O lado bom da vida

lado-posterO leitor é um adivinhador. Inconscientemente enquanto lemos estamos sempre tentando antecipar o que vem a seguir: qual a próxima ação da personagem, quando o autor explicará alguma condição dessa e assim vai. Mesmo quando os temidos “spoilers” são revelados, ainda assim o processo de adivinhação continua: ok, você sabe que “x” acontecerá – mas quais os eventos que levarão até “x”? Muitos autores construíram suas maiores obras partindo justamente dessa dinâmica do leitor com o texto, buscando inclusive romper com as expectativas mais óbvias. Outros, criam a expectativa através dos famosos “ganchos” que finalizam um capítulo o outro.

Porém, há os que buscam de certa forma colocar o leitor na mesma condição de seus protagonistas. Aquela sensação de pegar “o bonde andando” e ter que se atualizar sobre o que andou acontecendo, a estranheza ao estar em um ambiente que deveria ser familiar mas que não é mais. É exatamente o que Matthew Quick faz em seu romance de estreia, The Silver Linings Playbook (publicado lá fora em 2008 e chegando no Brasil agora pela Instríseca como O lado bom da vida). Situando a história no momento em que o protagonista Pat está deixando um hospital psiquiátrico, e fazendo com que essa personagem seja também o narrador da história, revivemos um sentimento de termos que primeiro encaixar peças de nosso passado para então partir para a brincadeira de adivinhação sobre o que virá a seguir.

Pensando de um modo seco, O lado bom da vida é até bem simplório. Não sei até que ponto a linguagem adotada por Quick é um recurso de construção de personagem, ou é o estilo mesmo (considerando a parte em que lemos algumas cartas de outras personagens, tendo um pouco para a primeira opção), mas não há grandes desafios na leitura: ela é, acima de tudo, um entretenimento. E tal como você fica preso do começo ao fim a um romance de Agatha Christie para saber quem cometeu o crime, Quick prende sua atenção até o fim por uma série de pequenos mistérios que vão se construindo parte porque depende de eventos que Pat não presenciou ou não recorda, outra parte porque são momentos que o narrador deliberadamente omite em sua história.

Por exemplo: ao começar O lado bom da vida, você sabe que há algo de errado com Pat, mas não sabe o que é. Quando descobre, o que era um segredo se desdobra em outros menores, como o que causou a ida de Pat para o hospital psiquiátrico, ou mesmo por que seus pais parecem estar a todo momento escondendo detalhes sobre o que aconteceu enquanto ele estava internado. Tento aqui não entrar em muitos detalhes do enredo porque acredito que no caso do livro, é parte do charme dele chegar bem às cegas, sem saber muito. Digo isso porque foi assim que embarquei nessa história, sabendo um pouco por cima mas que na realidade já tinha esquecido, e curiosa para ler já que o filme tinha sido indicado para o Oscar (e eu gosto de ler antes de ver o filme, confesso).

No geral, é uma história que prende a atenção (pelo motivo que já mencionei), boa para passar o tempo mas que não traz nada de extraordinário (embora eu tenha gostado bastante dos trechos em que Pat comenta sobre os livros de Literatura Norte Americana, ou daquele em que ele faz uma montagem para acelerar a narração sobre como aprende a dançar), mas é isso aí: bom entretenimento. Mas terminada a leitura fui lá conferir o filme, até porque ele recebeu boas indicações para o Oscar, então ruim não poderia ser, certo?

Porém, entra aí a parte do que é a alma do livro, a questão de ir descobrindo aos poucos, junto com Pat, os elementos da história. No filme O lado bom da vida não há nada disso – tudo é colocado de forma bem clara, sem mistérios. Nesse sentido confesso que fiquei um pouco decepcionada: como sempre digo, sei que adaptações são diferentes e que é virtualmente impossível conseguir reproduzir na tela exatamente o que havia nas páginas. Mas do mesmo jeito, acredito que há decisões boas ou ruins, seja sobre o roteiro ou sobre como a história é montada. Aqui, a decisão de David O. Russell (roteirista e diretor do filme) em cortar os pequenos mistérios envolvendo Pat acabou tirando o brilho da história, transformando mais em um romance entre duas pessoas deslocadas do que qualquer outra coisa.

