As melhores leituras de 2018

Quase chegando no final do ano, não tenho lá grandes esperanças de sequer terminar The Spoonbenders ainda em 2018, então acho que já dá para fechar a lista com segurança. Tanta coisa bacana este ano que confesso que tive que dar umas chunchadas na minha lista, incluindo duas regras novas (“não vale releitura”, “hq fica separado”), o que significa deixar de fora Dom Casmurro e Memórias Póstumas de Brás Cubas do Machado de Assis e As Bruxas de Salém do Arthur Miller. E as hqs estão no post anterior.

Sobre os do Machado: segundo semestre fiz uma optativa maravilhosa com o professor Luís Bueno. A ideia de ler em um intervalo curto de tempo os principais romances do Machadão foi ótima, até porque te dá uma visão diferente do todo. Enfim, acabei me reapaixonando por Machado – deve ter uns 10 anos aí da última vez que li os romances, e bater os olhos no Brás Cubas logo em 2018 é um daqueles momentos mágicos do livro certo na hora certa.

(Aliás, dessa experiência tenho que dizer: é esquisito dizer que um livro é seu livro favorito depois de tantos anos e preciso urgentemente reler alguns.)

Então é isso, lista dos favoritos logo após o pulinho – não está exatamente em ordem porque afinal, separar dez já foi complicado.

Circe (Madeline Miller): Depois que li Circe, toda vez que alguém me pedia recomendação de leitura eu perguntava “Já falei do Circe para você?”. Porque é isso, Circe é maravilhoso, não tem do que não gostar. A história é sobre a Circe da mitologia grega, a filha de Helios com uma ninfa, desde o nascimento, a descoberta da bruxaria, o banimento para uma ilha isolada, o encontro com Odisseu e depois com o filho Telêmaco. As imagens evocadas por Miller são fantásticas, há algo em sua escrita que vá lá, tem aquele toque de fala, de canto – de um aedo? Vai sair no Brasil em 2019 pela Planeta Minotauro, tradução de Isa Prospero. Quem não leu ainda corre atrás, é realmente imperdível.

As Coisas que Perdemos no Fogo (Mariana Enríquez): Chegou ano passado no Brasil, saiu pela Intrínseca. Que coleção de contos, meus amigos. E não digo só pelo terror – alguns dos contos são assustadores ao ponto de você fechar o livro e depois ficar olhando desconfiado para a porta do quarto, como se qualquer coisa pudesse aparecer ali. Mas tem o jeito como Enríquez consegue trazer desenvolver suas histórias em um ambiente totalmente familiar mesmo para quem não é do lugar. Embora para mim tenha sido realmente uma surpresa perceber o quanto temos de parecido com os argentinos, o quanto nossa história se parece com a deles, principalmente nos medos e cicatrizes deixados pela ditadura. Por sorte, falei dele aqui no blog na época que li – saudades atualizar o blog mais constantemente, blé.

The Elementals (Michael McDowell): 2018 foi o ano do terror para mim, acho que boa parte dos livros que li foram assustadores, seja pela realidade retratada (logo chego neles), seja pelo fantástico. The Elementals virou um dos meus favoritos dentro de um tipo de história que adoro, o de casas assombradas. O principal aqui é conseguir criar uma atmosfera tão tensa que mesmo a luz do dia não significava um respiro para as personagens (e para o leitor). Foi através dele que descobri a Valancourt, que tem como projeto o resgate de livros de terror e sci-fi que foram esquecidos com o tempo. Deles li também Burnt Offerings e Only Lovers Left Alive – os dois bacanas, mas The Elementals realmente segue em uma outra categoria. A obra é de 1981 e não sei se tem algum alguma editora brasileira que vai pensar em fazer algo como a Valancourt, mas fica a dica aí. Falei dele aqui no blog.

Distância de Resgate (Samanta Schweblin): Li um pouco depois de As coisas que perdemos no fogo, e foi outro que me marcou. Desde as primeiras frases (“They’re like worms.
What kind of worms?
Like worms, all over.
It’s the boy who’s talking, murmuring into my ear. I am the one asking questions.“) até o final, somos tragados para um pesadelo, esse “fever dream” do título gringo que, vá lá, foi uma bola dentro de quem pensou na hora da tradução. É aquele terreno pantanoso onde tempo e espaço não funcionam como na vida real, em que não dá para confiar em nada. Como em um pesadelo, as coisas acontecem inexplicavelmente, e desistimos de tentar fazer sentido de algumas coisas, tentamos apenas nos levar ao ponto de segurança. É um livro incômodo, sufocante mas que exatamente por isso é tão bom. Aqui no Brasil saiu em 2016 pela Record.

