The Spectacular Now (Tim Tharp)

the-spectacular-now-book-coverA primeira vez que ouvi falar de The Spectacular Now de Tim Tharp foi em uma já mencionada lista de filmes adaptados de livros que chegariam este ano nos cinemas (lá fora a data de estreia é, coincidentemente, nesta sexta). Sendo bem sincera, eu não botava muita fé na história: sujeito popular assume como projeto pessoal mudar uma garota “geek”. Você já deve ter lido ou assistido dezenas de variações desse tema, todas uma forma de recontar o Pigmaleão de George Bernard Shaw, por isso achei que o livro seguiria também por essa linha. Mas, embora em muitos aspectos ele seja até bem previsível, a verdade é que The Spectacular Now acaba se desdobrando de tal maneira que o que poderia ser leve e raso vira algo completamente diferente.

A melhor sacada de Tharp foi não ter pressa de desenvolver o narrador-protagonista, Sutter Keely. Através de algumas ações que (aparentemente) nada terão a ver com o plot principal (estamos esperando a chegada da geek, lembra?), ele vai se revelando uma personagem não só (extremamente) carismática, mas também crível. Todo mundo conhece um Sutter Keely, aquele sujeito legal que se dá bem com todo mundo, está sempre feliz, consegue fazer graça de si mesmo e das situações mais constrangedoras. Enfim, estar perto dele te faz bem. Não tem a ver com inocência como alguns protagonistas de YA tipo o Charlie de As vantagens de ser invisívelé mais o modo como ele encara a vida e o modo de se relacionar com as pessoas.

Quando falo que o autor não tem pressa de desenvolver a personagem, não é um exagero. Conte aí pelo menos 30% do livro para apresentá-lo através de pequenas situações que ele vai narrando: o garotinho que ele encontra numa loja de conveniências, o relacionamento com sua namorada Cassidy, o trabalho e o modo como ele parece dar a entender que tudo está perfeito no ‘agora’, e que justamente por isso ele não precisa de planos para o futuro (ah, sacou o título, é?). O negócio é que Sutter tem um sério problema com bebida (sobre o qual falo adiante), que de certo modo funciona como o meio da personagem conhecer Aimee, a geek tão solitária que precisa só de uma forcinha para recuperar a autoestima. Apesar dos avisos do amigo Ricky, Sutter começa o tal do projeto para “melhorar” a garota.

Se nesse ponto da narrativa você já está completamente encantado pelo jeitão do Sutter, com a chegada de Aimee a coisa fica ainda pior (ou melhor?). Fica simplesmente óbvio que Sutter não tem a intenção de machucar ninguém, e dentro de sua característica principal de procrastinador, vai adiando também o inevitável momento de conflito: ele não ama Aimee, ele quer voltar para Cassidy. Mas Aimee segue cada vez mais apaixonada por Sutter. Cheiro de dramalhão mexicano? Calma que não é por aí. Com Sutter como narrador, o humor acaba sendo constante. Entretanto, não é só isso, aos poucos vamos vendo como ele na realidade está longe de ser o cara “sempre de bem com a vida” e tem lá seus próprios demônios.

A relação Sutter e Aimee acaba funcionando de forma óbvia: ele quer ajudá-la, mas ela acaba o ajudando. Seja fazendo com que confronte seu passado (a história com o pai desaparecido), seja fazendo com que ele consiga fazer algo sem ser sempre pensando nele mesmo. E se eu comentei que Sutter não é inocente, Aimee por outro lado é tão sem maldade e tão dócil que acompanhar os efeitos de Sutter em sua vida chega a partir o coração, porém de uma maneira meio “bittersweet“, já que sabemos que ele não quer de modo algum prejudicá-la. O primeiro beijo dos dois é um exemplo disso: tendo em mente todo o contexto, de que ele está naquele lugar só para arrumar um namorado para Aimee e voltar para Cassidy, é um beijo com pena, e não com desejo. Mas é engraçado (e fofo) ver o modo como ele impulsivamente faz aquilo para deixá-la melhor:

“You’re damn right, whew.” Just to make sure she gets the point, I go back for another one. What else am I going to do, let the girl sit there on a railing in the moonlight thinking she’s damned to go dudeless for the rest of the life?

