As Esganadas (Jô Soares)

Você já deve ter passado por isso em algum momento: depois de anos reencontra um amigo, no começo fica achando que não terão muito assunto porque afinal, faz tempo que vocês não se veem. Mas mal começam a conversar e a sensação que tem é que não passaram mais do que um dia sem se encontrar, tamanha a familiaridade entre vocês. Digo isso porque foi mais ou menos o que senti ao ter em mãos As Esganadas, novo romance de Jô Soares.

Tem mais de 15 anos da última vez que li algo do Jô, no caso foi O Xangô de Baker Street, que trazia Sherlock Holmes para o Brasil em uma história muito divertida. No caso de As Esganadas, não foi preciso ler muitas páginas para ter aquela (boa) sensação de reencontro, o Jô Soares que eu tinha conhecido tanto tempo antes estava ali novamente, em uma fórmula até bem semelhante ao do primeiro romance dele, com um crime e bastante humor, usando como recorte algum período histórico e algumas personagens emprestadas da ficção e da própria História.

O romance se passa no fim da década de 30, começo do Estado Novo aqui no Brasil. É quando algumas mulheres gordas começam a ser assassinadas, tendo em comum apenas o sobrepeso. Poucas pistas para o delegado Noronha, que acaba ganhando a ajuda de um ex-policial lusitano, Tobias Esteves. Para se ter noção de como Jô Soares brinca com o real e o fictício, esse Esteves é o mesmo “Esteves sem metafísica” que aparece nos versos deA Tabacaria de Fernando Pessoa (ou melhor, de seu heterônimo, Álvaro de Campos).

Sobre o crime, o leitor sabe desde o princípio quem o comete, então não é uma daquelas histórias no estilowhodunit, em que o leitor acompanha o detetive para juntos descobrirem a solução do mistério. Nesse caso, o leitor acompanha Noronha, Esteves, Calixto e a jornalista Diana para saber como é que eles chegarão ao assassino – o que acaba emprestando um pouco de ação para a narrativa, especialmente quando eles chegam perto do antagonista sem ainda saber que é ele que procuram.

De qualquer modo, o tom principal do romance é o humor, seja nas piadas marcando as diferenças na fala do brasileiro e do português, seja pela ironia afiada de Jô Soares para descrever certas passagens da história. É de um humor tão gostoso que o livro acaba fluindo muito bem, sem que você sequer perceba que está virando página após página e quase chegando ao fim. A melhor palavra para defini-lo seria divertidíssimo.

E claro, há além de tudo isso o pano de fundo histórico, envolvendo Getúlio Vargas e outros acontecimentos daquele fim da década de 30. Talvez o melhor evento usado por Jô Soares na trama é um jogo do Brasil na Copa do Mundo, cuja narração vai sendo alternada pela ação do assassino, chegando cada vez mais perto de uma nova vítima. O efeito desse trecho em questão é sensacional, certamente um dos pontos altos da leitura.

Tenho certeza que para quem está conhecendo a obra de Jô Soares através de As Esganadas terá algumas horas de diversão garantida. É um livro leve e delicioso (por favor, nenhuma intenção de trocadilho!), ótimo para passar o tempo. E já deixo a sugestão caso ainda não conheça, O Xangô de Baker Street segue essa mesma linha e também vale a pena conferir.

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