Agora é que são elas (Paulo Leminski)

elasNo último dia 20 aconteceu na Livraria Cultura aqui de Curitiba um evento de lançamento do livro Toda Poesia, do Paulo Leminski. Se você, caro amigo caçador de autógrafos, já torceu o nariz pensando “Lançamento sem o autor? Pffft!” tenho que dizer que foi um dos eventos mais bacanas que já presenciei: a ideia foi de criar uma espécie de sarau, onde pessoas leram poesias do Leminski ou tocaram músicas que de alguma forma se baseavam na obra do poeta. Teatro lotadíssimo, um clima bacana e, por que não dizer, uma amostra grátis de um pouco do que aquele livro de capa laranja berrante tem para oferecer. Saí de lá morrendo de vontade de reler Toda Poesia. Saí também com um Agora é que são elas embaixo do braço.

Sobre o título, eu tinha uma vaga lembrança de um folder presente na bagunça do quarto do meu irmão (que eu adorava explorar em busca de cds para emprestar). O folder era de uma peça de teatro, que agora graças à Internet posso confirmar que era uma adaptação dirigida pelo Fiani, apresentada pela Cia Máscaras de Teatro (um beijo, Internet!). Mas talvez por não saber o quem é quem na época, fiquei com a ideia errada gravada na cabeça: de que Agora que são elas era um texto do Leminski escrito para teatro, e não um romance. Então na hora que abri o livro na Cultura tive uma baita surpresa – e por isso resolvi comprá-lo na hora. A saber: o livro foi originalmente publicado em 1984 pela Brasiliense (e lá vão quase 30 anos!), mas ganhou ano passado uma nova edição pela Iluminuras, que também relançou Catatau, com uma capa que faz jogo com a de Agora é que são elas, fica a dica para quem tem TOC.

E já que citei Catatau, vamos lá: todo mundo sabe que Catatau não é bolinho. É um livro que exige bastante do leitor, não sem recompensa, é claro. E o mesmo acontece com Agora é que são elas. Leminski tem um senso de humor bastante apurado, o que torna muitas passagens do livro bastante divertidas, isso para não falar daquela habilidade que ele tem de escrever frases bem sacadas (perto do “wit” do Oscar Wilde), daquelas que acabam ficando marcadas na memória e que pessoas repetem por aí sem nem conhecer a obra, como “Em caso de dúvida, vai abrindo portas” da página 41 ou, já na página seguinte, “No escuro e no silêncio, tempo é coisa muito relativa“. O negócio é que Agora é que são elas é quase um livro jogo, e se você começa sem saber parte das regras, um pouco da graça se perde (e o sentido também). Confesso que por alguns capítulos eu me senti assim:

Vuuuursh
Vuuuursh

Especialmente nos trechos sobre os warhoos e os seres gasosos de Canopus. Para se ter uma ideia: “Ela me contou tudo, tudinho, miríades de palinuros já tinham esclumps tronx, até que os ninurt mestrinquem gangindas.” (pág.141). Pois é. Mas a questão aqui é que tal como em Catatau, Leminski obviamente quer causar a estranheza, ele busca aquilo. Não só ao embaralhar o enredo (e, aliás, incluir dois enredos num romance), não só com as palavras. Há o absurdo num estilo quase semelhante aos dos filmes de David Lynch: sujeito sai de uma festa, decide voltar e quando volta descobre que a festa é só amanhã. Trata-se com um certo doutor Propp, e por acaso conhece a filha desse analista nessa festa (Norma Propp), apaixonando-se por ela, que é vista transando com vários homens, depois assassinada, depois em outras ‘n’ situações. E por aí segue o barco.

Considerando isso, você deve pensar “Nossa, Leminski tinha fumado um cigarrinho de artista e botou a loucurada toda no papel”. Bom, não perca seu tempo nesse julgamento. Dentro de todo o absurdo de Agora é que são elas, há uma intenção bem racional, um desenvolvimento de um projeto de modo metódico. Exercício para raros, que Leminski toma para si e consegue desenvolver muito bem. Mas antes que eu mesma comece a soar como o narrador maluco de Agora é que são elas, vamos tentar entender a brincadeira toda por partes. Porque sim, é uma brincadeira.

Para começar, o nome do analista do narrador já dá a primeira pista. Trata-se de Vladimir Propp, estruturalista russo que publicou Morfologia do Conto Popular, um estudo que sugere elementos comuns em algumas histórias (o termo em inglês é “folk tales”, muitas vezes traduzidos como contos de fadas, mas o problema é que folk tales englobam o folclore de forma mais ampla, então não são só contos de fadas). Esses elementos comuns são chamados de funções, nomeadas (e enumeradas) por Propp da seguinte maneira:

