC)

sherlock1Acho que estava entre 1994 e 1995, então tinha 13, 14 anos e muito tempo livre. Tinha também já um certo gosto pela leitura, que minha mãe incentivava seguindo este acordo: uma vez por mês eu podia ir na livraria e escolher um livro para levar para casa. Não sei bem por quantos meses isso funcionou, mas sei bem de uma coleção de livros de Sir Arthur Conan Doyle que só consegui por causa desse acordo. Ficava esperando ansiosa até o próximo momento em que entraria na Ghignone da Praça Osório e levaria mais um livro com as aventuras de Sherlock Holmes.

Foi uma fase importante para mim, como leitora. Porque me apaixonei pela Inglaterra vitoriana descrita por Conan Doyle, e a partir disso quis ler mais livros desse período. Digamos assim: foi por causa dele que cheguei aos meus primeiros clássicos. E eis que passei um bom período completamente obcecada pela personagem. De ficar feliz de ter a sorte de gravar em uma fita vhs Dressed to Kill, com Basil Rathbone como Sherlock (e na minha cabeça ele sempre foi “o” Sherlock), por exemplo. Continue lendo “Sherlock (BBC)”

A idade dos milagres (Karen Thompson Walker)

A_IDADE_DOS_MILAGRES_1342812647PEu não sei bem se a culpa é exatamente de Hollywood, mas fico com a sensação de que toda vez que temos em mãos uma história que é situada em um cenário completamente diferente do que temos como nosso “normal”, na maior parte das vezes esse mesmo cenário é apenas isso – um entre tantos elementos da narrativa. É mais ou menos assim: algo TEM que acontecer, caso contrário, não vale a pena ler a história. Então temos protagonistas que partem em busca de um modo do evitar a catástrofe global, ou aqueles que simplesmente já estão habituados com a nova realidade e portanto enfrentam qualquer outro conflito dentro de novas condições. Mas você pode contar nos dedos os livros como A idade dos milagres, de Karen Thompson Walker, que parecem não querer cair na armadilha da ação pela ação e, com isso, conseguem trazer uma história que poderá agradar até aqueles que não são muito fãs de ficção científica.

A protagonista da história é Julia. Considerando outros livros de enredos parecidos, ela poderia ser uma cientista que trabalha para o governo dos Estados Unidos, ela poderia ser uma fora-da-lei que tem alguma perícia única que será capaz de salvar nosso planeta. Mas em A idade dos milagres, Julia é apenas uma garota de 11 anos, que em uma manhã de um final de semana fica sabendo com seus familiares através da notícia no plantão do jornal que o planeta Terra está rodando mais lentamente, e que ninguém ainda tem respostas sobre o que motivou essa mudança, como fazê-la parar ou se ela vai parar.

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A culpa é das estrelas (John Green)

a-culpa-e-das-estrelas-203x300(Ok, acho que já deu para entender e no próximo post nem precisará mais desse parágrafo introdutório. O post a seguir foi publicado originalmente em outubro de 2012 no Meia Palavra, que is kaput. Como por um período eu parei de publicar aqui as coisas que escrevia lá, estou trazendo aos poucos esse conteúdo, pelo menos para deixar registrado aqui o que achei mais relevante.)

Pode parecer estranho dizer isso, mas fui pega de surpresa por A culpa é das estrelas, de John Green. A parte estranha da informação diz respeito ao fato de que este não é um livro obscuro lido por poucas pessoas, daqueles que chegam em suas mãos sem qualquer informação e te pegam de surpresa. Não, comigo não foi por aí. Desde o lançamento lá fora eu já ouvido falar muita coisa sobre A culpa é das estrelas, com adjetivos que traziam variações do termo “apaixonante”, então é evidente que minhas expectativas estavam lá no alto quando finalmente comecei a ler. E aí  foi um tanto frustrante começar a leitura e perceber que bem, o livro não era tudo aquilo. Por que diabos as pessoas gostavam tanto? Parecia morno, e mesmo uma repetição de muita coisa que já tinha visto em outros livros YA. Além disso, confesso que mesmo que uma doença incurável justifique um amadurecimento precoce, o modo como Hazel e Augustus se comportavam e falavam me soava um tanto artificial e em alguns momentos até irritante: “não posso admitir isso porque sou um adolescente”, diz um deles em determinado momento.

Sim, Augustus aparecia como uma personagem bastante cativante, mas enfim, faltava uma fagulha, alguma coisa ali que justificasse a razão pela qual todo mundo parecia amar o livro. Entendam: eu não estava odiando, só não estava achando que merecesse tanto elogio. E então Hazel e Augustus vão para Amsterdam buscar respostas do autor de uma obra que os dois adoravam e tudo muda de figura. TUDO. Entendi os elogios e eu mesma acabei me encantando pela história. Aquele começo que eu achei sem sal então faz todo sentido. Mais do que isso, torna-se fundamental para um efeito que John Green aparentemente queria causar. E como falarei do tal efeito daqui para frente, peço para quem não leu o livro que pare neste parágrafo, porque A culpa é das estrelas é um daqueles casos em que quanto menos você sabe sobre a obra, melhor. Continue lendo “A culpa é das estrelas (John Green)”

Guerra Mundial Z e Meu namorado é um zumbi: ou, “Das adaptações”

ZombieLove-1Nem vou entrar nos méritos da obviedade de uma adaptação cinematográfica de um livro não ser exatamente igual ao livro (consigo pensar em poucos casos em que isso de fato ocorreu), mas estava pensando aqui sobre dois lançamentos de 2013 que têm zumbis no enredo, e em como essa questão da adaptação pareceu trabalhar de formas diferentes para cada um.

Vamos começar com Meu namorado é um zumbi (estreia prevista para 8/2), que é baseado no livro Sangue Quente. Pelas primeiras notícias, quando ainda achava que o título aqui no Brasil seria Sangue Quente também, pensei: “O conto é genial, o livro é maizomeno, o filme será um cocô”. Aí apareceu um trailer que fez com que eu mudasse de ideia, esse aqui: Continue lendo “Guerra Mundial Z e Meu namorado é um zumbi: ou, “Das adaptações””

Django Livre

django-livre-cartaz-nacionalVerdade seja dita, passei dias me enrolando para assistir ao filme mais recente de Quentin Tarantino, Django Livre. Eu via alguma notícia sobre o filme e antes mesmo de me empolgar e procurar mais informações, já pensava: “poutz, mas nem gostei tanto assim dos últimos”. E enrolei, enrolei, enrolei até que finalmente assisti. E aí lembrei de todos os motivos que me faziam ficar animada quando lia algo sobre “um novo filme do Tarantino”.

Eu acho que o que mais me agradou em Django foi o cuidado com o roteiro. Eu gostei de Bastardos Inglórios, mas não lembro de diálogos que eu pensasse FOOOOOOODA como o entre Schultz e Candie falando sobre Alexandre Dumas. As frases curtas e de efeito ainda estão lá, como já provaram as ‘n’ piadas sobre “Django” ser com “d” mudo (aqui tem um exemplo disso), mas a sensação que dá é que está tudo melhor amarrado, mais fluido, menos forçado. O filme tem quase três horas que passam quase sem que você sinta (embora eu tenha percebido uma ligeira quebra no ritmo ali um pouco depois da primeira hora) – esse tipo de coisa não acontece por acaso.

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