• Sobre nossa língua já não tão portuguesa

    lingua.jpgRecentemente diversos jornais têm alardeado a tal da reforma ortográfica que provavelmente passará a valer a partir do ano que vem. Alardeiam, mas não informam, o que já é um problema. Porém, problema mesmo, é a forma como estão anunciando que a tal da reforma “facilitará” o “complicado” português, uma vez que dores de cabeça como a crase sumirão do mapa.

    Honestamente, a idéia de “unificação da língua” que a tal da reforma tenta defender já é por si só estúpida. As pequenas fronteiras criadas entre o português daqui e o de Portugal, por exemplo, continuarão a existir. Neste caso, primeiro porque aparentemente nossos colonizadores são os únicos sãos a não sucumbirem à babaquice de “unificação”. Além disso, sejamos realistas: as diferenças entre o português brasileiro e os demais são unicamente ortográficas? Claro que não.

    É aí que vem o outro lado estúpido da tal da reforma. É um trabalho pela metade, mal feito. Não será realizada uma unificação de fato, porque bicha continuará sendo uma coisa aqui, e outra lá na terrinha de Cabral, por exemplo. Estruturas que são inimagináveis lá, continuarão acontecendo por aqui (como o “Me passa o sal”).

    Assim, a proposta já morre no berço. Reformas ortográficas não são novidade, o problema é que a idéia por trás desta simplesmente nunca chegará a se realizar: não haverá de fato uma unificação.

    Aliás, nem que todos os falantes da língua portuguesa adotassem um novo idioma isso funcionaria. Com o passar do tempo, ocorreria exatamente o que já vem acontecendo desde que passamos a ser colônia: sofrendo influências diferentes, ela se transformaria, novas regras seriam “criadas” pelos próprios falantes. *Essas* mudanças são as que funcionam: as geradas pelo tempo e por todos aqueles que falam a língua (e não uma meia dúzia de político imbecil que pelo visto não tem nada melhor para fazer).

    Aí, excluindo essa balela de unificação, o que sobra é o time dos que não estão nem aí para o fim das fronteiras lingüísticas, querem mais é que a crase caia porque simplesmente não sabem utilizar a dita cuja. Já ouvi gente dizendo que é a favor “da simplificação do português”, por exemplo. A pessoa, além de meio perdida, ainda por cima é daquelas que adora nivelar por baixo. É isso aí, minha gente, vamos mudar o “Se vou e volto da, nesse caso crase há. Se vou e volto de, então crase para quê?” para “Se eu sei usar, nesse caso crase há. Se eu não quero saber, então crase para quê?

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