Costumo (tentar) fugir da armadilha de me sustentar na biografia de um autor quando vou opinar sobre um livro. É um terreno perigoso, porque por mais que pareça óbvio que a vida de um escritor se reflete naquilo que ele cria, ainda assim não dá para esquecer os versos de Pessoa sobre o poeta ser um fingidor. De qualquer maneira, como não se surpreender com a coletânea 47 Contos de Juan Carlos Onetti, considerando aspectos de sua vida? A começar para aqueles que acreditam que educação formal está diretamente relacionada com material de qualidade: Onetti abandonou os estudos no segundo grau. E aparentemente isso não fez falta alguma em sua vida.
Ganhador do Prêmio Cervantes e indicado ao Nobel de Literatura, esse uruguaio foi de tudo: de porteiro a vendedor. Em 1930 (então com 21 anos) começou a publicar contos enquanto vivia em Buenos Aires. Os três primeiros contos da coletânea (Avenida de Mayo-Diagonal Norte-Avenida Mayo, O obstáculo, O possível Baldi) são desta fase e mostram já alguns dos elementos que se repetirão em outros textos no livro, como a melancólia noção de que se quer algo mais da própria vida, que se sonha com algo diferente do que se vive. Dessa fase o melhor é O possível Baldini, que reflete muito bem essa questão, quando um sujeito começa a contar para uma moça tudo o que nunca fora.
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Faraco abre Lágrimas na chuva: Uma aventura na URSS citando o clássico do cinema Blade Runner, para explicar o título que escolheu para seu livro de memórias. Nas palavras do androide Roy Batty, “Eu vi coisas que vocês nunca acreditariam. Naves de ataque em chamas perto da borda de Orion. Vi a luz do farol cintilar no escuro na Comporta Tannhäuser. Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva.” E apesar da explicação, e mesmo do subtítulo, a verdade é que não há como antecipar todas as surpresas que essa breve obra pode trazer ao leitor.
É uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro, de posse de boa fortuna, deve estar atrás de uma esposa. Essa frase já foi repetida e parodiada tantas vezes que o sucesso de Orgulho e Preconceito da britânica Jane Austen é simplesmente inquestionável. O livro já ganhou várias adaptações para o cinema e tv. Povoa tão fortemente o imaginário coletivo que já foi recontado com outros elementos, que vão de
Você já se apaixonou à primeira página? Comigo isso não acontece muito frequentemente, sou chata e preciso lá de umas 20 páginas para esse tipo de coisa. Mas eis que tinha em mãos a máquina de fazer espanhóis do português valter hugo mãe (é gente, é tudo assim em minúsculas mesmo), e aconteceu. Lendo as primeiras frases, fui completamente tragada pela correnteza de seus longos parágrafos, com o coração até batendo mais forte ao passar em alguns períodos (e isso não é figura de linguagem). “Há alguém por aí que pensa algumas coisas que eu também penso, mas consegue colocar em palavras com uma genialidade sem igual”, passa por minha cabeça enquanto vou virando as páginas. Pronto, me apaixonei.
Um ursinho de pelúcia é preso e julgado por uma série de crimes, sendo considerado um perigosíssimo terrorista. É essa a ideia principal que alinhará os eventos em Winkie, romance do escritor Clifford Chase e lançado aqui pela Bertrand Brasil. Considerando essa premissa, seria constatar o óbvio falar que trata-se de uma história carregada pelo nonsense. De qualquer forma, vale a pena se libertar das amarras do “mundo real” e mergulhar de cabeça nessa realidade onde ursos ganham vida e ainda precisam batalhar por ela.
Lembro de uma campanha de incentivo à leitura cujo slogan era “Quem lê viaja”, o que acaba destacando uma qualidade forte do hábito de ler, o de nos transportar para outro tempo e outro lugar durante aquele breve momento em que passamos os olhos pelo texto. Para a criança essa característica é ainda mais forte, já que ela ainda tem o vínculo com o fantástico, aquela capacidade de se deixar surpreender e de acreditar em coisas que nós adultos acabamos considerando impossíveis após determinada idade.
Já deve ter acontecido em algum momento com você. Por conta de algum livro começou a tomar gosto pela leitura, e queria sempre mais e mais. No início qualquer coisa serve, mas o gosto começa a ficar refinado e aí as escolhas começam a se afunilar. Em uma metáfora tosca, é mais ou menos o mesmo processo que fez com que durante a adolescência você tomasse vinho Sangue de Boi achando ótimo, e hoje em dia não abre garrafa que tenha custado menos de 30 reais. O equivalente dessas “garrafas de mais de 30 reais” no mundo literário são os clássicos. A questão é que nem sempre é fácil definir o que é um clássico, que dirá quais livros são clássicos e quais não são.
Publicado pela primeira vez em 2008, O Museu da Inocência é o livro mais recente do escritor e ganhador do prêmio Nobel Orhan Pamuk a ganhar tradução aqui no Brasil. O romance fala basicamente do amor de um homem sobrevivendo ao tempo, mas seria injusto reduzir a obra a apenas isso. Tal como um passeio por um museu, a realidade é que O Museu da Inocência oferece possibilidades variadas de leitura, e talvez nisso resida um dos tantos charmes desse excelente livro.
Não sou daquelas pessoas que podem dizer que começaram a acompanhar
Quando lemos um pouco sobre a literatura do século XIX, muitos dos nomes que conhecemos até os dias de hoje tinham algo em comum, que era a publicação de seus escritos em jornal. Na maior parte das vezes eram contos, ou romances públicados em capítulos tais como se fossem novela, que garantiam o ganha pão do autor e a diversão de várias pessoas em uma época sem televisão, computador ou seja lá o que as pessoas considerem entretenimento hoje em dia. Edgar Allan Poe, Sir Arthur Conan Doyle… tenha certeza, muitos desses não estariam entre nossos favoritos caso não tivessem ganhado um espaço em periódicos daquele tempo.