O Sol na Cabeça (Geovani Martins): Eu resolvi vencer meu preconceito e ler o livro do Geovani Martins porque o professor da escola onde estava fazendo estágio leu Rolézim para os alunos, e eles ficaram encantados. A saber, meu preconceito consistia basicamente em achar que era um livro que provavelmente não se sustentaria sem a linguagem adotada pelo autor (mais oralizada, cheia de gírias). É óbvio que eu estava enganada, já que o livro está aqui. Foi um dos que me fez pensar na teoria do chuveiro suicida, que um dia quem sabe eu até comento aqui. Rolou um marketing gigantesco na época do lançamento (saiu em março pela Companhia das Letras) e talvez por causa disso muita gente tenha torcido o nariz. É uma aposta arriscada das editoras, né, chamar de fenômeno literário alguém que estão vendendo pela primeira vez. A galera ~~dos livros~~ se enche de expectativa, mas, ao mesmo tempo, funciona para atiçar a curiosidade. Eu provavelmente teria deixado o livro de lado não fosse a leitura do professor e a reação dos alunos, confesso.

Those Who Knew (Idra Novey): O complicado de Those Who Knew é que vai contra minhas crenças literárias, eu realmente não gosto de misturar a biografia do autor com a obra de ficção. Mas é difícil falar de Those Who Knew e não pensar na relação que Novey tem com o Brasil e o Chile – e o quanto aquela ilha fictícia tem desses países. Lá fora os comentários estão se concentrando mais no lado “metoo” do livro: o fato de alguém que sofreu algum abuso sentir culpa quando não denuncia, a repercussão desse abuso na vida de uma pessoa e de outras tantas. Mas o que me chamou a atenção foi o lado em que aborda a ditadura, principalmente sobre as pessoas que perderam entes queridos para a ditadura. Tem um momento, lá para o desfecho do livro, que não significa absolutamente nada para quem não tem filho (ou não tem muita empatia), mas que para mim foi um soco na cara: duas mães observam os filhos brincando e de repente os perdem de vista. São segundos que eles não aparecem. Mas então eles aparecem novamente. Imagine prolongar o sentimento desses segundos por horas, dias, anos. Espero que ganhe tradução no Brasil, tem muito que ser lido (o outro livro da Novey saiu por aqui pela Editora 34 como A Arte de Desaparecer).

Space Opera (Catherynne M. Valente) Eu não consegui deixar o livro de lado depois que li o comecinho (“Once upon a time on a small, watery, excitable planet called Earth, in a small, watery, excitable country called Italy, a soft-spoken, rather nice-looking gentleman by the name of Enrico Fermi was born into a family so overprotective that he felt compelled to invent the atomic bomb.“). É um livro caótico, hilário e muito, muito musical. Decibel Jones and the Absolute Zeroes, a banda de um hit só que é chamada para defender a Terra em um show de talentos (?!!!). É o tipo de livro que eu deveria ter guardado para ler em outubro desse ano (quem viveu a angústia pré-eleição sabe do que to falando). Não sei se vai sair no Brasil, mas se o inglês estiver bom pode arriscar, a diversão é garantida. Copiando do que falei lá no goodreads: Reza a lenda que em um teste com audiência para Some Like It Hot, mais especificamente na cena em que a personagem interpretada por Jack Lemmon anuncia para o amigo que está noiva, as pessoas riam tanto, mas tanto, que acabavam perdendo algumas piadas do diálogo. Para resolver o problema, Billy Wilder deu um par de maracas para Jack Lemmon, que as usaria para dar pausas e assim permitir que o público “se recuperasse” de uma piada para a outra. Acho que foi só o que faltou no livro. Maracas.

