Tópicos Especiais em Física das Calamidades (Marisha Pessl)

topicosFico imaginando o trabalho que deve ter dado para o pessoal do marketing da Nova Fronteira na época em que Tópicos Especiais em Física das Calamidades da Marisha Pessl foi lançado aqui no Brasil. Porque ele deve ser um pesadelo para quem precisa ter algo mais ou menos rotulado e ter público-alvo definido, não é bolinho mesmo. O modo como ele vai se transformando página após página foge do previsível não só em termos de enredo: é uma experiência nova, que vai exigir um tico de paciência, sim, mas que depois vale a pena.

Antes de continuar, algumas informações: a primeira é que o livro foi originalmente publicado em 2006 lá fora e chegou por aqui em 2008 (mas nada tira da minha cabeça que a Pessl criou sua protagonista como uma adolescente da década de 90, embora no livro as datas não batam). Além disso, vale dizer que eu li a edição americana, então já peço desculpas por alguns termos e citações em inglês – não tenho certeza de como ficou na tradução e prefiro não arriscar. Finalmente: ahm, spoilers. Não que seja um livro que dependa de surpresas para agradar (a autora revela muita coisa do fim já no início, para falar bem a verdade), mas nunca é demais avisar.

Então. O livro é narrado por Blue Van Meer, uma adolescente que perdeu a mãe em um acidente de carro quando tinha cinco anos, e que desde então passou a viajar pelos Estados Unidos com o pai, Gareth Van Meer, um professor universitário. Semestre a semestre lá vão eles para uma nova cidadezinha, nunca criando vínculos, o mais próximo disso são os namoricos rápidos do pai com as mulheres que Blue apelidou de June Bugs “(see “Figeater Beetle,” Ordinary Insects, Vol. 24)“. Até que faltando um ano para Blue começar a estudar em Harvard (porque era certo que uma garota como Blue seria aceita), eles param em Stockton, na Carolina do Norte. Blue começa a estudar na St. Gallway, onde conhecerá a enigmática professora de cinema Hannah Schneider e um grupo de alunos que a idolatram, os Bluebloods.

Aqui eu preciso confessar uma coisa: de certa forma essa parte toda envolvendo o começo da relação de Blue e Hannah, bem como o modo que aos poucos ela conseguiu seu lugar entre os Bluebloods, me fez lembrar MUITO A História Secreta de Donna Tartt. Tanto que eu já estava esperando algum crime que de alguma forma fosse o elemento principal que iniciaria o fim da amizade, o que de fato acontece lá pelas tantas. Por causa dessa semelhança acabei me enrolando com a leitura.

Porque no final das contas os Bluebloods são jovens privilegiados, aparentemente brilhantes e bastante arrogantes. Tratam Blue de tal forma que bem, para se ter ideia, os apelidos que dão para a menina são variações da palavra “Vômito”, por causa da primeira vez que Blue ficou bêbada e passou mal. Dá para perceber que ela nunca de fato é aceita, que só está ali por influência de Hannah.

É também o momento mais “young adult” do livro. Blue (que tinha como única companhia o pai) não consegue se afastar do grupo, mesmo que seja inteligente o suficiente para perceber que não é bem-vinda ali. Tem lá todos os elementos dos livros que já conhecemos bem: bailes, bebedeiras, amores platônicos – tudo sempre pontuado pelo sentimento de isolamento de Blue, de não pertencimento. E antes de seguir para a metade final do livro (quando vem a grande virada), eu queria parar um pouco aqui na questão da relação entre Blue e Gareth.

Ok, Gareth é uma personagem estranha. É detestável, especialmente pelo modo como trata mulheres (e, como consequência, a própria filha), mas ao mesmo tempo as melhores tiradas são dele (e mesmo algumas das falas mais bonitas, como ao dizer para Blue: “May you walk a lighted path. May you fight for truth – your truth, not someone else’s – and may you understand, above all things, that you are the most important concept, theory, and philosophy I have ever known.”).

Só que o que chamou minha atenção inicialmente foi essa relação entre os dois após a morte da mãe de Blue. É quase como se Gareth não enxergasse que com as constantes mudanças, ele isolava completamente Blue do contato com outras pessoas. Mesmo toda a educação dedicada à menina, acabava a tornando tão diferente que ela parecia condenada a nunca estar entre iguais quando com pessoas da mesma idade. Ela seria sempre uma intrusa (o que fica nítido quando ela começa a estudar em St. Gallway).

A influência de Gareth é nítida não só no modo como ela tenta ser sempre pragmática, racional – até nos momentos em que um surto seria justificável – mas, por exemplo, em como ela conta a própria história como se fosse um trabalho acadêmico, cheio de citações e referências (algumas reais, outras fictícias). Sobre essa fala meio pedante da garota, não há como negar: é chato. Mas ao mesmo tempo é necessário (e aí está o que comentei anteriormente sobre ter paciência). Ela é uma mini-Gareth, o que talvez explique até porque ele a ama tanto. Um sujeito narcisista como ele só poderia amar alguém que é igual a ele.

