Spoonbenders (Daryl Gregory)

Já tinha um tempo que Spoonbenders estava na minha lista de livros para ler, mas eu me enrolava e nunca começava a leitura. Lançado lá fora em 2017, já tinha pintado até em algumas listas de melhores dos gringos (ainda não tem tradução no Brasil, infelizmente) – e sempre que batia os olhos no título pensava “ei, parece legal, tenho que ler” tipo uma Dory dos livros. Enfim, chegam as férias, o final do ano e eu finalmente começo a ler. E caramba, que livro perfeito para o momento.

É aquela coisa: cabeça cansada, uma leitura leve cai como uma luva. Spoonbenders é assim: gostoso, divertido. Enquanto lia pensava que a história parece implorar por uma adaptação para a Netflix, em um formato fechado como A Maldição da Residência Hill. Aliás, era outra coisa que passava constantemente por minha cabeça, de como ao assumir as relações de família como o coração da história, acaba agradando até quem não é fã do gênero (aqui no caso seria Fantasia/Ficção Científica).

Calma, explico. O enredo de Spoonbenders gira em torno da família Telemachus, todos paranormais que no passado foram muito famosos mas que agora lidam com uma vida bem… ahm, quase ordinária. E sim, embora a história seja recheada de viagens astrais, telecinese, pirocinese (e máfia de Chicago!!! e projeto da CIA para combater os russos durante a Guerra Fria!!!), o principal é a relação do patriarca Teddy Telemachus com seus três filhos (Frankie, Buddy e Irene) depois da morte da esposa.

O legal é que vamos conhecendo a família aos poucos, através de uma estrutura bem interessante: o foco de cada capítulo é um dos membros da família, começando com Matty, o fiho de Irene. O olhar e o conhecimento de Matty sobre a história da família Telemachus é o mesmo que o nosso ao começar o livro. Aliás, o primeiro parágrafo é um convite para abraçarmos já no começo maluquice da família: “Matty Telemachus left his body for the first time in the summer of 1995, when he was fourteen years old. Or maybe it’s more accurate to say that his body expelled him, sending his consciousness flying on a geyser of lust and shame“.

A galeria de personagens criadas por Gregory são fantásticas (foi mal o trocadilho, hehe). Aquelas que não são perfeitas, fazem lá sua cota de cacas e com quem você de alguma forma acaba se identificando (ou reconhecendo alguém do seu convívio). Parecem tão reais que são a chave para manter nossos olhos firmes no livro mesmo quando tudo ao redor parece uma loucura (eu já mencionei o envolvimento da máfia de Chicago e da CIA no enredo, certo?).

Cada um terá seu próprio caminho a trilhar, até chegar no ponto em que todas as histórias se cruzam em um picnic na casa de Teddy. Matty é um adolescente descobrindo seu poder de projeção astral (que só é ativado através de masturbação ou maconha). O arco de Matty envolve desde conhecer a história da família até aprender a controlar os poderes. No caminho tem um crush pela prima mais velha e o envolvimento nas falcatruas do tio Frankie (o único disposto a falar dos Maravilhosos Telemachus para o sobrinho).

Frankie é isso, falcatrua. O poder dele é telecinese, mas ele nunca parece de fato aprender a controlar (o que o deixa por um tempo com a dúvida se tem de fato um poder). Casou com Loretta, uma mulher mais velha que já tinha uma filha, e depois teve duas filhas (Cassie e Polly).  O arco dele desde o começo cruza com o de Matty não só porque vai querer usar o poder do menino em mais um “plano infalível” , mas porque assim como a história de Matty tem algo sobre amadurecimento, o de Frankie também tem.

Buddy vê o tempo de um jeito parecido com o do Dr. Manhattan em Watchmen, e acho que isso acaba se refletindo no tempo da narrativa: os saltos para o passado, o presente e o futuro são constantes. Começam um tanto confusos, mas no fim parecem se encaixar de forma perfeita, construindo toda a história da família do momento em que Teddy conhece Maureen. Para Buddy o poder é obviamente uma maldição – ele está constantemente vivendo com o conhecimento do que virá, e tenta ao máximo proteger a família com isso. A imagem que surge em determinado momento no livro é do sujeito que faz o truque de equilibrar vários pratos girando ao mesmo tempo. O caminho de Buddy é marcado pelo que ele chama de “o grande zap”, mas tem muito a ver com a busca da liberdade.

Teddy o patriarca é uma dessas personagens que você acaba agarrando um amorzinho enorme. Ele é o mestre dos trambiqueiros, tão bom nisso que convence todo mundo do que quiser: a família acredita que os poderes são herdados dos semideuses gregos, a CIA acredita que ele também tem poderes e por aí vai. Você passa uma boa parte do livro pensando que ele é um pai bem bosta (e como isso acaba influenciando as piras dos filhos), mas aí vai vendo que ele não é um pai perfeito, mas o pai possível. A história dele com a Maureen é bem fofa.

Aí tem o arco da Irene, que é o meu favorito. O poder dela é saber se alguém está mentindo, o que obviamente é um problema para qualquer tentativa de relacionamento. As mentiras brancas começam a aparecer, a confiança vai sendo minada aos poucos. É quando Buddy compra um computador (com um Pentium!!!) que, através das salas de bate-papo, Irene arruma um jeito de driblar o poder. O legal do arco da Irene é que ele tem muito sobre a confiança nas outras pessoas (pois: detector de mentiras humano), mas também tem sobre confiança nela mesma. E ok, o autor captou muito bem aquele sentimento dos primeiros momentos usando a internet, quem começou a usar no fim da década de 90, com salas de bate-papo e afins, vai entender o que estou falando.

Outras personagens circulam ao redor dessas, todas bastante interessantes. Talvez o maior trunfo do livro seja justamente ter criado tanta gente que seja isso mesmo, gente, e não meros tipos. E claro, o humor. Não é escancarado, e muita coisa ali vai depender da bagagem do leitor (eu ri muito do Teddy se dando conta que tinha três crianças na frente dele, na hora lembrei dos almoços na minha vó, que só ia chegando gente). Mas é um humor gostoso, que sem sombra de dúvida era exatamente o que eu precisava para esse fim de 2018/começo de 2019.

***

Lendo Spoonbenders lembrei demais do meu avô. Não pelo trambique, mas tem muito do Teddy que me fez pensar nele. Acabou que a imagem que fiz da personagem era meu avô com roupa de gangster, o que é algo bem bizarro, eu sei. Enfim, talvez esteja deixando registrado porque é curioso perceber com um livro tão levinho que uma pessoa importante da sua vida pode não ter sido perfeita, mas foi a possível. Na foto abaixo ele está com minha tia e meu irmão.

2 comentários em “Spoonbenders (Daryl Gregory)”

    1. eu comemoro cada vez que sai tradução de livro que recomendo aqui +_+ tem vezes que demora um tico, mas quase nunca falha, acho que meu único amorzinho ainda sem tradução é o dept. of speculation da jenny offill :~~

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