Balanço Literário do Mês: Abril

Há quem diga que o melhor jeito de começar a odiar literatura é cursar Letras. Se isso é verdade, então eu posso dizer que dei sorte, acabei conhecendo professores que me apresentaram gente que ainda não conhecia, e criaram em mim paixão e respeito por outros que já conhecia, mas pensava não gostar. Porém, não vou negar que há algo bastante chato sobre o curso, especialmente se seu bacharelado é em Estudos Literários como foi o meu. Vai soar estranho o que direi, mas a parte chata é que você lê muito.

“Está louca? Isso é exatamente meu sonho!”. Pois sim, meu pequeno gafanhoto, era o meu também quando optei por esse curso e esta habilitação. A questão é que são leituras obrigatórias. E mesmo que dentre dessas obrigatórias eu quase sempre tivesse um prazer enorme em ler, ainda assim elas continuavam com esse status de… hum, obrigatórias. E aí eu lia muito, muito mesmo. Mas do que eu queria mesmo, era nada, porque quando chegavam as férias era óbvio que eu queria mais é descansar.

E aí eu me graduei e conheci um novo mundo. Poder pegar um livro da estante e ler pelo puro prazer de ler, aquela sensação deliciosa de se divertir com algumas páginas, por mais bobas que sejam. Eu não precisava mais procurar intenção do autor, estilo de narrativa, analisar espaço ou personagem. Era só leitura, só diversão. É algo libertador, simplesmente tocar o foda-se e ler até o que seus coleguinhas de Letras (e bem, pessoas que sequer entraram no curso) considerariam “subliteratura”.

Quando se lê por prazer, não tem essa de subliteratura, não, meu filho. Tem é você saber o que gosta e procurar por isso, seja um romance de algum russo deprimido ou algum livro para adolescentes. Não há nada mais triste do que se debater com um livro que você está odiando só porque um punhado de pessoas disse que é bom, ou porque é desafiador e portanto você parecerá mais inteligente porque o leu. Bobagem. Se você não é crítico literário nem graduando de Letras, você tem a liberdade (e eu acrescento também o dever) de se divertir ao ler um livro. Você não deve nada a ninguém, você não é obrigado a ler nada que não queira, até porque não faz disso seu ganha pão.

E é com isso em mente que desde o ano passado passei a fazer parte do grupo Largadores de Livro S/A. Sim, porque eu tinha uma compulsão absurda por ler até o pior dos livros até o fim, uma espécie de punição por ter escolhido um título ruim. Mas resolvi que a vida é curta demais e existem aí muitos livros para serem lidos para eu ficar perdendo tempo com coisa que não me agrada. E se estou contando isso agora, quem acompanha essa coluna já deve ter previsto que sim, esse mês abandonei um livro.

Foi o What Alice Knew, de Paula Marantz Cohen. Sou apaixonada por histórias passadas na Inglaterra vitoriana, mais ainda por fatos envolvendo Jack o Estripador e um tanto mais por figuras daqueles tempos. O livro prometia uma mistura disso tudo, incluindo Oscar Wilde e Henry James como personagens. Tudo para dar certo, mas não lembro de nos últimos anos ter lido algo TÃO RUIM. É difícil explicar qual é a química que faz algo parecer ruim para você e bom para a editora que resolve lançar um livro assim. Mas eu lia aquelas frases forçadas e ficava irritada. Já aconteceu com você, de se irritar com um livro de tão ruim? Pois é. Eu tinha que me controlar para não atirar o Kindle contra a parede, coitado.

E aí larguei. Sem peso na consciência, até logo e obrigada pelos peixes, vamos então de A Morte de Bunny Munro (Nick Cave) que no final das contas era bom o suficiente para que eu esquecesse o tempo que perdi com esse What Alice Knew. Nem sei se tem tradução no Brasil, espero que não e que nunca tenha. Porque eu tenho toda uma filosofia de tempo certo para o livro, mas eu acho que nesse caso nunca, jamais eu estarei no tempo certo. Acontece. Do mesmo jeito que livro que passa batido em uma fase da sua vida vira uma bíblia depois que você relê.

A verdade é que fora esse livro abandonado, o mês foi até muito bom. Finalmente li Lolita de Vladimir Nabokov (porque eu quis) e adorei. Eu que nunca tinha concluído um Salman Rushdie devorei dois (porque eu quis) e estou apaixonada, cogitando retornar à leitura de O chão que ela pisa (empacada desde os tempos da faculdade, confesso). Isso para não falar dos três Ficção de Polpa, que viraram tipo um xodó literário: aquele livro que eu falo para todo mundo que pede uma indicação do que ler, que eu quero dar de presente para todo mundo, que eu olho toda orgulhosa para a estante.

E no final das contas, por que as leituras do mês foram boas? Porque aprendi a me livrar da culpa de largar um livro, e mais ainda, dessa obrigação tácita de ter que ler aquela lista de clássicos que sei lá quem cunhou mas aparentemente servem de comprovante de que você é inteligente. Eu não preciso mostrar para ninguém que sou inteligente. Preciso sim, é do prazer de ler.

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PS: Lembro que uma vez estava conversando sobre James Joyce com minha maravilhosa orientadora, Luci Collin. Falei o quanto estava me batendo com Ulysses e o que ela disse foi “Deixe o Ulysses pra depois. Um dia será um prazer.”. Hoje em dia que tenho noção de quão sábias foram essas palavras. E que Deus abençoe o Google por me oferecer o Gmail e permitir que eu tenha guardadas estas conversas com Luci, porque se a faculdade de Letras valeu a pena foi principalmente por causa dessa professora.

Livros lidos: Ficção de Polpa Volume 2, As Intermitências da Morte (José Saramago), Ficção de Polpa Volume 3 (Vários), Triste Fim de Policarpo Quaresma (Lima Barreto), Ficção de Polpa Crime! (Vários), The Death of Bunny Munro (Nick Cave), Lolita (Vladimir Nabokov), Oriente, Ocidente (Salman Rushdie) e Luka e o Fogo da Vida (Salman Rushdie).

Leituras em andamento: Para Ler o Livro Ilustrado (Sophie Van der Linden) e Só Garotos (Patti Smith).

Livros que chegaram: Ficção de Polpa v.3 (vários), Lolita (Vladimir Nabokov), Gertrudes e Cláudio (John Updike), Para Ler o Livro Ilustrado (Sophie Van der Linden), Oriente, Ocidente (Salman Rushdie), O Longo Adeus (Raymond Chandler), A Guangue do Pensamento (Tibor Fischer) e Absolute Sandman v.2 (Neil Gaiman).

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