E tudo o que Gareth significa para Blue e vice versa é extremamente importante para o que virá na porção final do livro. Retomando aos fatos: após passar a frequentar a casa de Hannah com os Bluebloods e tudo parecer correr bem, a morte de Smoke, um amigo de Hannah, parece tirar as coisas do lugar. Hannah parece ter caído em profunda depressão, dando algum sinal de recuperação quando marca um acampamento na montanha com os Bluebloods. É lá que ela se suicida, sendo que é Blue que a encontra enforcada na árvore (Blue descreve o encontro já na introdução do livro, então insisto que não é o tipo de história que se perde a graça com spoilers).

Nesse momento da morte de Hannah, é interessante resgatar um diálogo entre ela e Larson, que trabalha em uma loja de conveniências (há, conveniente/conveniências, sacou sacou?). Ele acontece antes da morte de Hannah, mas funciona perfeitamente como foreshadowing:

“Gotta tell us if we’re in a comedy or a mellow drama or a whodidit or what they call a theater of the absurd. Ya just can’t leave us standin’ on stage with no dialogue”

I was aware of a certain convenience-store calm coursing through me, steady and ho-hum as the thrum of the beer fridge. Where I wanted to go, whom I had to talk to, was plain as the mirrored windows, the display of gum and batteries, Diamanta’s hoop earrings.

“It’s a whodunit”, I said.

A morte de Hannah é o evento principal, o que marcará a mudança no livro, o que fará dele um daqueles mistérios que você não consegue parar de ler. Blue tem certeza absoluta de que Hannah foi assassinada, que não foi um suicídio. Os Bluebloods, convencidos de que Blue matou Hannah, se afastam da garota. Por causa disso, Blue passa a investigar por conta própria o que pode ter acontecido naquela noite na montanha.

Quanto mais Blue descobre, mais próxima ela chegará de uma triste verdade: que seu pai não é infalível. E que momento triste o que ela descobre que Gareth fugiu (o que finalmente responde a pergunta: “Por que ela se refere ao pai no passado?”). Fora isso, o que talvez mais foi doloroso para a garota foi o fato de ele ter escondido o caso com Hannah, principalmente a possibilidade de que ele tenha acontecido quando sua mãe ainda era viva.

No início do post falei que muito do desfecho já é revelado no fim, e talvez aqui tenhamos um dos melhores exemplos: o primeiro capítulo, que descreverá a morte da mãe de Blue e os primeiros dias após o acidente, tem como sugestão de leitura/título Othello. Mesmo que o leitor ainda não saiba das galinhices futuras de Gareth, é impossível não questionar a razão da escolha de Blue para que esse livro em especial fosse a leitura complementar do capítulo. Quando a vizinha de cabelo arrepiado começa a chorar dizendo “I’m so sorry“, na hora já senti que tinha algo errado e obviamente comecei a desconfiar da traição, mas em um primeiro momento enquanto você lê a descrição dos mil casos de Gareth, fica só parecendo que ele é do tipo que só pensa com a cabeça de baixo, digamos assim.

Só que depois, com as novas informações que Blue acaba coletando ao investigar a morte de Hannah, e considerando o título do capítulo, fica a impressão de que Natasha ou se matou (ao descobrir o caso de Gareth) ou foi assassinada (por descobrir o caso de Gareth?). E é interessante perceber que são essas as opções no início, porque quando Hannah morre, elas retornam: ou Hannah se matou ou foi assassinada. Só que aí vem um ponto interessante sobre o livro: nada é definitivo, não há nenhuma resposta conclusiva. Foi Hannah a responsável pela morte de Nastasha? Ou Natasha se matou? E sobre a morte de Hannah, foi suicídio ou foi Gareth? Ou algum outro membro do grupo? etc.

(Eu tenho cá para mim que Natasha foi assassinada, e que Gareth estava envolvido: uma ação típica dos Nightwatchmen, vários membros do grupo executando ações que fariam a morte de uma pessoa parecer acidente. O que pesa mais para mim nessa leitura é que Gareth liga para Natasha e diz que ela não precisa buscar Blue na escola no dia em que ela morre. Se Blue estivesse no carro, ela também morreria.)

Enfim. Sei que alguns leitores têm horror só de pensar em finais em aberto, mas é um livro assim, que embora dê uma solução (os Nightwatchmen) ao mesmo tempo não dá todas as respostas: deixa um pouco para o leitor imaginar. O que no fim das contas acaba servindo muito bem para um livro que se recusa ser (facilmente) rotulado.

4 comentários em “Tópicos Especiais em Física das Calamidades (Marisha Pessl)”

    1. Nossa, esse era o meu comentário, haha., principalemente porque não lembrava direito da história. Achei muito interessante a análise que você fez da relação de Blue com o pai, Anica. Já te seguia no skoob, mas você parou de publicar as resenhas por lá… Por sorte achei seu blog de novo!

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