The Elementals (Michael McDowell)

Desde Stoner volta e meia acabo pensando em como todo o processo do que faz um livro sobreviver ao tempo da publicação original pode ser meio injusto. Não sei bem quais os elementos daquele 1965 que deixaram para trás um livro tão bom, que hoje em dia ganhou até tradução para o português porque no começo dos anos 2000 uma editora resolveu republicá-lo.

Não dá um comichão, pensar em quantos outros tantos títulos também não estão por aí, esquecidos, esperando serem resgatados? Outro exemplo: o ótimo Mrs. Caliban de Rachel Ingalls (de 1982) e só voltou a ganhar alguma atenção porque foi relançado seguindo o rastro do sucesso do último Del Toro, A Forma da Água. Não fosse o filme, talvez nenhuma editora enxergasse a possibilidade de publicar novamente o título.

São casos como esses que fazem com que eu goste tanto de editoras como a Valancourt, que desde 2005 tem como foco a “redescoberta” de obras esgotadas, especialmente histórias de terror. Tropecei na Valancourt enquanto procurava por livros para combinar com a leitura de The Apparitionists, um não-ficção bem bacana sobre as fotografias com espíritos que foram febre nos Estados Unidos no fim do século XIX. Na busca, achei The Elementals de Michael McDowell, publicado originalmente em 1981 (sim, meu ano de nascimento pesou para a escolha desse entre outros tantos títulos).

McDowell me conquistou logo de cara: enquanto lia sobre o funeral da matriarca da família Savage alternei entre momentos de “masoquê?!!” e muita risada. Do princípio: após o funeral de Marian Savage, o filho mais novo (Dauphin Savage) decide tirar um período de férias em Beldame, um lugar que vira uma ilha de acordo com as marés. Em Beldame existem três mansões vitorianas, construídas por um ancestral de Dauphin no século XIX. Uma das casas ainda pertence aos Savage, outra é dos McCrays – amigos e parentes dos Savages, já que Leigh McCray é casada com Dauphin . A última casa é dos Savages, mas está desocupada porque foi tomada por uma duna: parte dos seus cômodos estão cheios de areia.

Note que todo o horror se desenrolará nessa situação: sol, mar, areia. Fugindo completamente do clichê da noite tempestuosa, um dos momentos mais assustadores do livro acontecem em um dia absurdamente quente. E McDowell é tão bom, mas tão bom na ambientação que te transfere para Beldame.

“Anyone could understand night terror, but what could one say of a man whose fears persisted through the dawn?”

Melhor do que isso: as palavras para descrever o local estão invariavelmente ligadas a termos incômodos, negativos – não importando o amor das personagens pelo lugar, ou o fato de nada estar realmente acontecendo ali, o leitor sabe desde o princípio que há algo de errado com Beldame. O resultado é um clima constante de tensão, salpicado por momentos realmente assustadores e que parecem ter reverberado nas histórias de terror atuais (Leigh na rede ouvindo barulhos no quarto de cima lembra muito a Grace no quarto de entulhos de Os Outros, por exemplo).

Outro elemento interessante (e que influencia muito no tom de terror) é que McDowell usa a história dos Savages e as crenças de Odessa (a empregada da família) para criar o pano de fundo desse verão em família. Se abertura com o funeral já não serve como cartão de visitas (pense em uma família que tem como hábito enterrar um punhal durante a cerimônia para garantir que a pessoa está morta), há muito mais depois disso. Inclusive uma passagem arrepiante da história pega o leitor de surpresa: ao imaginar que fora de Beldame não ocorrerão eventos sobrenaturais, vem a Odessa chamando a atenção para detalhes sobre o túmulo de Marian Savage, por exemplo.

Por falar na Odessa, gostei muito da personagem, porque ao mesmo tempo que ela pode oferecer explicações ao leitor sobre o que está acontecendo em Beldame, nada é de fato conclusivo, e muito da história cabe ao leitor preencher. Ela sabe tanto quanto qualquer outro ali, no final das contas.

‘No’, said Odessa, ‘don’t work that way. That’s you talking and thinking about spirits. Spirits don’t work that way, spirits don’t work the way we want ‘em to. They don’t go by rules set up for ‘em. Don’t matter if somebody died or got killed, or if the house is all brand-new. It’s got something in it or it don’t, and you can  feel it and that’s all there is to it.’

Talvez o único porém seja a relação de Lurker McCray com a filha India. Aliás, te desafio a ler especialmente os trechos envolvendo India fazendo retratos da casa e não pensar na Lydia de Os Fantasmas Se Divertem. A história do filme é do McDowell, diga-se de passagem. Ele está nos créditos de outro filme do Burton, O Estranho Mundo de Jack) e faleceu em 1999, quando trabalhava na continuação de Os Fantasmas se Divertem.

Enfim. Tem qualquer coisa que não funciona entre Lurker e India conforme a história se desenrola. Algumas piadinhas que teriam um efeito melhor caso India fosse namorada de Lurker. Especialmente mais próximo ao desfecho, não consigo imaginar um pai deixando a filha na situação em que a India se encontra. De qualquer modo, coisa pequena, nada que estrague a história como um todo.

Aliás, eu seguirei por aí sugerindo The Elementals para todo mundo que gosta de histórias de terror. Pode não captar o zeitgeist (favor ler coluna da Carol Bensimon para entender), mas caramba, como é gostoso ler uma história de terror de um escritor que confia no leitor e não precisa entregar tudo em uma bandeja para dar medo.

PS: Eu odeio areia, demais mesmo. Amo mar, mas se pudesse passava lajota em tudo. Isso pode ter contribuído para a aceitação mais do que rápida da proposta do “terror na praia”, confesso.

PS2: Atualizando o blog!! O plano é voltar para falar de As Coisas que Perdemos no FogoLaços e Mrs. Caliban mas não prometo nada porque segunda acabam as férias. Mesmo assim: Vive la résistance!

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