Muito acabou ficando de fora, não só o que Pat não sabe sobre seu passado. Por exemplo: a relação do protagonista com o pai é muito mais complicada no livro. No filme, não sei se para tornar a personagem de De Niro mais simpática para a audiência, a questão toda se resume ao fato de o pai querer o filho por perto durante os jogos do Eagles porque acredita que isso traz sorte. Outra coisa é o próprio processo de aproximação entre Pat e Tiffany, recheado de silêncios nos livros, mas “imposto” pela personagem de Jennifer Lawrence no filme.

A impressão que fica é que o diretor teve receio que o público não fosse conseguir digerir a história tal como ela é. Que várias cenas com Pat correndo e sendo seguido em silêncio por Tiffany, ou mesmo sofrendo com os silêncios do pai não seriam palatáveis. E não é só isso que faz com que eu tenha impressão de que o diretor subestima o público. Tem uma cena, logo no começo, em que a câmera mira os peitos de Tiffany, como para dizer “Olha, o Pat está olhando para ela daquele jeito, sacou, sacou?”, e como que para confirmar que a audiência captou a mensagem, ainda faz Tiffany dizer depois “Eu vi como você me olhou”. O mesmo recurso se repete em uma conversa entre Pat e Cliff, aí o foco são as mãos de Pat, para mostrar como ele está nervoso. Enfim, acabou me parecendo um pouco covarde.

Mas o engraçado é que lá para frente você vai se deixando levar e o filme acaba não sendo uma experiência tão ruim assim. Se ele erra em outras ‘n’ questões, gostei muito de como O. Russell aliviou um tanto o fim e, principalmente, tirou aquele momento de completa forçação de barra em que um Pat todo machucado acaba chegando por acaso na casa de um amigo que conheceu enquanto estava internado, como acontece no livro.

Então fica a mesma sensação de A importância de ser invisível, de um filme ruim como adaptação mas tolerável se vendo como algo separado. Mas vocês vão me perdoar: de todas aquelas indicações para o Oscar ali, não acho que nenhuma tenha sido de fato merecedora. Adoro a Jennifer Lawrence e o De Niro, mas eles não fizeram o melhor deles ali, não. Jacki Weaver teve sua importância na história mutilada pelo roteiro e Bradley Cooper foi, por sua vez, “poupado” pelo roteiro de ter um desafio muito maior. O que juntando a+b já dá para entender que também não achei a indicação para roteiro adaptado justa, ceeeerto? Hmmkay. Mas considerando minha boca santa que sempre erra, é provável que vocês tenham aí o grande campeão da noite.

14 comentários em “O lado bom da vida”

  1. Já eu detestei tanto o filme que nem sei por onde começar. Mas o que me deu raiva mesmo foi o que fizeram com a apresentação de dança, que poderia ter sido uma cena linda…

    1. Ficou parecendo cena de sessão da tarde, né? Eu achei que toda aquela parte da dança foi tão bem elaborada no livro (desde o treinamento até a apresentação), até a emoção de quando ele vê os amigos torcedores na plateia – o que não tem no filme. Eu sei lá. Discordo de todas as indicações, mas a mais injusta mesmo é de roteiro adaptado, by far.

      1. A dança é a única forma que a Tiffany tem de expressar os sentimentos dela, né? eu adoro a Jennifer Lawrence, mas a Tiffany dela me pareceu meio rebeldezinha sem causa. Além de ser jovem demais para o papel (me parece que no livro o Pat menciona sobre ela ser mais velha que ele, não?)

        1. Tive a mesma sensação. E sobre ela ser mais velha, eu não lembro se isso é mencionado, mas de qualquer forma achei a Lawrence meio nova para o papel mesmo.

          (e uma cena que me incomodou profundamente foi a do abraço dos dois, no começo. um “veja como sou impulsiva!” meio forçado, sabe? no livro dava a ideia de que o abraço tinha sido algo diferente)

    1. Sabe que eu pensei um pouco nisso, Marcio? Porque tanto o Pat quanto o Charlie têm dificuldades com a vida social, os dois têm um evento no passado que acabou causando um problema psicológico, os dois têm a lista de leitura… e os dois têm adaptações ruins para o cinema hahahaha

      Não, sério. Eu acho que dá até para traçar um paralelo, sim. Mas na comparação eu acho que Perks sai ganhando.

