A Little Life (Hanya Yanagihara)

alittlelifeEu não sei bem onde começar sobre A Little Life, que chegará pela Record aqui no Brasil agora no primeiro semestre de 2016. É muita coisa. Pelo número de páginas (700 e tantas), era de se imaginar que tivesse “muita coisa”, mas assim, não digo só em termos de eventos ocorridos ou número de personagens. Tematicamente A Little Life é amplo, daqueles livros que você sabe que resultam em uma infinidade de leituras.

Do que você não escapará em qualquer comentário sobre o romance serão as considerações sobre o quão miserável é a vida do protagonista Jude. É talvez o elemento mais forte, e o que empresta unidade para um romance que, ao se propor narrar toda a vida de um homem de mais de cinquenta anos, acaba sendo tão caótico quanto seria o ato de contar toda a vida de qualquer pessoa real. E é forte, porque Jude se define a partir das tragédias que aconteceram com ele, não a partir dos momentos felizes. Volto a falar sobre a questão da definição mais para frente, mas vamos voltar ao começo.

Se me perguntarem sobre o que é A Little Life, eu posso dizer que é sobre a amizade de quatro rapazes, Jude, JB, Malcom e Willem, amadurecendo em Nova York. E com isso eu meio que estaria resumindo pelo menos uns 60% dos livros de autores norte-americanos atuais1. Mas o fato é que dos quatro, Jude é a personagem que Yanagihara acompanhará de perto, quase como se sua obra fosse uma das maquetes de Malcom. É a história de Jude, as revelações sobre seu passado e o modo como o que viveu influenciará toda a sua vida que vemos em A Little Life.

Partindo do momento em que Jude e Willem passam a viver “no pior apartamento do mundo” em Lispenard Street, a autora começa a desenvolver cada uma das quatro personagens, mostrando um pouco de cada um. Do passado de JB percebemos o quanto a relação com a mãe acabou fazendo dele um daqueles jovens que acreditam que podem ser aquilo que sonhar (e também: mimado). Malcom, o cara cuja riqueza o blindou por muito tempo de questões como o racismo. Willem, que quer ser ator e tem um passado tristíssimo envolvendo um irmão falecido e pais distantes. E Jude.

Ahhh, Jude. Você só tem noção real do que foi o passado de Jude quando já se encontra BEM avançado na leitura. Yanagihara não entrega o ouro logo de cara. É quase como se imitasse o receio de Jude de contar sua própria história. As informações são reveladas aos poucos, quando menos se espera um devaneio de Jude o levará para quando tinha menos de oito anos e vivia com padres em um monastério. “Mas e as dores, o que causou as dores?”. Porque Jude vive com dor. Tanta dor que, segundo seu médico, seu corpo já não responde à dor do modo como uma pessoa em outra condição responderia.

Logo de início você sabe que há algo de errado. Ele só pode viver em um lugar que tenha elevador, por exemplo. Mas nunca fica claro o que causou aquilo. A única coisa evidente é que Jude faz um esforço sobre-humano para não ser visto como alguém diferente. Ele não quer pena, ele não quer perguntas.

E o engraçado é que embora ao ler você reconheça que há algo de errado ali, o fato de Jude mancar, por exemplo, só fica mais óbvio quando JB o imita. Mais uma vez a narrativa seguindo a mentalidade de Jude, muito embora a narração seja em terceira pessoa em quase todo o livro (fora alguns poucos capítulos narrados em primeira pessoa, por Harold). Não é Jude que nos conta sua história, mas é como se de alguma forma o narrador respeitasse sua personagem ou ao menos seguisse o método dela: só revelar sua história quando confiasse na pessoa.