É tudo tão certo e ao mesmo tempo tão errado. É evidente que sendo uma pessoa que não pensa no futuro, Sutter também desconhece o hábito de prever as consequências de seus atos. Aqui tem algo interessante na estrutura que há tempos eu não via: o tempo da narrativa. Normalmente nas histórias as ações são descritas no passado (ele falou, ela andou, nós cantamos, etc.), mas aqui o tempo predominante é o presente. Há alguns casos de flashbacks, mas se reparar, quase toda a história é montada em descrições como se estivessem acontecendo naquele exato momento, reforçando a inaptidão da personagem sobre lidar com qualquer coisa que não fosse o agora.

O que acaba levando para a questão do alcoolismo. Sutter é obviamente um alcoólatra. O livro abre com o garoto tomando um tubão de whisky e 7Up antes do meio dia (quando deveria estar na escola).  A clara falta de perspectiva aliada ao fato de que ele realmente acredita que deve ser sempre a alma da festa, mesmo quando não há festa, acabam funcionando como os catalisadores, mas aos poucos você vai vendo o modo como ele justifica os drinks cada vez mais recorrentes e a dificuldade cada vez maior de parar. O mérito da narrativa de Tharp é que não é algo piegas ou que puxe para o bom-mocismo, sem tomar tons de panfleto contra a ingestão de bebidas alcoólicas. Não é uma cautionary tale.

Mas é sim, algo que acaba tendo grande influência ao polêmico desfecho da obra. Por polêmico quero dizer que uma porção dos leitores não gostou, outro tanto gostou e uma outra (talvez maior) não entendeu.

SPOILER!!! Clique aqui para ler.
O último capítulo deixa um buraco na alma, não tem como explicar melhor. Porque apesar das burradas, você sinceramente espera que Sutter tenha um final feliz. Ele merece um final feliz. Mas não é bem o que acontece. O garoto vai num bar, enche a cara e suas últimas palavras são:

I open my arms wide and let the wind flow over me. I love the universe and the universe loves me. That’s the one-two punch right there, wanting to love and wanting to be loved. Everything else is pure idiocy—shiny fancy outfits, Geech-green Cadillacs, sixty-dollar haircuts, schlock radio, celebrity-rehab idiots, and most of all, the atomic vampires with their de-soul-inators, and flag-draped coffins.

Goodbye to all that, I say. And goodbye to Mr. Asterhole and the Red Death of algebra and to the likes of Geech and Keeeevin. Goodbye to Mom’s rented tan and my sister’s chargecard boobs. Goodbye to Dad for the second and last time. Goodbye to black spells and jagged hangovers, divorces, and Fort Worth nightmares. To high school and Bob Lewis and once-upon-a-time Ricky. Goodbye to the future and the past and, most of all, to Aimee and Cassidy and all the other girls who came and went and came and went.

Goodbye. Goodbye. I can’t feel you anymore. The night is almost too beautifully pure for my soul to contain. I walk with my arms spread open under the big fat moon. Heroic “weeds rise up from the cracks in the sidewalk, and the colored lights of the Hawaiian Breeze ignite the broken glass in the gutter. Goodbye, I say, goodbye, as I disappear little by little into the middle of the middle of my own spectacular now.

Sugerindo, pelo menos na minha opinião, duas possíveis conclusões: em uma ele se mata, e por isso os “goodbyes”. Em outra, ele simplesmente continuará sendo o cara vivendo do momento e, no final das contas, o garoto alcoólatra que jogou fora qualquer potencial que tinha. Ambas as possibilidades acabam partindo o nosso coração porque, como disse, você torce para que o melhor aconteça com Sutter.

Assim, o livro que poderia ser só mais uma releitura de Pigmaleão com pinceladas de ótimas sacadas do narrador-personagem, acaba contendo em si tantas outras coisas. No final das contas o que parece falar mais alto é o medo de virar adulto (ou seja, do futuro), e do que mais isso representa. Há uma passagem no momento do baile de formatura (e que livro com jovens não teria um baile, né?) que parece descrever isso muito bem:

We’re not even the Next-New-Thing Generation. We’re the Soon-to-Be-Obsolete Kids, and we’ve crowded in here to hide from the future and the past. We know what’s up – the future looms straight ahead like a black wrought-iron gate and the past is charging after us like a badass Doberman, only this one doesn’t have any letup in him.

Como dá para perceber, The Spectacular Now acaba sendo mais do que um livro romântico açucarado. Apesar da doçura do protagonista, das piadas e do que poderia ser só um romance entre adolescentes, o livro vai ficando cada vez mais pesado, para não dizer ‘dark’.  E talvez isso só se explique com alguma teoria louca envolvendo catarse, mas o fato é que mal você fecha o livro, já sente saudades de Sutter e de sua história.

