Submarino (Dunthorne x Ayoade)

submarinoVolta e meia quando você assiste a um filme baseado em um livro, o comentário é qualquer coisa como “É legal, mas o livro é melhor”. É tão comum de acontecer que algumas pessoas chegam a dar de ombros, ou mesmo fazer uma cara de enfado, como se com a linguagem corporal quisesse dizer que é óbvio que o livro é melhor. A razão para isso é bastante simples: enquanto você lê, quem molda o rosto das personagens, a ambientação e outros detalhes é você (às vezes até independente do que o narrador descreve). E meu amigo, é evidente que superar nossa própria imaginação é bastante difícil. Mas aí você acha que já tem uma regra pronta e dá de cara com um caso como Submarino. Ao menos para mim, o filme é superior ao livro, muito embora a obra em si também seja legal. Aliás, note que acaba seguindo o caminho inverso do normal: “É legal, mas o filme é melhor”.

Meu primeiro contato foi com o filme, talvez valha a pena dizer, já até falei brevemente sobre ele aqui. Tinha lá um bom tempo que via imagens dele no tumblr, pensava “Hum, acho que vou gostar desse filme”, mas sempre me enrolava, até que finalmente assisti. Quando acabou, eu já estava fazendo uma busca por informações sobre o filme (incluindo aí o choque ao descobrir que o diretor era o Moss do IT Crowd), vi que era uma adaptação e naquela mesma noite já estava lendo o livro do Dunthorne. E olha, fora uma mudança aqui e outra acolá, a versão do Ayoade é BEM fiel ao original. Como é que pode ficar tão melhor? Bem, para responder isso acho melhor seguirmos aos poucos.

Submarino conta a história de Oliver, um garoto meio esquisitão e até por isso solitário que mantém seu contato social com os outros guris da escola em um mínimo que o proteja do bullying. Ele está decidido a perder a virgindade, e vem em Jordana uma possibilidade, já que ela é moderadamente impopular. Só que na tentativa de se aproximar de Jordana, algo acontece e acaba servido de oportunidade para a garota usar Oliver para se vingar do ex-namorado. Como qualquer história do tipo, é evidente que eles acabam se interessando de verdade um pelo outro, o problema é que quando as coisas começam a ficar bem entre os dois, elas ficam ruins com os pais do casal: a mãe de Jordana está com câncer, os pais de Oliver estão claramente passando por uma crise que pode acabar em separação.

Tudo o que descrevi no parágrafo anterior acontece no livro e no filme. Há algo no livro que achei interessante que é a questão do diário que Oliver inicialmente escreve para a vingança de Jordana contra o ex, acaba virando uma forma de comunicação entre ele e ela: depois de um determinado momento ele passa inclusive a endereçar o que escreve não só ao “diário”, mas também à garota. É aquele modo de ir se conhecendo e ir se entregando aos poucos, não aquela paixão óbvia que segue do primeiro olhar – e nisso o livro tem uma vantagem sobre a adaptação. O negócio é que, por incrível que possa parecer, Ayoade consegue superar a imaginação e entrega uma história com imagens e sons que tocam tão profundamente que qualquer coisa que você possa ter imaginado sobre o livro não chegará ao que você verá no filme. Uso aqui como exemplo uma das minhas cenas favoritas do filme, o encontro entre os dois quando Jordana começa a chantageá-lo. No livro, ele a encontra em uma quadra de tênis, no momento que chega ao local ela está sentada na cadeira do juiz (aquelas mais altas). Quando ela avisa que o chantageará, ele apenas descreve, como narrador, que se sentiu sem poder, porque ela estava em um trono. No filme, o primeiro encontro se dá assim:

O som do trem se aproximando parece reproduzir as batidas do coração do garoto, ou mesmo a força da presença de Jordana. Por conta da atuação de Yasmin Paige, basta um olhar e você sabe que Oliver está perdido. Não há a necessidade do artifício da cadeira mais alta representando um trono, nem de uma ameaça de chantagem. A mesma cena segue com o primeiro beijo dos dois, de novo com o som dos trens, mas agora com os flashes da câmera, atordoando um Oliver completamente surpreso pelo que acontece. E aqui vale notar a irônica sutileza do texto (tanto no livro, quanto do filme): Oliver diz que eles se beijaram até os lábios ficarem inchados. A cena é breve, e no livro também. Basta essa frase para você saber que eles passaram bastante tempo tirando fotos de beijos.