Garotas Mortas (Selva Almada): que livro maravilhoso. É hipnótico, já no começo você é absorvido por aquela voz contando de forma desapaixonada os horrores de ser mulher, de como é viver com medo – mesmo sem nem se dar conta desse medo. Selva Almada parte da história de três mulheres assassinadas na década de 80. Poderia ser só sobre as três, e já seria assustador. Mas outras histórias vão se misturando, medos cotidianos, as humilhações, as violências. Tem um trecho em especial, onde a narradora conta de uma vez que ela e uma amiga pegaram carona para ir para casa, e como o motorista passou a ser uma ameaça para as duas: nada é de fato dito ou feito, mas a tensão é tamanha que, o deixarem o carro, as duas amigas se abraçam e choram. É apavorante, mas ao mesmo tempo o modo como Selva Almada escreve é tão lindo, a voz das testemunhas misturadas ao retrato desenhado pela narradora. Terminei o livro com a certeza que botaram algo na água lá das argentinas da década de 70, porque essas gurias mandam muito bem.  Saiu aqui no Brasil este ano pela Todavia que, diga-se de passagem, está fazendo um catálogo muito, muito bacana.

Who is Vera Kelly? (Rosalie Knecht): Eu já nem lembro como cheguei no livro, tinha achado a capa linda e resolvi embarcar sem saber muito do que se tratava. Pois bem: em um misto de ficção e fatos históricos, conhecemos Vera Kelly, uma jovem recrutada por um agente da CIA para se infiltrar em um grupo de estudantes na Argentina e espionar um político local no período que antecede a revolução argentina. Tem algo de coming of age, quando acompanhamos os passos até Vera Kelly tornar-se agente, misturado com o thriller – os riscos que ela passa a correr durante a missão na Argentina. O que gosto principalmente é da questão de Vera Kelly ser uma lésbica – o que isso significava na década de 50 e 60. Não passa muito longe da vida solitária de quem tinha que fingir ser outra pessoa, tal como quando ela é uma espiã. O livro não vai se propor a debater essa questão, a ideia é mais a aventura de Vera Kelly, o desenvolvimento da personagem em si. Mas a comparação acaba sendo inevitável. O livro diverte, é daqueles que realmente prendem a atenção do leitor. E a ambientação é tão envolvente que vale quase como uma viagem no tempo (não que seja o melhor dos tempos para se viajar, mas ponto para a autora por conseguir fazer um retrato tão cuidadoso do período).

O Martelo (Adelaide Ivánova): Ano passado vi um vídeo da Adelaide Ivánova fazendo uma leitura na FLIP e fiquei com lágrimas nos olhos. Que porrada. Por isso, assim que surgiu a oportunidade de ler O Martelo, acabei devorando o livro. Na primeira parte, leitura de coração apertado, quase que dando para escutar a voz da poeta (e que sabemos, não é uma voz só, são várias, várias mulheres que encararam porco, gato e afins). Eu gostei bastante da segunda parte também (mais concentrada em um relacionamento em crise), mas a primeira é realmente aquela porrada necessária, de quando começamos a nos acomodar em nosso cantinho e lembramos que ainda tem muito chão, muito trabalho para todas. Em tempos de poesia instagramável que dizem o óbvio em quebras de linha, dá uma alegria enorme ver alguém fazendo algo tão poderoso com palavras.

8 comentários em “As melhores leituras de 2018”

  1. Uma das minhas próximas leituras é justamente “As Coisas que Perdemos no Fogo”. Faz algum tempo que o livro tá comigo, mas li muito pouco em 2018. Vou ficar de olho no lançamento de “Circe” também. E me interessei muito pelo Michael McDowell. Não conheço o autor, mas espero que publiquem por aqui.

    1. espero que ele saia por aqui também. o trabalho da valancourt é legal demais, porque resgata justamente uns títulos como esses. o mcdowell foi roteirista de os fantasmas se divertem e o estranho mundo de jack, então não é bem o tipo de cara que deveríamos esquecer, né? queria que uma editora por aqui fizesse algo parecido =(

  2. linda lista. abri duas abas, uma com o rolezim e outra com o video de adelaide ivanova. tem um episódio de Apenas um show (regular show – desenho de JG quintel – q passava/passa no cartoon network) que deve ser inspirado no ópera, pois a banda deles precisa defender a terra. não me lembro detalhes, mas tinha disso. dei uma procurada aqui pra postar o link mas não achei. 🙁

    enfim, parabéns 🙂

    1. obrigada XD o rick & morty tb tem um episódio que segue nessa linha (mas acho que eles tinham que cantar rap? não lembro também). o legal mesmo no space opera eu acho que nem é tanto a parte de salvar a terra (é legal também, mas vejo como secundária), a história da banda é muito melhor. eu li o decibel imaginando uma coisa entre o david bowie e aquela personagem do bill nighy no love actually hahahhahah

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