Sobre o filme, não achei previsão de estreia no Brasil, mas eu acho que não vai passar batido até porque ele foi bastante elogiado no festival Sundance (ganhou prêmio especial pelas atuações do casal protagonista) e também porque embora o diretor não seja um famosão do momento, os roteiristas são os mesmos de (500) Dias com Ela. Vai aí o trailer para quem ainda não viu:

ATUALIZADO 05/06/2014: Prooonto, acabou a espera. Tradução saindo pela Record no Brasil como O Maravilhoso Agora. Não sei bem a razão de não ter saído pelo Galera Record, já que o livro é YA. De qualquer forma, para quem ficou curioso, está aí a capa da edição nacional. Agradecimento para a Iris, que voltou a atualizar o Literalmente Falando e trouxe a informação a edição nacional no post sobre a adaptação cinematográfica >> http://literalmentefalando.com.br/2014/06/04/eu-vi-the-spetacular-now

maravilhosoagora

12 pensamentos em “The Spectacular Now (Tim Tharp)”

  1. Acabei de acabar e corri pra cá pra comentar. No começo da leitura eu não parei de implicar com o livro, “nada de espetacular, nada de espetacular, nada de… oh, wait”. Adorei a escrita do autor, a descrição das cenas dos dois é tão íntima e doce que não tem como não se apaixonar pela história. O final pra mim foi corajoso, eu já não estava esperando por um “final feliz”, mas ainda assim foi uma surpresa impactante, deu até um aperto no peito. Eu sou da conclusão que ele se mata, mas acho que esse se matar não é desistência, mas uma aceitação de que ele não foi feito para o o past ou future, mas pro now e nada mais importa. Eu acredito que algumas pessoas nascem com esse free spirit do Sutter e quem somos nós pra dizermos que elas estão errados por não se preocupar com nada além do agora? Provavelmente estou over-analyzing porque eu acabei de ler haha. Vou digerir mais um pouco e talvez volte para mais comentários.

    1. Karen, é bem isso: no começo eu lembro que ficava pensando “ok, e para onde vai esta história?” mas quando percebi, já estava lá, completamente presa. Acho que isso que você comentou com intimidade tem bastante a ver, há momentos que narrados de outro jeito poderiam não dar certo, mas como de certa forma já desenvolvemos este laço com o narrador, fica bonito (como a primeira vez de Sutter e Aimee, que de certa forma é até triste).

      Eu também tendo mais para o suicídio (até porque continuar vivendo a vida dele do jeito que ele estava é de certa forma um suicídio também). Mas aqueles “goodbyes” ali parecem implicar que ele decidiu se matar, de modo que ele só terá vivido o espetacular agora: não envelhecerá ao ponto de carregar fantasmas do passado, ou de o futuro ter que ser uma preocupação constante.

      Gostei das suas ideias sobre o livro, sempre bom ver outras pessoas falando de um livro que gostamos tanto ^^

    1. Oi, Ariela! Se eu não me engano quem tem os direitos aqui no Brasil é a Record, mas até agora não vi notícia sobre lançamento de tradução, acho que por enquanto só em inglês mesmo 😐

  2. obrigada! ^-^
    if I stay era outro q eu queria ler :3
    mas vou praticar mais um pouco com outros livros então pra depois lê-lo!
    já leu my life next door? eu queria ler esse e depois the spectacular now…
    assim eu queria mt ler mais em ingles! sou apaixonada por essa língua *-* mas só li uns dois livros que tinha no curso de ingles q eu faço, sabe?

    1. Não conhecia esse My Life Next Door, vou anotar aqui para ler =D

      Sobre ler mais em inglês, você tem algum e-reader tipo kindle? Isso facilita bastante o acesso às obras em inglês. Tem também como instalar o aplicativo de leitura do kindle no computador, se eu não me engano (caso você não tenha problema de ler em computador, eu não curto muito heheh).

  3. Pedi esse livro para ler só por causa da sua resenha. Ainda estou bem no comecinho, mas já deu para perceber o grande potencial carismático do Sutter, apesar de todos os seus problemas e como frisado pela mãe e pelo padrasto a falta de responsabilidade. Vamos ver como se desenrola essa história.
    Também estranhei pra caramba quando peguei o livro em mãos e vi que ele saiu pela Record, jurava que era pela Galera…

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