E aí se o livro ganha pontos pela aproximação por cartas, vem o Ayoade com uma sacada fantástica para representar o que ele não teria tempo de colocar no filme: Oliver fala dos primeiros dias com Jordana como se tivesse transformado suas memórias em um filme. A cena “two weeks of lovemaking” entrou em uma das minhas favoritas de todos os tempos, porque consegue transmitir tão bem o modo como lembramos dessa fase de encantamento com nossos amores. Tudo isso com a fantástica trilha sonora de Alex Turner (do Arctic Monkeys):

Mas então vem o que realmente me encantou na história, a metáfora sobre o submarino, que só aparece deforma precisa no filme – e é aí que a adaptação me conquistou. Uma das mudanças na versão para o cinema é a profissão do pai de Oliver, que no filme trabalha com biologia marinha. É o que será usado como linha para ligar a noção que Oliver tem de que ninguém nos entende, de que da mesma forma que desconhecemos profundidade do oceano também desconhecemos a das outras pessoas, e de como estar infeliz é parecido com estar submerso, como um submarino.

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Não são ideias que Dunthorne não tenha colocado no papel, a questão é que a ordem que Ayoade usa das informações acaba criando momentos não só bonitos, mas tocantes. A expressão do pai de Oliver, por exemplo (interpretado por Noah Taylor), é perfeita – não precisava nem do copo nas mãos para sabermos que ele estava afundando. E quando é a vez de Oliver, a imagem é tão forte que você deixa de lado o cinismo típico como observa o primeiro amor e lembra que sim, naquele momento das nossas vidas aquilo parece ser um caso de vida ou morte.

Acho que nas comparações é válido destacar também que o livro acontece em tempos relativamente atuais, então há troca de email e consultas em sites de pesquisa (e menções ao barulho do modem), o que não acontece na adaptação, onde os jovens na escola não têm celular, não usam internet e Oliver escuta fita em um rádio, com o que acabamos situando a história ali na década de 9o. É engraçado pensar como algo que já é tão comum para nós sequer fazia parte de nossa realidade há pouco tempo, ao ponto de conseguirmos definir o momento em que uma história acontece, não?

Mas então ficamos assim. Não quero passar a ideia errada, o livro é legal. Grifei vários trechos de ideias bem sacadas que sequer aparecem no filme, o negócio é que livro infelizmente não tem trilha sonora, nem um elenco afinadíssimo com a proposta, muito menos um diretor que consegue fazer imagens tão lindas que te fazem lembrar de como cinema é um negócio bacana não só pela história em si.  O livro saiu pela Galera Record aqui no Brasil mais ou menos na mesma época em que o filme saiu lá fora (e, aparentemente, nunca teve uma estreia oficial aqui no Brasil). Se querem um conselho, vou dizer o contrário do que normalmente digo: leiam primeiro o livro e depois vejam o filme, assim as expectativas ficam no lugar certo.

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Em tempo: sobre a trilha, ela é toda linda e como acontece com músicas feitas para um filme, têm bastante a ver com a história contada (incluindo aí o fato de estarem todas em uma fitinha que o pai de Oliver dá para ele). O negócio é que eu sou tão perdida que além de não saber que o Moss era diretor, também foi uma surpresa bem grande saber que ele era *o* diretor de Fluorescent Adolescent, um dos meus clipes favoritos e de quem de quem? Do Arctic Monkeys, banda do Alex Turner. Eita.

4 comentários em “Submarino (Dunthorne x Ayoade)”

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