Namorados Para Sempre

Eu já sabia da bola fora da distribuidora aqui do Brasil que resolveu traduzir Blue Valentine (um trocadilho do blue de tristeza, acredito eu) para, sei lá por qual motivo bizarro, “Namorados Para Sempre”. Resultado é que muita gente pode ter ido aos cinemas pensando que veria algo romântico e fofo (até porque tem o Ryan Gosling no papel principal) e bem, não é o caso deste filme. Há sim, uma infinidade de momentos fofos e românticos, mas o clima geral é de um tapa na cara: a história segue o caminho contrário dos romances que vemos por aí, do felizes para sempre – para mostrar algo que é bem comum: o que acontece quando acaba o amor, quando acaba o respeito que um tem pelo outro.

Mesmo a forma com a qual somos apresentados ao casal é diferente do convencional. A história de Dean e Cindy começa já pela crise, de quando pequenos atos do cotidiano já parecem irritar como se fossem coisas importantíssimas, quando um não parece mais sequer tocar no outro. O amor que resta ali está em Frankie, a filha do casal – é quase como se todo o afeto que Dean e Cindy sentissem um pelo outro fossem canalizados unicamente para ela, não sobrando mais nada. E disso vem a crise do casal, o que consequentemente leva ambos a começarem a refletir sobre o passado, de como foi que eles chegaram até ali. Uma tentativa de tentar responder a pergunta número 1 de qualquer fim de relacionamento: onde foi que erramos?

É aí que começam os flashbacks, montando uma espécie de quebra-cabeças para contar para nós que estamos assistindo como foi que eles se conheceram, como ficaram juntos, o que estava por trás do casamento. E são esses flashbacks que acabam criando uma necessidade de rever o filme, para pensar de outra maneira sobre alguns diálogos das personagens – como quando Cindy pergunta para Dean o que ele queria ser, já que ele tinha tanto potencial. Em outras palavras: queria saber por que ele tinha se tornado aquele loser, tão distante do cara com um futuro cheio de possibilidades que ela conhecera. A resposta dele, naquele momento é: “I didn’t want to be somebody’s husband and I didn’t want to be somebody’s dad, that wasn’t my goal in life. But somehow it was. I work so I can do that”. Um pouco mais além, quando vamos acumulando flashbacks o suficiente para entendermos o papel do ex-namorado de Cindy na trama, por exemplo; essa frase ganha todo um novo sentido.

E é evidente que esses diálogos entre os dois, ou mesmo a história deles não causariam tanto impacto se as atuações de Ryan Gosling e Michelle Williams não estivessem impecáveis. Você consegue enxergar o desprezo com que ela lança os olhos sobre o marido, o cansaço com aquela vida, a desilusão no trabalho – sem que ela tenha que dizer uma palavra sequer. O mesmo para Gosling, que na minha opinião tinha que interpretar a situação mais difícil no momento do rompimento, a de quem ainda ama a pessoa, e ainda acha que vale a pena lutar pelo relacionamento. A cena em que ele diz que não consegue mais aguentar tanta rejeição é comovente porque naquele momento vemos o quanto ele já fez por Cindy, o quanto é apaixonado por ela.

O bacana é que o presente e o passado dos dois seguem se mesclando até que coincidem no ponto alto do casal, o casamento, em uma cena lindíssima e ao mesmo tempo extremamente simples; e no ponto mais baixo, o rompimento definitivo, que confesso, me deixou com lágrimas nos olhos – especialmente nos momentos finais.  Chega a ser até cruel, mas ao mesmo tempo é real. E talvez por ser tão verdadeiro que seja tão tocante e tão triste. Você não precisa ter estado no lugar de Dean e Cindy para sentir a dor dos dois.

Vale muito a pena ver, mas é importante realmente ter em mente de que não é um filme água com açúcar. O Dean interpretado por Gosling é sim apaixonante, com todo o amor que sente por Cindy e Frankie, mas ainda assim o tom principal da história é o de melancolia pelo fim de algo tão belo como o romance entre os dois um dia havia sido. Para quem ainda não viu (o que acho pouco provável, já que eu sou a pessoa super atrasada tentando colocar os filmes em dia aqui), segue o trailer abaixo.

4 comentários em “Namorados Para Sempre”

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