      1. Oi
        Inspirado nesse post, eu assisti os dois filmes em sequência. Esqueça o que mencionei sobre a semelhança entre os dois filmes – foi apenas um comentário estúpido que vi em uma resenha, nem me lembro de que site.

        Gostei de ambos (não li os livros, então não posso falar sobre qualidade da adaptação). Sobre o Lado bom da Vida, fico com o comentário do site da Veja (na verdade, não li a matéria, só me recordo de ter visto o título): um roteiro um tanto convencional, salvo por um elenco extraordinário.

        A propósito, o livro menciona o que diabo o Pat cochicha no ouvida da ex-mulher?

        Agora, perks of being a wallflower tem uma certa sutileza, uma profundidade bem maior. Gostei bastante e me arrependo de não ter lido antes o livro.

        Valeu pelas discas

        1. Oi Marcio! Não tem cochicho nenhum – aí foi uma tentativa do filme de copiar a Sofia Coppola no final do Lost in Translation, acho. A relação entre Pat e Tiffany é beeeem diferente, mesmo quando chega perto do desfecho.

  2. Acabei hoje de ler o livro. Já tinha visto o filme, então o grande segredo para mim não era segredo, mas ainda assim achei fascinante como as coisas vão se construindo de forma diferente a ponto de eu ficar realmente preocupada em como tudo acabaria no livro. Minha amiga disse que o final era diferente, então pude saborear a leitura como um prazer novo.

    Eu amei o filme. Talvez porque tenha visto antes de ler o livro, então não fiquei comparando com nada, apenas aproveitei a história e os personagens. Achei a caracterização de todo mundo muito boa e acho sim que a Jennifer fez um trabalho estupendo, apesar de sua Tiffany ser bem diferente da Tiffany do livro. Mas isso é porque a forma como o filme foi contado traz uma Tiffany diferente e com loucuras expressadas de formas um tantinho diversas.

    Quanto a livro em si, fiquei um pouco feliz por já conhecer Pat do filme, caso contrário eu ficaria muito irritada com o coitado. A sensação que eu tinha é a de estar lendo os pensamentos de um guri recém saído da infância e isso me tirava do sério. Mas aí eu lembrava do Bradley Cooper e que o Pat tinha de fato 34 anos e ficava mais fácil digerir. A bem da verdade é que nossa mente quando está totalmente internalizada é bem diferente de como ela aparece para os outros….fico pensando no que as pessoas diriam se tivessem a oportunidade de seguir exatamente a minha linha de raciocínio, sem as máscaras e filtros naturais que uso no momento que externalizo o que passa aqui dentro.

    Seja como for, livro e filme foram duas experiências completamente diferentes para mim e gostei de ambas. E apesar de não achar livro/filme o suprassumo da qualidade, é bem interessante observar a história de uma pessoa com problemas psicológicos sérios pelo ponto de vista desta pessoa. Não de um narrador externo, não de outras pessoas que convivem com ela, e nem mesmo da voz externa desta pessoa, mas sim do seu eu íntimo e todo o turbilhão de sentimentos, sensações e confusões que a mente desta pessoa apresenta. Isso foi um dos maiores trunfos da história. Irritante as vezes, pela simplicidade caótica e juvenil dos pensamentos, mas ainda assim brilhante pela proximidade e humanidade que experimentávamos.

    1. Mica, seu ponto de vista sobre o filme são bem interessantes – fiquei até com vontade de rever, mas com isso em mente.

      Sobre a atuação da Lawrence, acho que meu maior problema é que o critério de comparação é a Riva. Não vou engolir esse Oscar dela, não. A atuação é boa, mas não é nem de longe melhor do que a da Riva em Amour =/

      1. Não assisti Amour ainda. Confesso que minha torcida era pela Naomi Watts porque eu a achei incrível em O Impossível. Mas gostei da Jennifer ter ganhado. Na verdade acho que esse foi o primeiro Oscar que fiquei realmente satisfeita com os ganhadores em geral, mesmo quando não eram os que eu tinha preferência. Sei lá, tive a sensação de que tudo estava tão bem equilibrado que não tinha como reclamar das escolhas.

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