Roadside Picnic (Arkady and Boris Strugatsky)

Publicado pela primeira vez em 1972, o breve romance de ficção científica Roadside Picnicde Arkady and Boris Strugatsky é uma história para agradar não apenas aos fãs do gênero. Na narrativa ficamos sabendo que seres extraterrestres visitaram a Terra por um curto período de tempo, foram embora e deixaram para trás o que os cientistas chamariam de “Zonas de Visitação”, lugares onde estranhos fenômenos acontecem e que por conta dos perigos da região passaram a ser fechados para pessoas que não estivessem estudando os objetos ou os fatos que ocorrem lá. Porém, algumas pessoas tornaram-se “stalkers”, gente que entra nas zonas à noite para roubar o que encontrassem dos alienígenas para então vender por um alto preço para pessoas de fora. É em um desses stalkers que o romance se concentra, Redrick Schuhart.

É interessante observar a estrutura de Roadside Picnic, que prepara o leitor para o (fortíssimo) desfecho. Ao todo são cinco capítulos se considerarmos a entrevista na abertura como tal. A entrevista com o doutor Valentine Pilman situa o leitor no universo do livro: a questão da visita dos extraterrestres, como os cientistas estão lidando com o assunto, a natureza dos stalkers, etc. No segundo capítulo somos apresentados à Redrick, então com 23 anos e assistente de laboratório (e já um stalker). Esse capítulo é todo narrado por Redrick, que conhece tão bem o lugar que costuma saquear que logo traz para o leitor histórias que os cientistas desconhecem, envolvendo outros stalkers. É um capítulo importante também porque é nele que Redrick fica sabendo que sua namorada Guta está grávida.

Há então um salto temporal e no capítulo seguinte vemos a vida do stalker cinco anos depois, agora já sem um trabalho fixo, tirando a renda justamente dos objetos alienígenas que pega da zona de Harmont. Aqui o foco da narrativa passa para a terceira pessoa, um narrador onisciente que traz ainda mais informações sobre os eventos envolvendo as visitações. Descrições de alguns itens, incluindo a Esfera de Ouro, que dizem poder realizar qualquer desejo. São elementos que vão sendo apresentados aos poucos, como movimentos pensados de um jogo de xadrez visando o xeque-mate.

É interessante que em termos de ficção científica o livro não extrapola, continua mantendo um pé fixo na nossa realidade, sendo um retrato bastante próximo do real do que aconteceria se realmente fôssemos visitados. Os objetos alienígenas possuem nomes que na verdade são apelidos (geléia de bruxa, esponjas, vazios, braceletes, olhos de lagostas), que ajudam a compreender ou visualizar o que seria o objeto em si.

Chegamos então no que considero o melhor capítulo, com o foco permanecendo em terceira pessoa mas sendo alterado para o surpervisor de abastecimento de equipamentos eletrônicos, Richard Noonan. A personagem está relacionada com diversas outras da história, atando algumas pontas, mostrando também a realidade de Redrick sob outros olhos. Mas o mais importante é o diálogo com o doutor Valentine (o mesmo que concede a entrevista que abre o romance).

As ideias propostas por Valentine são geniais. Elas que acabam trazendo o título do livro, porque para o doutor o que os aliens fizeram foi apenas um picnic no meio de uma viagem. Eles provavelmente nem se deram conta da existência dos humanos, nem do que deixaram para trás e muito menos voltarão. A discussão entre Noonan e Valentine sobre o que caracteriza algo/alguém como sendo um ser de vida inteligente é realmente interessantíssimo, lembrando inclusive algumas teorias de Steve Pinker em Como a Mente Funciona (que seria escrito 20 anos depois).

Chegamos então na última parte, com o foco voltando para Redrick, agora com 31 anos. Acredito que para sentir o efeito do desfecho o ideal seja saber o mínimo possível da conclusão, mas vale ressaltar novamente como esse capítulo deixa evidente a estratégia dos autores, como cada um dos elementos fornecidos até então acabam contribuindo para o que virá. É realmente forte, e triste, mas ao mesmo tempo belo.

Roadside Picnic serviu como inspiração para Andrei Tarkovsky em seu filme (também genial) Stalker. Certamente os dois merecem ser conferidos, não importando muito a ordem já que são bastante diferentes entre si. Mas para aqueles que tem algum preconceito sobre ficção científica, fica a sugestão de leitura – Roadside Picnic provavelmente mudará sua ideia sobre o gênero.

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