1- DISTANCIAMENTO: um membro da família deixa o lar (o Herói é apresentado);
2- PROIBIÇÃO: uma interdição é feita ao Herói (‘não vá lá’, ‘vá a este lugar’);
3- INFRAÇÃO: a interdição é violada (o Vilão entra na história);
4- INVESTIGAÇÃO: o Vilão faz uma tentativa de aproximação/reconhecimento (ou tenta encontrar os filhos, as jóias, ou a vítima interroga o Vilão);
5- DELAÇÃO: o Vilão consegue informação sobre a vítima;
6- ARMADILHA: o Vilão tenta enganar a vítima para tomar posse dela ou de seus pertences (ou seus filhos); o Vilão está traiçoeiramente disfarçado para tentar ganhar confiança;
7- CONIVÊNCIA: a vítima deixa-se enganar e acaba ajudando o inimigo involuntariamente;
8- CULPA: o Vilão causa algum mal a um membro da família do Herói; alternativamente, um membro da família deseja ou sente falta de algo (poção mágica, etc.);
9- MEDIAÇÃO: o infortúnio ou a falta chegam ao conhecimento do Herói (ele é enviado a algum lugar, ouve pedidos de ajuda, etc.);
10- CONSENSO/CASTIGO: o Herói recebe uma sanção ou punição;
11- PARTIDA DO HERÓI: o Herói sai de casa;
12-SUBMISSÃO/PROVAÇÃO: o Herói é testado pelo Ajudante, preparado para seu aprendizado ou para receber a magia;
13- REAÇÃO: o Herói reage ao teste (falha/passa, realiza algum feito, etc.);
14- FORNECIMENTO DE MAGIA: o Herói adquire magia ou poderes mágicos;
15- TRANSFERÊNCIA: o Herói é transferido ou levado para perto do objeto de sua busca;
16- CONFRONTO: o Herói e o Vilão se enfrentam em combate direto;
17- HERÓI ASSINALADO: ganha uma cicatriz, ou marca, ou ferimento
18- VITÓRIA sobre o Antagonista
19- REMOÇÃO DO CASTIGO/CULPA: o infortúnio que o Vilão tinha provocado é desfeito;
20- RETORNO DO HERÓI: (a maior parte da narrativas termina aqui, mas Propp identifica uma possível continuação)
21- PERSEGUIÇÃO: o Herói é perseguido (ou sofre tentativa de assassinato);
22- O HERÓI SE SALVA, ou é resgatado da perseguição;
23- O HERÓI CHEGA INCÓGNITO EM CASA ou em outro país;
24- PRETENSÃO DO FALSO HERÓI, que finge ser o Herói;
25- PROVAÇÃO: ao Herói é imposto um dever difícil; (narrar o ocorrido)
26- EXECUÇÃO DO DEVER: o Herói é bem-sucedido;
27- RECONHECIMENTO DO HERÓI (pela marca/cicatriz que recebeu);
28- o Falso Herói é exposto/desmascarado;
29- TRANSFIGURAÇÃO DO HERÓI;
30- PUNIÇÃO DO ANTAGONISTA
31- NÚPCIAS DO HERÓI: o Herói se casa ou ascende ao trono.

E aí gata, rola uma função 31 comigo?
E aí gata, rola uma função 31?

Adivinha quantos capítulos você encontrará em Agora que são elas? Sim, exatamente 31. A questão é que eles não seguem a sequência proposta por Propp, o que talvez seja explicado no começo do capítulo 27: “Misturando bem todas as cartas, talvez desse uma coisa parecida com isso que se combinou chamar de vida. Só ia ficar faltando a vida, é claro. Mas a dita tem formas estranhas de se manifestar” (página 147). É um detalhe curioso, porque parece justamente contrapor a previsibilidade de um modelo. Outra questão é como em determinado momento a identidade do que claramente pensávamos ser o herói é questionada, quando Propp diz “O caso é que você, digamos assim, você não é necessário” (página 166). O modelo de Propp prevê as mais variadas funções bem como classes de personagens, mas não enxerga um narrador-personagem. “O narrador é um fantasma, ele mal-assombra as histórias, elas poderiam passar muito bem sem ele” (página 115).

O próprio nome da filha de Propp por quem o narrador-personagem se apaixona também é parte da brincadeira. Norma Propp, norma como em regra, como em modelo: o modelo de Propp. E lembram quando falei do tom absurdo da narrativa? Vamos lá, para mais um nome russo: Viktor Chklovski e o termo Estranhamento. Copiando lá da dona wiki para ficar claro: o efeito criado pela obra de arte literária para nos distanciar (ou estranhar) em relação ao modo comum como apreendemos o mundo e a própria arte, o que nos permitiria entrar numa dimensão nova, só visível pelo olhar estético ou artístico. E aqui a chave de Agora é que são elas: é quase como se Leminski tivesse convidado os formalistas russos para um chá, para conversar sobre as possibilidades do romance.

Eu não sei sobre você, mas eu fico completamente encantada ao ver que um escritor conseguiu ir além do “contar uma história”. Nada contra livros que se sustentem meramente nisso, há grandes escritores que nunca ultrapassaram o “contar uma história”. Mas o que Leminski faz com Agora é que são elas é uma prova de que Literatura não é só isso. Há muito mais para se fazer com palavras. O convite para o jogo está aberto para o leitor, cabe a ele decidir se vai jogar ou não.

E antes que eu me esqueça, mais uma das lindezas do polaco-cachorro-louco:

E você aí ainda tentando entender como foi que ele apareceu na lista dos mais vendidos.
E você aí ainda tentando entender como foi que ele apareceu na lista dos mais vendidos.

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