E voltamos assim para a questão da definição. Olha, não é pouca coisa que acontece com Jude. Eu levei um mês para terminar o livro porque ficava mal mesmo com algumas passagens, em especial as que envolviam seu passado. E Jude segue sua vida se definindo por esses momentos. Ele tem vergonha do que aconteceu, tem medo que as pessoas deixem de amá-lo pelo que ocorreu. E está tão perdido nessa imagem que faz de si mesmo que não consegue ver o que conquistou nos anos após a faculdade. Amigos, muitos amigos – que realmente o amavam. Pessoas que o respeitavam e o admiravam por tudo o que ele era: inteligente, esforçado, leal.

He will be reminded of how trapped he is, trapped in a body he hates, with a past he hates, and how he will never be able to change either.

(E agora comentarei detalhes da história que talvez seja melhor você descobrir enquanto lê o livro, então caso ainda não tenha lido eu sugiro que você pule para o último parágrafo) Mas como julgar Jude? Eu ainda fico aqui pensando na real necessidade de tanta coisa ruim acontecendo – aquela parte do Caleb, por exemplo, eu acharia até desnecessária se ele não tivesse aparecido justamente para validar para Jude a opinião que ele tinha de si. Mas os abusos no monastério, depois com Padre Luke, depois no abrigo, depois com o Dr. Traylor. Cada um parecia ter deixado uma cicatriz em Jude, como se ele fosse uma espécie de Retrato de Dorian Gray que mudasse com traumas, e não más ações. Jude se via deformado por aquelas pessoas, como alguém horrendo que jamais poderia ser amado. E daí a desconfiança de que será deixado por amigos, amores, família adotiva. Porque apesar de ser alguém maravilhoso, seu passado o marcou de tal forma que ele simplesmente não consegue se ver assim.

E aí vem o suicídio. Eu já tinha descartado a possibilidade depois da primeira tentativa, mas o período após o acidente de Willem (logo minha personagem favorita :~~ ) mostrou que seria inevitável. Mas eu gostei muito de como a Yanagihara abordou o assunto. Primeiro porque mostrou os dois lados, o de quem não quer mais viver e o de quem quer que aquela pessoa viva. Quando Harold se dá conta do que está pedindo para Jude, que quer que ele viva, que seja miserável todos os dias, mas que viva – é um eco de Padre Luke dizendo para Jude mostrar “um pouco de vida” quando está com seus clientes.

When you’re with your clients, you have to show a little life; they’re paying to be with you, you know – you have to show them you’re enjoying it.

Assim, nessa fusão do modo como se vê e no modo como os outros o vêem, Jude é a mais perfeita representação do grotesco e do sublime, e não apenas fisicamente. E isso se refletirá no romance como um todo, porque no final das contas mesmo com piadas tipo essa:

(better book titles)
(better book titles)

dá para entender o encanto de tanto leitor pela obra. Talvez até pelo tempo que passamos com as personagens, os detalhes, as anedotas (como não sorrir com a lembrança do episódio das escadas quando surge lá no desfecho do livro?), é um pouco como se fôssemos o quinto membro daquele grupo.

If I were a different kind of person, I might say that this whole incident is a metaphor for life in general: things get broken, and sometimes they get repaired, and in most cases, you realize that no matter what gets damaged, life rearranges itself to compensate for your loss, sometimes wonderfully.


  1. eu tenho a vaga impressão de que se alguém me largasse em Nova York eu já andaria por ali como quem conhece o lugar só pelo tanto de livro que se passa por ali que eu já li 

5 comentários em “A Little Life (Hanya Yanagihara)”

  1. a capa eh maravilhosa! feliz por terem mantido. li no instagram da autora que ela solicitou a imagem e QUASE nao conseguiu. ainda bem que deu td certo.
    ainda emocionado com o fim do livro (terminei agorinha…), mas confesso que me peguei pensando, em diferentes momentos, como nao ha personagens femininas (as poucas que existem, mal tem voz). de qqr forma, livro lindissimo!

    1. Bem observado, Marcelo. Acho que talvez a personagem feminina mais relevante no livro seja a assistente social (mas olha, tem nem um ano que eu li e já esqueci o nome dela). Tem a esposa do Harold também. Mas meio que fica por aí, né?

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