Tipos de perturbação (Lydia Davis)

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Ok, isso vai parecer estranho, mas vamos começar com os significados da palavra “Perturbação”, de acordo com o dicionário priberam:

perturbação
s. f.
1. Ato ou efeito de perturbar.
2. Desarranjo.
3. Transtorno.
4. Confusão.
5. Alteração.
6. Desordem.
7. Tontura.

perturbar –
(latim perturbo, -are)
v. tr.
1. Mudar, resolver ou alterar a ordem, o concerto, a quietação ou sossego de.
2. Abalar, agitar, transtornar (ex.: perturbar o sossego).
3. Interromper, confundir.
4. Envergonhar.
v. pron.
5. Perder a serenidade de espírito.
6. Atrapalhar-se.
7. Ficar envergonhado; envergonhar-se.

Agora pense o que seria em termos literários captar algo tão abstrato como isso e passar para o papel de uma forma que seu leitor, ao ver as situações descritas, consiga reconhecer imediatamente o que está sendo dito, ou ainda (e mais importante) se reconheça ali. É o que Lydia Davis faz em seu Tipos de perturbação, lançado aqui no Brasil em abril deste ano pela Companhia das Letras. Os textos da coletânea são recortes precisos de momentos aparentemente ordinários, mas que chegam marcados pela estranheza causada pela perturbação que dá nome ao livro.

São ao todo 57 narrativas (eu não contei, estou copiando aqui o número da página da Companhia, há!), a maioria breve – e quando digo breve é breeeeeve mesmo, naquele estilo conto-haikai do Dalton Trevisan. Um exemplo é “Índice remissivo” que conta apenas com a frase: “Cristã, não sou”, assim, sem ponto nem nada. Peguei esse exemplo em questão não por ser o mais curto, mas por representar bem dois elementos constantes nesse livro de Davis: uma dose de senso de humor e bastante experimentação.

No caso do senso de humor, vale frisar que é bastante sutil. Davis não é piadista, ela é espirituosa, naquele sentido de “witty” mesmo, que o texto curto acaba possibilitando. Acho relevante dizer isso porque embora Davis não largue mão do senso de humor, muito de suas histórias são marcadas pela melancolia. Eu sei que é estranho dizer isso, humor e melancolia juntos, como se tivéssemos um exemplo de entropia com palavras, então cito aqui “Cabeça, coração” que parece representar bem o que quero dizer:
Cabeça, coração
Coração chora.
Cabeça tenta ajudar coração.
Cabeça explica a coração, mais uma vez, como são as coisas:
Você vai perder aqueles que ama. Todos eles vão desaparecer. E até mesmo a Terra vai desaparecer, um dia.
Coração sente-se melhor.
Mas as palavras da cabeça não duram muito nos ouvidos do coração.
Coração não tem experiência com isso.
Eu quero eles de volta, diz coração.
Cabeça é só o que coração tem, agora.
Socorro, cabeça. Socorra coração.
A ideia aqui é extremamente triste, é uma pessoa lidando com a perda (provavelmente morte) de uma pessoa amada, tentando racionalizar para escapar da dor. Mas o modo como Davis constrói esse momento acaba sendo leve, através da personificação de partes do corpo que relacionamos ao sentimento (coração) e à razão (cabeça). Quando falo do humor sutil da autora é por colocações como aquele “mais uma vez” logo no início, indicando que aquela dinâmica entre cabeça e coração é constante. Vamos lembrar: é um texto curtíssimo, nada ali está por acaso.

Davis também apresenta alguns textos mais longos, divididos em capítulos. Acho que aqui temos dois casos marcantes da experimentação que comentei anteriormente:  “Saudades: um estudo de cartas escritas por alunos de uma classe do quarto ano primário desejando melhoras a um colega”  e “A sra. D. e suas empregadas”. No primeiro caso, o conto é exatamente isso, um estudo de cartas de crianças. Senti aqui uma tentativa de sátira de textos acadêmicos (secos, desapaixonados), o problema é que ela atinge o objetivo justamente sendo enfadonha como os textos de pesquisa costumam ser. O “conto” precisa ser longo, caso contrário o leitor não conseguirá captar a ideia. A perturbação aqui não é das personagens, mas de quem lê.

No caso de “A sra. D.” repete-se o tom monótono e predominantemente descritivo, mas aqui o sentido é outro: Davis parece construir uma crítica às dificuldades da mulher de manter a vida em família (cuidar da casa, filho, etc.) e ao mesmo tempo conseguir criar, produzir alguma coisa. É uma releitura dos problemas levantados na história da irmã de Shakespeare da Virginia Woolf, no final das contas, mas contada de um jeito completamente diferente.

Ainda no campo de “ser mulher” e também nos contos longos, chego aqui ao meu favorito, “Coisas que descobrimos a respeito do bebê”. A identificação foi muito forte por eu há pouco tempo ter passado por situação semelhante à da narradora, de ser mãe pela primeira vez e ir aprendendo aos poucos coisas que não nos contam porque dependem unicamente da convivência com o filho. É um tanto “bittersweet” porque ao mesmo tempo que tem momentos em que a mãe está conhecendo a criança, ainda mostra a quebra da rotina, o exercício constate de adaptação a uma nova realidade onde você não é mais o centro dos eventos: a perturbação volta ao personagem do conto, mas com a identificação, de certa forma isso se reflete também no leitor. Para reforçar o que quero dizer, convido qualquer mãe a ler a citação abaixo e NÃO se identificar:
Você se acostuma a não terminar nada. Por exemplo, o bebê está olhando fixo para uma bola vermelha. Você está na pia lavando uns rabanetes bem grandes. O bebê começa a se agitar quando você acabou de lavar quatro e ainda faltam oito.
E é esse o truque de Davis: não há nada de extraordinário, não temos plots twists ou grandes eventos. São pequenos momentos cotidianos, tal como abrir a porta para um gato estando completamente distraído ou calculando o tempo que você tem disponível para ver esculturas em uma galeria de arte. O charme de Tipos de perturbação é que Davis parece conseguir extrair com pinça um sentimento ou até um pensamento que às vezes está imerso em outros tantos com os quais lidamos diariamente, do tédio à tristeza, e provocar no leitor exatamente todas aquelas definições atribuídas ao verbo perturbar que constam no começo deste post: confundir, agitar, mudar, alterar a ordem.

Foi uma experiência bastante interessante em termos de leitura, porque de certa forma a autora brinca com o leitor o convidando para sair da ordem, do banal. O conto que mais se aproxima do que esperamos de uma narrativa normal por acaso tem como título “Kafka prepara o jantar”, o que acho que por si só já revela o que poderá ser lido ali. Mas antes que isso comece a soar ao tipo de leitura hermética, difícil, vou explicar: não é assim. A linguagem é simples, e a leitura flui muito bem. E se Davis consegue provocar o leitor é justamente por conseguir criar essa ponte entre o banal do nosso dia-a-dia e as diversas possibilidades da Literatura.

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